"Bichos" novos, vida nova
"Bichos" novos, vida nova
Texto: Adriana Rota
Calouros, veteranos e pessoas ligadas à hospedagem dos recém-chegados falaram ao JC sobre as expectativas para esse novo ano letivo
Quando o indivíduo deixa de ser vestibulando e realiza o sonho de entrar numa faculdade fora de sua região de origem, respira aliviado, briga com quem tiver de brigar e "mete a cara". Ele só não imagina que a avaliação de seu rendimento está apenas começando: agora, a prova é de maturidade.
Um dos momentos mais difíceis para o "bicho"
é encontrar uma toca para se estabelecer. Frente às inúmeras propostas que encontra no quadro de avisos de sua faculdade, opta por pensões, hotéis, casas de família, repúblicas já montadas ou mesmo pelo aluguel de um imóvel onde simulará seu habitat natural.
Para o calouro de Direito da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Ary Rodrigues Filho, 20 anos, que já está integrado numa república, essa não será uma tarefa das mais fáceis. "Por melhor que seja a convivência,
é muito difícil conseguir suprir a falta da família", avaliou.
Mas há também quem prefira morar em república mesmo tendo a família por perto. É o caso da bauruense Keila Grassi, 22 anos, estudante do 4º ano de Relações Públicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), desde 97 fora de casa. "O caso foi de necessidade: morar no Centro
é mais prático para quem estuda e trabalha. Não foi nenhuma heresia, lá em casa não teve estresse".
Keila mora com duas amigas, além de uma "bichete" que está entrando agora. Quatro ex-candidatas a moradoras serão acolhidas até conseguirem montar a própria república. O apartamento é o típico "coração de mãe". "A Universidade abre muito nosso caminho. Você não está lá só para estudar, só para viver o que está nos livros. É importante a convivência, o relacionamento, a solidariedade", ensinou.
Já a república de Luiz Gustavo Camargo, 23 anos, do 5º ano de Engenharia Elétrica da Unesp, não
é exatamente um "lar, doce lar", mas a convivência entre os "quase" seis moradores (dois que já moram com ele, um da mesma sala que está para entrar, a cadela Dara e quem mais tiver interesse em mudar-se para lá)
é pacífica. "O requisito básico para tornar-se morador é ter o hábito de pagar as contas em dia", ironizou. Luiz, que chegou a morar com oito pessoas ao mesmo tempo, disse que enfrenta bem os problemas básicos de república, como encontrar comida podre na geladeira ou surpreender a "secretária do lar" (grifo da repórter) deitada no sofá.
Para quem prefere um cotidiano mais tranqüilo e confortável, o promotor de eventos e formando em Direito pela ITE, Maurício David, 35 anos, tem a solução: ele aluga quartos em sua própria casa, no Jardim Estoril. David abriga, no máximo, duas pessoas por quarto. "Eu fico com o terceiro quarto e um outro é destinado para a 'mãe da casa'
(doméstica) que trabalha aqui. O pessoal racha a refeição e o valor pago por mês é usado para cobrir as despesas". David contou, orgulhoso, que já "formou" jornalistas, promotores de Justiça, dentre outros profissionais. "Atualmente tenho aqui um rapaz há quatro anos, outro há três e um calouro que está entrando agora. Já virou família".
O calouro mencionado é Douglas, 19 anos, filho do fiscal de rendas aposentado Armando Kazumi Nishisawa, 69. "Esse foi o segundo anúncio que nós contactamos. Melhor que isso aqui, só em casa. Meu filho mais velho morou em república e eu conheço a bagunça". Se depender dos pais, o avareense deve permanecer na casa de David até o final do curso, a menos que ele seja aprovado pela Unesp de Franca, da qual aguarda uma vaga.
O temor de Nishisawa (o pai), não é totalmente infundado. Existem pessoas, como Angela Rodriguez, 19 anos, estudante do 3º ano de Jornalismo na Unesp e 1º de Direito na ITE, que passaram por experiências não muito agradáveis na vida em conjunto. "Cheguei a morar em seis repúblicas nesses três anos, por motivos diversos. Foi contrato que chegou ao fim e achamos por bem separar, foi bagunça excessiva e diferenças de temperamento. Numa dessas ocasiões teve até briga feia, de quase sair tapa", revelou.
Mesmo com todos os contratempos, os entrevistados foram unânimes em ressaltar o lado positivo de viver em república: pessoas de cantos diferentes, com tipos de educação diferentes, que, no entanto, podem descobrir mil coisas em comum, além de desenvolverem um grande poder de compreensão.
Mãos à obra
Para quem prefere juntar um pessoal e formar a própria república, as notícias são animadoras: existem imobiliárias com programas exclusivamente voltados ao estudante, para prevenir dores de cabeça com fiador, por exemplo. A única exigência, comum para qualquer locatário,
é o cumprimento dos dispositivos do contrato de aluguel.
E, ao que tudo indica, a mentalidade dos proprietários de imóveis está modificando, para melhor. "Não
é para menos: de todas as minhas ações judiciais que envolvem problemas de aluguel em residências, que são 40% do total, nenhuma diz respeito a repúblicas", afirmou Leandro Lopes, 27 anos, gerente de uma imobiliária de Bauru.
Quem escolhe alugar por conta própria, como o vendedor de medicamentos Wilson Mortari, 62 anos, tem a oportunidade de negociar diretamente com o interessado, estreitando o relacionamento. O casal Mortari, que já aluga uma quitinete no fundo de sua casa, está fazendo reformas para receber dois estudantes.
"A casa ficou grande depois que filhos casaram. E essa é uma maneira de complementar o salário", justificou.
Existe também a opção pelos hotéis, que têm nos três primeiros meses o maior movimento do ano, em torno de 50% do total de hóspedes. De acordo com Sandro Robson Fonsati, 29 anos, recepcionista de um hotel da região central, são estudantes de diversas faculdades, que encontram planos especiais de pagamento.
Serviço
Os diretórios acadêmicos da Unesp mantêm uma listagem de oferta e procura de repúblicas, além de um programa de orientação aos calouros. O telefone
é 230-2111, ramal 143