Dia de Peixe
Dia de peixe
Texto: Roberta Mathias
É, tem dias que o rio está para peixe... Para o peixe ficar numa boa, escondidinho! Na semana passada, foi marcada uma pescaria em Bariri, em busca do delicioso tucunaré. Nosso guia de sempre, Diogenes Tadeu Gonçalves Leite, 51 anos, levou a equipe do Jornal da Cidade e também um companheiro pescador de São Paulo, Egidio Caleiro Santoro, 24 anos, editor do The Fishing World, site especializado em pesca. Foi uma pescaria gostosa e interessante. Como disse, era dia de peixe, e eles custaram a morder as iscas artificiais.
Chegamos bem cedo no reservatório de Ibitinga, na barragem de Bariri, onde a água vem do rio Jacarepepira, um dos
únicos não poluídos do Estado. O dia estava tranquilo, muito sol e sem nuvens no céu. Apesar de dias chuvosos, o sábado estava prometendo. Barco na água, tralha embarcada e saímos para encontrar os tucunarés amarelinhos e azuis.
Rodeamos o grande lago sempre batendo naqueles locais em que o tucunaré costuma habitar. O amarelo prefere os aguapés e o azul, os tocos submersos. Egidio e Diogenes, pescadores de carteirinha, eram nossas esperanças de um grande exemplar. Afinal, carregavam as técnicas e tralhas especiais com eles. A água estava escura. As chuvas anteriores haviam mexido muito a água, que normalmente é transparente e limpa. Visualizar o peixe tornava-se quase impossível. Mas eles estavam lá. Era questão de tempo, paciência e habilidade.
Ainda no comecinho da manhã, por um motivo até engraçado
(Egidio queria comer uma bolacha), o equipamento dele (vara e carretilha) caiu na água. Todos ficaram chateados, afinal, perder um jogo de pesca é um bom prejuízo. Aí, recuperar a vara tornou-se um objetivo comum. Todos começaram a tentar "fisgar" o equipamento. Roda o barco, procura, até o passaguá entrou na dança para encontrar a tal da vara. Apesar do local não ser muito profundo, o fundo cheio de barro não dava muitas esperanças ao pescador. Mesmo assim, continuamos nossa "pescaria". Tantas foram a insistência e a fé de Egidio, que ele acabou fisgando seu equipamento. Fizemos muita festa e rimos muito. Resolvemos mudar de local, pois ali, depois de muito barulho e saracoteios na água, duvido que os peixes arriscariam algum ataque.
Ainda pela manhã, ninguém havia fisgado nada. Apenas um ataque, mas o peixe escapou. Mas os pescadores continuavam insistentes. Afinal, a pescaria não se resume apenas ao encontro com o peixe. Bons momentos também são reservados para a caçada. Procurar o tucunaré tornou-se uma verdadeira caçada naquele dia. E a caça estava muito esperta, sem dar muita bola para os "caçadores".
O dia, cada vez mais quente, nos dava a promessa de momentos melhores. Aí, a pausa para o almoço. Encostamos em um pier para uma refeição leve e descansar um pouquinho.
É nessas horas que você percebe como é bom pescar. Mesmo sem um único exemplar capturado, o grupo continuava bem humorado e, de barriga cheia, pescadores começam a contar seus "causos" esperando o sol baixar um pouquinho.
Diogenes e Egidio ferraram o papo em suas aventuras de pesca. Dali saiu de tudo, até tucunaré voador de 60 centímetros! Cada passagem narrada mostrava a emoção do pescador e o seu prazer pela pesca. Aquela artificial preferida, aventuras no fly, novas técnicas, dicas, o bate-papo foi rolando e os menos experientes (eu e Roger) observávamos e aproveitávamos para aprender com eles. Na pesca com iscas artificiais, além de um bom equipamento, é necessário conhecer muito bem os hábitos do peixe e tentar desvendar o que ele procura em todos os momentos.
Depois, alguns arremessos de fly e nova pescaria. Agora é pra valer! A perseverança é palavra de ordem do pescador. É preciso continuar sempre. Egidio dava, em média, 300 arremessos por hora. É, para pescar com iscas artificiais também é necessário um bom condicionamento físico! E insistimos. Tanto que os peixinhos começaram a aparecer. No fim da tarde, os tucunarés começaram a atacar. Apesar de serem pequenos, 15 a 25 centímetros, mostravam toda a sua força e agressividade de predador. Egidio e Diogenes puderam fisgar tucunarés amarelos e também azuis, que foram fotografados e depois devolvidos para, no futuro, darem prazer a outros pescadores.
