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Vigilante rodoviário

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 14 min

Carlos Miranda é o primeiro super-herói nacional

Carlos Miranda é o primeiro super-herói nacional

Texto: Marcos Zibordi

Primeiro super-herói brasileiro, o "Vigilante Rodoviário" foi o primeiro seriado nacional e da América Latina.

Botucatu - Na década de 60, época do surgimento da televisão no Brasil, Carlos Miranda estrelou o primeiro seriado de TV totalmente brasileiro. Um policial rodoviário e seu fiel escudeiro, um pastor alemão, eram os protagonistas de "O Vigilante Rodoviário".

Montado em sua Harley-Davidson 1952 ou no "novíssimo" Simca Chambord 1959, Carlos Miranda e seu inseparável cão Lobo foram os pioneiros do seriado nacional, com concepção, cenário e direção de brasileiros feito para brasileiros. Nos primórdios da TV Tupi, eles deram início

à fórmula do "herói gente boa". Diferente dos super-homem americano, o Vigilante apanhava mais do que batia, não lutava karatê e nem era o galã super-musculoso que fazia as mocinhas babarem de frenesi.

Com a preocupaçãso de criar um herói nacional, a série começou em 1958 patrocinada pela Nestlé. Foram 39 episódios que retrataram basicamente a luta entre o bem e o mal, difundindo uma idéia sobre um fundo moral. Numa palavra, era uma dupla unida contra o crime e a injustiça.

A série começou ser exibida em março de 1961, na TV Tupi de São Paulo, transmitida todas as quartas-feiras depois do não menos famoso "Repórter Esso". No Rio de Janeiro, o "Vigilante" era exibido nas quintas-feiras, pois a fita precisava ser levada para cada emissora que fosse retransmiti-lo.

Apesar das dificuldades, a popularidade superou todas as expectativas e o seriado se transformou em líder de audiência, alcançando um dos maiores índices da história da televisão brasileira. Em São Paulo, "O Vigilante Rodoviário" alcançou 92% de audiência e, no Norte e Nordeste, 100%. Naquela época, 40% das casas brasileiras tinha televisão, sem contar os inúmeros

"televizinhos".

Para ampliar o público, a alternativa foi investir em cinema, inicialmente com o filme "O Vigilante Contra o Crime" e, dois anos depois, com "O Vigilante em Missão Secreta". Cada filme reunia 4 episódios de televisão.

Das 39 gravações previstas, 38 foram filmadas. Entre os atores lançados pelo seriado, estão Ary Fontoura, Ari Toledo, Juca Chaves, Fulvio Stefanini, Milton Gonçalves, Rosa Maria Murtinho e Stênio Garcia.

O Lobo

O pastor alemão Lobo nasceu em 1955 e pertencia a um soldado da extinta Força Pública. O cão dividia o estrelato com Carlos, pois já havia figurado numa propaganda do aço Fiel. Seu nome original era King, mas mudou em função do seriado, porque não poderia ter nome estrangeiro.

O cachorro tinha 5 anos quando começou no "Vigilante" e a afinidade entre ele e Carlos fez com que o cão se reusasse a voltar para casa. Lobo fazia todas as cenas sem dublê e, segundo quem o conheceu, era muito inteligente.

O cão ficou com Carlos até o fim de sua vida quando, pressentindo que ia morrer, fugiu de casa e foi encontrado morto num matagal.

Fã Clube

Em dezembro de 97 foi fundado o fã clube "O Vigilante Rodoviário", com a finalidade de preservar a história do primeiro super-herói brasileiro.

Atualmente ele conta com mais de 250 associados no Brasil inteiro, interessados em trocarem informações sobre o herói.

Segundo a relações públicas do clube, quase todo o material utilizado nas gravações do "Vigilante" está guardado, incluindo o carro e a moto.

Um livro deverá ser escrito sobre a história do herói. Segundo a relações públicas, a fase de pesquisa já está bem adiantada.

Serviço

Os interessados em obterem informações, trocarem material, fotos ou reportagens, devem entrar em contato com Fã Clube "O Vigilante Rodoviário". Ele fica na rua Fonseca da Costa, 433, Jardim da Saúde, São Paulo, Capital. CEP: 04151.060

"Vigilante" é homenageado em Botucatu

Texto: Marcos Zibordi

O ator Carlos Miranda esteve em Botucatu para uma mostra em sua homenagem

Botucatu - Carlos Miranda, 65 anos, tem uma história profissional e de vida que se confunde com a própria história da televisão e do cinema nacional. Para quem pensa que ele só fez o famoso seriado, Miranda também fez longas-metragens, atuou como produtor, diretor e ator, além do teatro. Com 65 anos, ele tem muito o que dizer sobre os primórdios de nossa televisão. Crítico lúcido, diz que o atual cinema nacional tem que tomar cuidado com quem tem "a caneca na mão", para não cometer fiascos como o de cultuar, segundo ele, uma "porcaria" como "Carlota Joaquina".

