Vinda de rurais causa receio na região
Vinda de rurais causa receio na região
Texto: Fábio Grellet
A suposta contratação de mil cortadores de cana vindos de Minas preocupa prefeitos e vereadores da região, que temem manutenção do desemprego
Pederneiras - A informação de que a Usina São José - que produz açúcar e álcool e é sediada em Macatuba - vai trazer um grande número de trabalhadores de Minas Gerais para cortar cana na região está causando preocupação a prefeitos e vereadores da região, os quais temem que os trabalhadores que moram na região e habitualmente ocupam essas funções permaneçam desempregados.
Segundo Reginaldo Monteiro (PT), vereador em Pederneiras, os indícios da chegada de trabalhadores vindos de outras regiões surgiram no último sábado, quando algumas famílias moradoras de três colônias nas fazendas Brasil e São Pedro (que, segundo o vereador, pertencem à Usina São José) o procuraram para informá-lo que elas estavam sendo transferidas para outras colônias próximas
à Usina Barra Grande, que fica em Lençóis Paulista e pertence ao mesmo grupo empresarial.
O vereador confirmou que as famílias haviam se mudado quando soube que a professora de uma escola, mantida pela Prefeitura de Pederneiras na fazenda São Pedro, chegou à instituição, na segunda-feira, e encontrou as salas vazias. Os alunos haviam se mudado, com suas famílias, para outras colônias.
Segundo Reginaldo, a intenção da empresa é trazer cerca de mil trabalhadores, vindos de Minas Gerais, para atuar no corte de cana para a Usina São José. Só viriam homens, que deixariam suas famílias nas cidades de origem.
Segundo Reginaldo, ainda há trabalhadores morando nas colônias da fazenda Brasil, mas o prazo para que as casas sejam desocupadas se encerra no dia 20. A colônia da fazenda São Pedro já está vazia, à espera dos novos empregados.
Preocupado com a ocupação de vagas por trabalhadores de regiões distantes, em detrimento dos trabalhadores da região - que, assim, devem permanecer desocupados -, os vereadores de Pederneiras organizaram uma comissão, composta por três deles, para conversar com a direção da empresa. Como o problema atinge várias cidades da região, os vereadores de Pederneiras decidiram convidar colegas de outras cidades da região, além de prefeitos, para participar do encontro. Através do vice-prefeito de Pederneiras, Carlos Alberto Cury Frascarelli, a direção da Usina São José foi contatada e admitiu a possibilidade da reunião ocorrer na próxima terça-feira. Na segunda-feira, o encontro será confirmado.
Além dos representantes de Pederneiras, também devem ser convidados para participar da reunião, segundo Reginaldo Monteiro, prefeitos e vereadores de Lençóis Paulista, Macatuba, Agudos, Borebi e Areiópolis.
Se, durante a reunião, ficar evidente a impossibilidade de contornar o problema, Reginaldo Monteiro afirmou que vai entrar em contato com os deputados federais e estaduais que obtiveram mais votos na região, para cobrar deles a participação em um movimento no qual a situação seja discutida.
O vereador disse entender a posição da diretoria da empresa, obrigada a se adequar à situação econômica do país - que, segundo ele, foi bastante agravada pela política "caótica" de Fernando Henrique Cardoso.
Mas, conforme Reginaldo, é função das autoridades públicas tentar evitar o agravamento da crise social, e por isso pretende debater com a Usina uma forma de evitar que o desemprego se acentue ainda mais na região - o que deve acontecer, se realmente concretizada a contratação de trabalhadores de locais distantes.
Trabalho é temporário
A colheita da cana-de-açúcar se estende entre os meses de abril a dezembro. A maioria dos trabalhadores têm contratos temporários, que se encerram ao final da safra, geralmente em dezembro. No final do ano passado, segundo informou Reginaldo Monteiro, cerca de 4 mil trabalhadores, que prestavam serviços a várias usinas da região, foram demitidos. Mas eles dispunham da expectativa de serem recontratados, em abril, quando a colheita é reiniciada. O anúncio, ainda extra-oficial, da contratação de trabalhadores vindos de Minas Gerais, pela Usina São José - importante empregadora na região - deve gerar insegurança àqueles que aguardavam ser convocados para reiniciar o corte de cana.
Prefeitos defendem corte de cana manual para preservar empregos
Outra preocupação do Poder Público, referente ao cultivo e utilização da cana-de-açúcar, refere-se à mecanização da colheita. As máquinas, cada vez mais usuais, substituem muitos trabalhadores. Por isso, durante uma reunião, realizada em Catanduva, no último sábado, prefeitos e representantes de associações de produtores de cana, usinas de açúcar e álcool, fabricantes de veículos automotores, além de outras lideranças, discutiram propostas de sustentação do Projeto Frota Verde, que busca incentivar o aumento da produção de veículos movidos à álcool, para que seja mantida a viabilidade econômica do segmento agro-industrial nos municípios produtores de cana.
Segundo o secretário municipal da Indústria e Comércio de Lençóis Paulista, Ronaldo Ciccone, entre as principais conclusões da reunião, está a defesa da preservação do emprego no campo, com o uso de trabalho manual nas áreas onde a cana pode ser queimada para a colheita. A idéia
é propor um acordo com as usinas e fornecedores, que empregariam máquinas colheitadeiras apenas para o corte de lavouras onde a queima não é permitida.
Outra reivindicação dos municípios que produzem cana é a modificação da lei que estabelece o rodízio de veículos em São Paulo e impede que, uma vez a cada dez dias, os carros com determinado número no final das placas circulem.
A lei passaria a isentar do rodízio os veículos a álcool, considerando estudos que comprovam não ser este combustível tão poluente quanto os derivados de petróleo. Em contrapartida a esta pretensão, os prefeitos se comprometem a priorizar a compra de carros movidos a álcool para a renovação das frotas da municipalidade.
As montadoras que enviaram representantes a Catanduva anunciaram estar dispostas a aumentar o número de carros a álcool, conforme crescer também a procura. Atualmente, segundo dados revelados pelos fabricantes, é bastante irrisório o volume de veículos à álcool produzidos no país, em relação à quantia de veículos
à gasolina. Uma das montadoras, por exemplo, produziu, durante todo o mês de fevereiro, apenas 500 carros à
álcool.