Ao anoitecer, perto das 19h30, retornamos. Fim de pescaria e missão cumprida. O interessante é a sensação de satisfação e tranquilidade. Naquelas horas mágicas passadas no rio, tudo fica em segundo plano e as preocupações e problemas do dia-a-dia ficam, realmente, em casa. É uma renovação de energias, que a pessoa que nunca esteve com a vara na mão esperando o encontro com o peixe não saberia definir. É um esperar gostoso, com cheiro de mato e gosto de aventura. Vale a pena provar, mesmo se o dia for de peixe e não de pescador!
Egidio Caleiro Santoro, 24 anos, é pescador, faz o último ano de engenharia mecatrônica, webmaster da WFC Assessoria
& Marketing e editor do The Fishing World, site especializado em pesca. Ele esteve em Bariri a convite do Pesca & Lazer.
Serviço
Para marcar a sua pescaria é só ligar para o Diogenes no telefone (014) 662-3533 ou 662-1691, em Bariri.
****************************** História de pescador ********************************
O gato pirangueiro
Num outro fato narrado por mim nesta sessão deste conceituado jornal, eu disse que em pescaria acontecem coisas tão estranhas, pitorescas e absurdas que quando citadas suscitam dúvidas e colocam o pescador no rol dos mentirosos. Mas entretanto esses fatos acontecem mesmo e mesmo sabendo que passará por mentiroso e "gozador", o pescador não deixa de contar.
Pois foi um desses fatos que presenciei e faço questão de contar não me importando se acreditam ou não. Tomé também duvidou de alguém um dia e "quebrou a cara".
Foi o seguinte: Eu tenho um amigo, cabeleireiro como eu, de nome Zé Dias, residente na cidade de Cerqueira César e que possui um belo rancho de pescaria às margens da represa de Jurumirim, no rio Paranapanema. A convite desse amigo, fomos, num belo domingo de sol, (digo fomos porque eu estava acompanhado de Vitor Ruiz, Isaac, Elias e Bertão Bellucci, este também residente em Cerqueira) conhecer e pescar neste aprazível local. Cite-se que para lá chegar tínhamos que passar pela cidade de Cerqueira para pegar as chaves do rancho, rever o amigo e ouvir as suas recomendações.
Por volta de seis horas, já com o amigo nos esperando, pegamos as chaves, compramos pão quentinho na padaria vizinha e, ao sairmos para o rancho, o Zé Dias falou:
- Caprichem na pescaria para que o Rubinho não pegue mais peixes que vocês, heim!
Não havíamos entendido a advertência!
- Rubinho é o gato que tenho e que mora lá no rancho.
Todos rimos da brincadeira do amigo.
Em lá chegando, o tal gato veio nos receber fazendo a maior festa esfregando-se em nossas pernas.
O local da pescaria era sobre um estaleiro construído pelo proprietário e que avançava cerca de uns quinze metros represa adentro, pois no local não existia barrancos e as bordas da represa eram muito rasas onde a água se tornava muito límpida e só se via minúsculos lambaris, por isso a necessidade do estaleiro.
No início e ao pé desse estaleiro existiam pedras onde se destacava uma em forma de laje e que deveria ter uns dois metros por dois.
Ao subirmos no estaleiro, o gato foi para cima dessa laje e olhava-nos com insistência, parecendo querer dizer-nos algo. Vitor, um dos colegas, atirava quirela de milho na água com a intenção de atrair lambaris maiores se aproximavam os menores, assustados, saltavam para cima numa altura de cinqüenta centímetros mais ou menos, oportunidade em que o bichano, aproveitando a chance, aplicava um tapa sutil e perfeito atirando o pequeno peixinho para cima da laje e, ato contínuo, o comia. O Rubinho repetia essa operação várias vezes até que se enchia de peixes e então, saciado, ia para dentro do rancho e dormia feliz.
Foi então que pudemos entender a advertência do Zé Dias em relação a nossa derrota para o gato. Ele já estava acostumado com aquilo.
Na volta da pescaria, ao devolvermos as chaves, o amigo cabeleireiro esclareceu a razão do nome do gato. Era uma alusão ao Rubens de Almeida Prado, grande pescador que tem programa de pescaria na TV, pois o inteligente bichano é tão exímio pescador como ele.
É mole? Chega ou querem mais?
Zélio Póvoa
É cabeleireiro, pescador e contador de histórias