Em entrevista ao Jornal da Cidade, ele conta como iniciou na televisão, como, depois de ator, decidiu ser policial rodoviário e hoje é policial rodoviário reformado. A entrevista é uma lição de humanismo.

Jornal da Cidade - Como foi, na década de 60, fazer um seriado para televisão, nas condições técnicas em que ela se encontrava?

Carlos Miranda - Na verdade, a idéia de se fazer um seriado para televisão surgiu em 1958. A televisão tinha 8 anos e só passava documentário estrangeiro e festinha da família do Chateaubriant, aquele blá, blá, blá que não tinha a ver com a nossa cultura, com nada, era só papo furado. Aí começaram a fazer futebol, mas para futebol não havia link, a televisão era empírica mesmo, a 5 quilômetros de distância não pegava mais o sinal. Nós começamos a pensar numa maneira de ocupar este espaço, porque a televisão era recém-chegada no Brasil e ninguém sabia o que era São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, então era um negócio muito difícil, de você identificar a televisão no Brasil. Foi um trabalho para mostrar que nós brasileiros também podíamos fazer televisão.

Aí surgiu Alfredo Palácios e Ari Fernades, diretor e produtor, com a proposta de estudar uma maneira de fazer alguma coisa que ainda não havia sido feita na televisão. Só nos Estados Unidos havia seriado para televisão. Brasil, México, nenhum outro país da América Latina tinha se atrevido. Nós começamos a pensar e chegamos a uma polícia recém criada que tinha 10 anos e não era conhecida. Ela havia sido criada pela Adhemar de Barros para colocar os recém chegados, ex-pracinhas da segunda grande guerra. A polícia rodoviária, como era pouco conhecida, foi escolhida. Começamos a tentar arrumar alguma coisa que fizesse companhia ao herói. Se pensou em cavalos, macaco, pássaro, até chegar no cachorro. O diretor do filme havia assistido, há muitos anos atrás um filme, que não era série, em que o personagem andava num patinete puxado por um cachorro. Nós desenvolvemos a idéia até se chegar ao consenso de que seria o cachorro. Nós ficamos sabendo que havia um cachorro que havia feito uma propaganda. Nessas alturas eu era o diretor de produção que ajudava escolher as pessoas para fazerem o teste para fazerem o herói...

JC - ... você ainda não estava cotado para ser o herói?

Miranda - Eu ainda não era o escolhido. Depois de cento e trinta testes os amigos falaram, ô Carlinhos, faz o teste. Eu peguei uma farda de alguém lá, uma bota quarenta e dois, eu calço quarenta e quatro, e assim por diante. Eu fui fazer o teste e fizemos em 16 milímetros, porque na televisão esse tipo de tape (atual) nem pensar. Magnético nem pensar, só para fazer gravação e assim mesmo naqueles gravadores que precisava 4 pessoas carregarem. Vídeo tape nem sonhava, colorido muito menos. Nós fomos para Mogi das Cruzes fazer o teste. Disseram: você vai ter que andar nessa motocicleta, você já pilotou? Eu nunca tinha visto ela nem mais velha, nem mais gorda, nem mais magra. Olhei para a máquina e disse: eu tenho que montar nesse negócio? Tem. Eu era ator do teatro popular do Sesi e falei, que ator sou eu? Eu montei na moto, liguei e sai andando. Nunca tinha pilotado. Eles ficaram desesperados. Fui fazer teste de briga, imagina, há cinqüenta anos atrás eu era mocinho, forte.

Eu deixei de ir ao cinema para não pegar tic, não seguir nada de outros atores, porque o ator tem sempre um ídolo. Eu procurei me afastar porque, primeiro, era o primeiro herói brasileiro para televisão, um personagem que não havia na televisão nem nada, eu não podia me apoiar em nada. Graças a Deus foi um negócio que deu para a gente passar incólume e, depois que nós fizemos alguns capítulos, eu comecei perguntar e havia uma grande controvérsia: perguntavam como o herói apanhava, o quepe caia da cabeça, porque o que nós tínhamos na televisão era que o mocinho nunca perdia o quepe, batia

à beça e ganhava todas as meninas. Eu não posso fazer o galãzinho, porque ele só agrada uma faixa do público feminino. E uma faixa do público masculino fica com raiva do galã. Eu me ative a ser apenas o herói. Ninguém tinha idéia de ser herói, de ser mito de televisão, nós queríamos apenas um emprego naquele veículo que estava chegando. Então nós fizemos com este objetivo, de mostrar que no Brasil também se podia fazer cinema, nada mais do que isso. Dinheiro nem se fala, ganhava dois salários mínimos por mês.

