Loucos por cinema
Loucos por cinema
Texto: Gustavo Cândido
Ficar em uma roda com eles pode ser irritante: um deles pergunta sobre a fotografia (que até então você achava que era apenas aquilo que você tira na sua máquina) de um filme de 1945, de um diretor francês que você nunca ouviu falar e o outro responde com naturalidade, daí outro fala a ficha técnica inteira do último filme em cartaz na cidade e começa a relacionar os nomes com os trabalhos anteriores de cada profissional. Você, que quase não consegue lembrar o nome do ator principal do filme que acabou de ver, passa mal.
Mas isso ainda é pouco, e quando eles começam a falar sobre conceitos e usam termos técnicos? Os cinéfilos são assim, fãs tão ardorosos do cinema que não perdem um lançamento, uma publicação especializada, um filme raro que passe na TV altas horas da madrugada e sempre, sempre se lembram qual foi o primeiro filme que assistiram no cinema.
Há uma semana da entrega do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o popular Oscar, os brasileiros estão mais interessados em saber sobre a sétima arte, mas, com certeza, não são muitos os que chegam a assistir oito filmes no vídeo por semana.
Como na maioria dos casos entre os fanáticos por cinema, os filmes entraram na vida do estudante universitário Mateus Bueno de Camargo bem cedo, quando ele ainda era uma criança.
"A minha mãe ma levou para ver '101 Dálmatas' e daí começou", conta, Hoje, ele tem em sua casa, aproximadamente, 250 filmes de vários gêneros. Seus filmes favoritos são dois clássicos: "Crepúsculo dos Deuses", de Billy Wilder e "O Poderoso Chefão", de Francis Ford Coppola. Na opinião de Camargo, os filmes são uma forma de arte, ao mesmo, popular e sofisticada, que atinge todas as camadas, mas fornece informações diferentes para cada pessoa que os assiste. Como todo cinéfilo que se preza, Camargo está sempre atualizado com os últimos lançamentos e tem em seu moderno vídeocassete o maior companheiro para as horas de folga em casa. "Assisto todos os tipos de filmes, não tenho preconceito porque acho que não existe filme ruim, cada um mostra alguma coisa nova", comenta.
A paixão do estudante pelo cinema é tão grande que ele decorou o seu apartamento com cartazes de alguns filmes clássicos como "Casablanca" e "...E o Vento Levou". E ainda tem mais, seu projeto de conclusão do curso de Jornalismo, que faz na Unesp, foi um livro sobre cinema, onde, além de contar a história da arte, fala sobre técnica e filmes famosos.
Mesmo sem se considerar um cinéfilo o jornalista Ricardo Tanaka é desses que poderiam participar de uma rodinha de fanáticos e deixar os menos informados irritados. Ele procura assistir todos os lançamentos cinematográficos no cinema mas como nem sempre consegue, vê tudo em vídeo no conforto do lar. Tanaka vê, exatos, oito filmes por semana, uma média maior do que um filme por dia! Se parece pouco
é só parar para pensar quais foram os últimos oito filmes que você viu? Provavelmente vai ser difícil porque a tarefa vai levar sua memória, pelo menos, ao mês passado.
"Acho que os filmes podem mudar a vida de uma pessoa", diz Tanaka, que acredita que as obras tem o poder de influenciar as pessoas, além de ser um ótimo passatempo. "É bom sair do cinema com aquela impressão de que o seu dinheiro valeu a pena e você viu um filme legal", explica. Os filmes favoritos do jornalista são "Blade Runner", de Ridley Scott e "O Poderoso Chefão Parte II" de Francis Ford Coppola, seu primeiro filme foi o espanhol "Marcelino Pão e Vinho".
O colecionador
"Os filmes têm se tornado mais populares para o público em geral", diz o responsável pelo departamento de foto e vídeo de uma loja da cidade. A afirmação procede. Até alguns anos atrás era muito difícil encontrar pessoas que compravam filmes para guardar em casa e ver quantas vezes quisessem. Atualmente várias lojas e locadoras já oferecem filmes de todos os gêneros para a venda (os filmes da Disney e sucessos de bilheteria como
"Titanic" são sempre muito bem vendidos) e as prateleiras estão sempre vazias, assim que a mercadoria chega, é vendida.
O mercado editorial e os jornais, percebendo a mudança de hábito do brasileiro também investiram nos filmes e têm lançado coleções com bons títulos e preços populares, compensando, em alguns casos a deficiência das locadoras, que, segundo todos os entrevistados, não possuem filmes muitos antigos nas suas prateleiras e estão preocupadas somente em alugar lançamentos, que dão retorno financeiro mais rápido.
O desenhista Leonardo Olimpio é um dos que têm aproveitado essa boa safra nas bancas. Com o cinema como único hobby, ele revela que sua coleção de filmes nos últimos meses aumentou de 176 para, por enquanto, 398 títulos. Seus favoritos são: "Ben-Hur", de William Wyler e "Apocalipse Now" de Francis Ford Coppola. "Prefiro assistir um filme bom de novo do que ver um filme que eu sei que ruim pela primeira vez", diz.
Mas como eles sabem que filme é bom e que filme não
é bom? André Figueiredo de Araújo responde:
"se eu olhar a ficha técnica de um filme e não conhecer ninguém eu não vejo o filme", explica,
"ainda sim, se o nome conhecido for de alguém pouco confiável, penso duas vezes", completa o cinéfilo assumido. Se o filme for ótimo e for iraquiano, por exemplo, Araújo, que vai para São Paulo nos fins de semana somente para ir ao cinema, diz que, espera a crítica soltar algum comentário antes de se arriscar a ver o filme. "O que é bom aparece", define. Seus filmes favoritos são estratégicamente: "O Encouraçado Potenkim" de Sergei Eisenstein e "Amarcord" de Federico Fellini.
Arte universal
Segundo a psicóloga Luciana M. Biem Neuber, o cinema é, além de um hobby, uma fonte de cultura, diversão e também uma forma de relaxamento, por isso muitas pessoas são apegadas a ele. Para Luciana, os diferentes gêneros cinematográficos se adaptam não só aos diferentes estados de espírito das pessoas mas também às suas diferenças naturais, de cultura, etc. Daí o caráter universal do cinema, cujos filmes podem ser sentidos mesmo quando contam uma história fictícia, no passado, de um lugar onde nunca vamos pisar um dia. "Os filme também
é uma forma das pessoas fugirem da realidade, por isso que o público em geral gosta de finais felizes nos filmes românticos. As pessoas se projetam na história da tela e vivem durante duas horas em um mundo sem preocupação", explica a psicóloga, que às vezes indica filmes para que seus pacientes possam entender melhor a situação que estão vivendo.
De acordo com Luciana Neuber, o gosto das pessoas pelos filmes muda durante a vida e reflete o estado que elas estão vivendo.
"Durante a adolescência, é comum o gosto por filmes agitados, violentos e cheios de movimento, porque é assim que os jovens nessa idade se sentem. Por isso eles geralmente detestam filmes parados", diz.