Protesto condena "milícia" de grupo izzista
Protesto condena "milícia" de grupo izzista
Texto: Nélson Gonçalves
Movimento de entidades contrárias à permanência de Izzo acusam ações de "parasitas financiados pelo dinheiro público"
As entidades que compõem o "Movimento Fora Izzo" e Fórum da Cidadania, representadas por sindicatos, moradores, empresários e partidos políticos contrários
à gestão pepebista na cidade, voltaram às ruas ontem. O protesto que paralisou ônibus e chamou à participação da população contra o esquema de corrupção denunciado contra Izzo Filho, ontem, também condenou ações de simpatizantes do prefeito afastado. Usando um carro de som no meio da avenida Rodrigues Alves, sindicalistas se revezavam nos discursos contra a gestão izzista. Entre os discursos, os representantes do movimento condenaram o que foi chamado de "milícia" izzista, uma referência a pessoas contratadas por Izzo Filho que organizam e participam de ações "financiadas pelo dinheiro público".
Um dos sindicalistas a usar o microfone do carro de som no protesto de ontem, Duílio Duka de Souza definiu que "a cidade não pode aceitar que parasitas, que encontram dificuldades de se estabelecer no mercado de trabalho, sejam usados pelo prefeito para ações condenáveis, com o financiamento do dinheiro público". Duka apontou para contratações em cargos de confiança na gestão Izzo, comentando que essa providência levou à formação de grupos de pessoas que por "dificuldades de qualificação profissional" não estariam conseguindo oportunidades no mercado de trabalho. Os adeptos desses cargos de confiança, com salários pagos pelo contribuinte - que variam de R$ 600 a até mais de R$ 2000 em alguns casos - levariam à formação de grupos que, na avaliação do sindicalista, estariam vendo na participação das ações em favor de Izzo Filho a forma de manter rendimentos. O Movimento Fora Izzo condena que o dinheiro público esteja sendo utilizado para o financiamento da formação desses grupos. O Sindicato dos Servidores Municipais, um dos que integram o protesto, vem criticando, há alguns meses, a desvalorização do servidor público de carreira, que se submeteu à concurso, enquanto que uma pequena parcela
é beneficiada com salários mais convidativos e com a facilidade de um convite. O vereador Edmundo Albuquerque (PSDB) também critica o "empreguismo generalizado em repartições públicas municipais, uma contradição política e financeira sem precedentes num momento em que a Prefeitura de Bauru vive mergulhada em crise por dívidas".
Os discursos do movimento que protesta contra Izzo Filho, entretanto, ampliam que a chamada "milícia" não seria uma mera ação de empreguismo, nepotismo ou apadrinhamento político para simpatizantes. Ontem, na avenida Rodrigues Alves, o movimento alertou para o risco social da propagação de ações condenáveis financiadas pelo contribuinte, através da ampliação de grupos formados por funcionários sem apego ideológico, mas que "defendem a própria sobrevivência".
Pelo microfone de carro de som, Duílio Duka apontou para funcionários com cargos de confiança que não fazem parte do grupo político do prefeito mas que agora estão agregados à administração e servem a ações "condenáveis". Um dos exemplos alertados pelo sindicalista é a publicação
"clandestina de jornais feitos por funcionários com cargos de confiança instalados na própria Prefeitura, publicações que lançam mentiras sobre a vida de pessoas que questionam os atos do esquema de corrupção deste governo". Para Duka, é preciso que a população se manifeste contrária a essas ações "para demonstrar para a Justiça o risco que significa o prefeito afastado continuar tendo a caneta na mão".
O alerta foi feito em relação às publicações do "O Bauruense", um semanário sem identificação de diretoria e registro em seu expediente que ataca jornalistas, empresários e vereadores de oposição a Izzo Filho. O sindicalista lembrou, no protesto, que a publicação está com materiais apreendidos pela polícia, ao lado do gabinete de Izzo, como computadores, onde são identificados funcionários de carreira como possíveis autores das matérias.
"O Bauruense" surgiu logo após o retorno de Izzo
à Prefeitura, quando conseguiu liminar no Tribunal de Justiça
(TJ), em 4 de dezembro do ano passado. No material apreendido pela polícia são identificados servidores contratados por Izzo, como os jornalistas Jair Aceituno e Cátia Carriço, além do pastor Alfredo Mingola, entre aqueles que teriam elaborado as matérias ofensivas da última edição. Também é citado o advogado Francisco Ramos, assessor do prefeito, como irmão da jornalista Maria Angela Ramos, que aparece como jornalista responsável do periódico, natural de Piraju, cidade natal de Izzo. Apesar dessas evidências, o prefeito afastado Izzo Filho havia negado que tivesse qualquer relação com aqueles que criaram "O Bauruense". Agora, a polícia apreende material a menos de 10 metros de seu próprio gabinete.