JC - A preocupação era também mostrar locais representativos do Brasil?

Miranda - Bem lembrado. Quando nós começamos fazer a série, nós queríamos aliar a aventura

à cultura. Então nós tínhamos que dar informações. Nós fizemos um filme no Butantã, porque existe o Butantã, o que ele faz para a comunidade, para o Estado e para o mundo. Na grande maioria das histórias que nós filmamos, tinha um fundo educativo, sempre com a lei vencendo no final. Naquela época, também, nós tínhamos uma outra idéia de nação, de cidadania, era diferente. Não se falava em cidadania mas se tinha mais respeito pelos direitos das pessoas. A gente gostava era do país, éramos nacionalistas sem bandeira, a gente lutava para mostrar que nós pertencemos, ou pertencíamos, ou que vamos pertencer, a um país que quer liberdade, viver bem. A mensagem tem tudo isso. Sempre um mensagem de justiça e, principalmente cultural. Todo início de filme que a gente fez para a série mostrava o lado educativo do negócio.

JC - Depois do seriado, começa a fase de grande produção do cinema brasileiro. Quem que fez e como fez aquele cinema?

Miranda - Na verdade, o grande desenvolvimento do cinema dito intelectual foi na Vera Cruz. Por volta de 50 mais ou menos, ela se instalou em São Bernardo e contratou grandes diretores, montadores, iluminadores. O Tom Paine, Rogério Jacob, Bob Huck. Foi uma tentativa da Vera Cruz de fazer um cinema intelectual, mais europeu que americano. Não deu certo porque eles se esqueceram que quem vê o filme é a platéia, não é o crítico. O crítico ganha para meter o pau e a platéia vai para fazer a indústria se reciclar, continuar. Perdemos para Atlântida, que tinha Oscarito e Grande Otelo, que faziam o que o povo gostava. Você mudar a mentalidade de um povo de um dia para o outro através de uma manifestação artística como o cinema

é muito difícil, demora décadas. E a Vera Cruz teve o fim que teve. Há pouco tempo, o governador fez uma tentativa de retomar a Vera Cruz. Eu fui lá, o Valadão, o Anselmo Duarte, foi a turma toda, os velhinhos. Nós assistimos um triste espetáculo, com o governador fazendo um discurso maravilhoso, todo mundo batendo palma, mas na hora do vamos ver, cinema é dinheiro, se você não tem dinheiro para produzir, não adianta nada.

É lindo você falar que o Jorge Amado tem um história linda. O Jorge Amado tem uma história linda e eu tenho uma bela paisagem atrás de casa, e daí?

Eu estou falando do alto dos meus cinqüenta anos de cinema, mas ele vai continuar assim porque os políticos vão repetir os discursos e enquanto não tiver gente lá dentro que entenda o cinema como cultura, vai continuar desse jeito. Tem que entrar também o produtor que vê o lado comercial, porque sem os dois não há cinema.

JC - Como você analisa o cinema hoje, o Central do Brasil?

Miranda - Maravilhoso, maravilhoso. Só que tem uma coisa, se o Waltinho não se chamasse Moreira Sales ia ser difícil para ele. Ele é filho do dono do banco Moreira Sales. O Walter Moreira Sales foi dono de um dos maiores bancos do Brasil. Não estou tirando o mérito, ele é um grande diretor, mas ele tem atrás de si alguma coisa para não deixar ele cair. Eu conheci diretores como o Roberto dos Santos, o Nélson Pereira dos Santos, o Robertinho, irmão dos Faria. Agora, os Barreto já pegaram uma linha da Embrafilme, já pegaram uma gaita.

JC - Isso é uma crítica aos Barreto?

Miranda - Não é, eles estão certos, eles foram atrás da mina, porque morando no Rio era mais fácil tirar dinheiro da Embrafilme do que morando em São Paulo.

JC - Você também é da opinião de que a Embrafilme mais prejudicou do que ajudou o cinema brasileiro?