Apócrifos e bombas
O movimento Fora Izzo também condena a ocorrência de atentados e distribuição de apócrifos na cidade. São citados como pano de fundo dos acontecimentos os panfletos, apócrifos com ofensas à moral de empresários do setor industrial ou de comunicação e até mesmo a explosão de bombas na residência de vereadores. Quatro bombas caseiras foram jogadas nas casas de vereadores, coincidentemente somente daqueles que votaram pela cassação de Izzo. Entre eles, Luiz Roberto Relvas (PDT) foi relator da primeira Comissão Processante que cassou o prefeito, denunciado por omissão em relação a esquema de cobrança de propina. Luiz Carlos Valle (PDT) foi membro do grupo de sustentação de Izzo na Câmara, onde foi presidente até dezembro
último, mas condenou a instalação de "uma quadrilha na Prefeitura". Rubens Spíndola (PSDB) preside a segunda Comissão Processante que apura outras denúncias de corrupção contra Izzo, através do depoimento de 14 fornecedores apontados como vítimas de cobrança de "caixinha". Erlon Junqueira (sem partido), a primeira vítima das bombas caseiras, foi membro do grupo izzista e também votou pela cassação do mandato.
Retornando à citação das "milícias izzistas", que no dicionário Aurélio quer dizer
"tropas auxiliares de segunda linha", outros representantes trazem exemplos de situações consideradas graves. O prefeito em exercício, Nilson Costa (PL), por exemplo, condenou a contratação de dezenas de servidores considerados sem necessidade e finalidade pública definida. Menos de uma semana depois de retornar ao cargo, em função do afastamento de Izzo, na semana passada, Nilson Costa comenta que já se somaram dezenas de exonerações de pessoas que eram frequentemente encontradas entre os participantes dos grupos izzistas.
Entre os indicadores, o atual chefe do Poder Executivo aponta para os seguranças do prefeito, os mesmos contratados de form particular ainda antes da cassação do mandato pela Câmara, em agosto do ano passado. Hoje, alguns deles exercem a mesma função, desta vez contratados em cargos de confiança, sobretudo na Emdurb. O vice no exercício do cargo chegou a obter registro em foto de carro oficial estacionado na frente da residência de um dos seguranças. Nilson também condena que essas providências sejam pagas pelo dinheiro público.
Outra constatação da existência de servidores contratados com funções questionáveis foi registrada na própria sede do 3º Distrito Policial, onde existem inquéritos sigilosos apurando exatamente as autorias e responsabilidades pela ocorrência de atentados como as bombas caseiras e a distribuição de apócrifos. Ouvido em um dos inquéritos pela Polícia Civil, Sandro de Miranda foi cedido pela Cohab-Bauru para prestar serviço no mesmo 3º DP. Funcionário com cargo de confiança na empresa municipal ele foi devolvido quando vereadores perguntaram sobre a cessão através de ofício à Delegacia Seccional.
O prefeito Nilson Costa conta que determinou à corregedoria municipal a abertura de sindicância para apurar a existência de material do semanário "O Bauruense", enquanto, por outro lado, o setor administrativo faz um levantamento da oportunidade e conveniência das recentes contratações sem concurso realizadas em diferentes setores da Prefeitura de Bauru.
O prefeito em exercício ainda lembra que na argumentação do deferimento do pedido de liminar para afastamento de Izzo do cargo, o próprio juiz da 3ª Vara Cível, Mauro Ruiz Daró, alerta que a medida se faz necessária já que a presença de Izzo na chefia do Poder Executivo significa a possibilidade de "uso da caneta" para ações que podem prejudicar os denunciantes, no mínimo.
O deputado estadual Pedro Tobias (PDT) engrossa a lista daqueles que contestam as ações da gestão Izzo. Ele condenou, por exemplo, a contratação da empresa Pérola Turismo, sem licitação, se valendo do decreto de estado de emergência, em janeiro último, por R$ 240 mil. A empresa é do ex-diretor da ECCB, Adhemar Previdello, acusado junto com Izzo Filho em ação de responsabilidade civil por improbidade administrativa em extorsão contra a empresa permissionária do transporte coletivo urbano em Bauru.
O movimento Fora Izzo pretende intensificar as manifestações. O grupo izzista, por outro lado, aguarda para as próximas horas o retorno do prefeito afastado ao cargo, através de agravo de instrumento com efeito suspensivo que será analisado pelo Tribunal de Justiça.