Miranda - Sempre prejudicou o cinema de São Paulo, sempre. Alguns cariocas ficaram ricos, montaram grandes restaurantes com dinheiro da Embrafilme. Eu conheço um graaande ator de cinema brasileiro, que é vivo, que montou um sítio chamado Embrasítio.

JC - E a filmografia?

Miranda - Eu comecei fazendo produção de cinema por volta de 1955, mas eu trabalho em cinema desde 49, como office-boy. Eu comecei fazendo "Arara Vermelha", depois eu emendei fazendo perto de 100 filmes, como contra-regra, como assistente de produção, que na maiorias das vezes eu fui assistente de produção, diretor de produção, depois como ator...

JC - E o que você não fez?

Miranda - Não fiz roteiro. Naquela época eu não tinha condições, faltava um pouco mais de cancha. O roteirista, ou ele nasce roteirista, ou ele tem que ter uma cancha muito grande para poder roteirizar, porque a coisa mais difícil no cinema é fazer roteiro.

JC - Depois disso, você virou policial rodoviário. Como isso aconteceu?

Miranda - É amor. Eu faço tudo por amor, por sonho, eu quero realizar. Eu fiz um barco quando sai da faculdade de turismo e queria revolucionar o turismo. Eu fiz um barco para 100 pessoas e ele está parado. Tem todas as condições, mais é sonho. Hoje talvez eu pensaria um pouco mais, mas também não me arrependo, não me arrependo de nada do que fiz. Então quando você diz que o sujeito deixou de ser ator para ser policial, vai muito da pessoa.

Eu, por exemplo, quando filmei, eu conheci a polícia por dentro. 90% do nosso público não conhece a polícia. Rebelião numa cadeia, eles mandam quem, os padres, os pastores ou a polícia? Chega dentro da cadeia os caras tem estiletes, revólveres, um conhecimento bárbaro lá dentro. Não vai juiz, não vai promotor, eles mandam quem? A polícia. Elas também não é a melhor polícia do mundo, mas também não é tão ruim como a imprensa diz. Ela só vê depois que começou. Ninguém vê o dia-dia do soldado, como ele vive, onde ele mora, geralmente em favela. Eu não tenho procuração da polícia para dizer isso, eu estou falando como ator, como ser humano.

JC - O que você vê hoje?

Miranda - Teatro estou um pouco fora, mais eu vejo cinema sim. Quando a turma fala do Central, nós fizemos muitos

"Centrais" e ninguém deu valor. Em 1926 nós fizemos o filme mais importante do cinema mundial, chamado Limite, de Mário Peixoto. Então veja bem, nós temos talento, o que nós não temos é uma política de cultura. Colocaram o Ipojuca Pontes para tomar conta da Embrafilmes no governo Color, é um absurdo.

JC - O que você sugere para os seus netos assistirem?

Miranda - É muito difícil, porque eu vivia minha época e eles estão vivendo a época deles. O que na minha época era para mim um negócio discutível como arte, hoje, tem gente que está elevando assim um Mojica, um Zé do Caixão, como gênio. Então eu deixei de entender de cinema, meus cinqüenta anos de cinema eu joguei na latrina, porque determinadas pessoas que não fizeram absolutamente nada, mas que tem a caneca na mão, é que são endeusados. Eu fiz Independência ou Morte e tenho o maior prazer em dizer que eu fui diretor de produção do filme. A Carla Camurati ficou rica fazendo a Carlota Joaquina, gente, é ridículo, duas vezes ridículo, mas a mídia, a mídia entre aspas, fez o maior elogio à Carlinha. Pô gente, tem a caneca na mão, tem o dinheiro, não interessa como, mas tem.

JC - Para finalizar, conta aquela história da morte do Lobo.

Miranda - O cachorro inteligente não morre na frente do dono, quando ele gosta demais do dono ele se esconde, ele foge para morrer. E com o Lobo foi assim, ele já estava com quase 16 anos e ele sentiu que chegou a hora. O cachorro é mais inteligente que o homem. A gente se identifica com o olhar. Ele pressentiu que estava na hora dele. Ele saiu, foi para o meio do mato e acabou morrendo.

Essa visão que eu estou te contando agora, eu não sou de falar muito, eu estou me abrindo hoje. Eu acabei contando coisas que normalmente eu não falo, mas eu estou numa idade em que eu não preciso ser mais hipócrita. A gente tem muito preconceito, cheio de dedos, fulano está roubando o estado, você vai falar... não tem mais isso. E hoje eu me abri, sei lá...

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