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Redação
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Medicina de Marília adotará sistema inédito de avaliação

Medicina de Marília adotará sistema inétido de avaliação

Marília - A Faculdade de Medicina de Marília

(Famema), a partir deste ano, passará a adotar sete tipos de avaliação durante os seis anos do curso médico. O objetivo da instituição é acompanhar de uma forma contínua, além do conhecimento teórico, o rendimento do estudante em aspectos envolvidos no processo de aprendizagem como raciocínio crítico e clínico, análise crítica das informações, habilidades e atitudes. O estudante será avaliado também na parte prática já nos primeiros anos em testes simulados.

As mudanças foram formuladas pelo Grupo de Avaliação, composto por docentes e estudantes. Neste processo, foram incorporadas sugestões dos coordenadores do programa, responsáveis por unidades e representantes dos estudantes.

Anteriormente, o estudante era avaliado basicamente por testes de múltipla escolha e provas dissertativas. Agora, os instrumentos buscam trazer mais realismo à avaliação médica, uma vez que simulam situações da prática profissional, de maneira coerente com o método de ensino-aprendizagem.

"No sistema tradicional os estudantes eram avaliados principalmente pela quantidade de informações acumulada. Agora, além do conhecimento, será importante o docente saber a sua capacidade de aplicá-lo", diz a coordenadora do Grupo de Avaliação, Valéria Lima. "Outra diferença é que estudante estará sendo avaliado constantemente e terá muitas oportunidades para melhorar seu desempenho".

Nos dois primeiros anos, serão cinco tipos de avaliação: desempenho em atividades de grupos, exercícios de avaliação cognitiva, exercício baseado em problemas, simulação de práticas médicas (Osce) e investigação científica (ver box). Nos terceiro e quarto anos, começam a ser avaliados os estágios e aplicados os exercícios do problema à monografia. A partir do quarto ano, o estudante passa a fazer testes preparatórios para o exame de residência.

Para controlar o subjetivismo no julgamento dos instrumentos por parte dos tutores e preceptores, os docentes utilizarão roteiros de observação, método de análise de discurso e checklists. Eles vão receber treinamento e orientação para avaliação e também serão avaliados pelos estudantes.

Segundo Valéria, todos os serviços da Faculdade, dos Hospitais de Clínicas e Hemocentro, também deverão ser avaliados em um sistema de Avaliação Institucional.

Famema traz especialistas em avaliação

O tema avaliação vem sendo objeto de palestras e oficinas de trabalho na Famema nos últimos meses. Em novembro, em parceria com a Fundação Kellogg, a Faculdade promoveu uma oficina com a participação de 30 docentes de escolas médicas do país. Foram convidadas as consultoras Helen Silver Blat, da Universidade do Novo México

(EUA) e Marina Seeger Meers, da Universidade de Masstricht (Holanda).

Meers estuda o tema há mais de 15 anos e dá consultorias e treinamento para professores na Holanda. Para ela, a principal dificuldade da avaliação utilizada na maioria das escolas é que ela é feita em separado. "A avaliação tem que fazer parte do processo de aprendizagem, não como uma coisa que você tem que fazer depois do aprendizado, como uma espécie de punição ou prêmio".

Meers considera que o método tradicional avalia mais a capacidade de memorizar o conhecimento do que saber se o estudante realmente aprendeu o que foi proposto. "É claro que você precisa memorizar o conhecimento, mas isto não

é tudo, você precisa saber usar o conhecimento". Segundo ela, o sistema de avaliação usado no PBL se adapta melhor às exigências do mercado atual.

"Os objetivos curriculares devem ser os objetivos do mercado. O que as empresas querem são profissionais que tenham habilidades para resolver os problemas do dia-a-dia. Não é mais tão importante o acúmulo de conhecimento". Outra vantagem do novo sistema de avaliação utilizada no aprendizagem baseada em problemas apontada por Meers é que este avalia também outras habilidades, além da memorização, como a criatividade, atitudes e a comunicação. "Na avaliação da prática médica não é apenas importante o conhecimento para se fazer um diagnóstico clínico, mas também se esse aluno sabe perguntar e se relacionar com paciente, e isto não é avaliado no sistema tradicional", diz. "Mais do que saber resolver um problema é preciso saber reconhecer o problema", completa. "A grande vantagem da metodologia de aprendizagem baseada em problemas é que ela transforma o conhecimento em habilidades".

O professor Ara Tekian, da Universidade de Illinóis (EUA), que também esteve na Famema ministrando um bloco do Mestrado em Educação para Profissionais da Saúde específico em métodos de avaliação, acredita que os métodos tradicionais podem esconder deficiências importantes durante a aprendizagem que os médicos podem levar para sua carreira profissional. Para fazer as mudanças

é preciso que os professores aprendam avaliar, recebendo treinamentos e capacitação. "É preciso saber relacionar a experiência da aprendizagem com a avaliação e saber como e o que o docente pode aprender durante este processo. Não avaliar por avaliar".

Como não há uma medida para avaliar a criatividade e a atitude, Ara Tekian acrescenta que a observação por parte dos docentes e avaliadores é um componente cada vez mais importante. "A avaliação está se tornando uma ciência. É preciso que as escolas invistam mais em workshops para preparar o seu corpo docente na utilização de instrumentos corretos de avaliação".

Ara Tekian acrescenta que há vários métodos de avaliação sendo utilizados para se avaliar conhecimento, procedimento, atitude, criatividade, mas o importante é a combinação dos métodos com os objetivos propostos na aprendizagem. "Há hoje vários profissionais excelentes para fazer um procedimento, mas não sabem se comunicar e se relacionar com os pacientes. Nós queremos que os médicos sejam mais humanos".

Estudantes terão caderno

de habilidades com 160 itens

Saber como lidar com violência familiar, suicidas em potencial, doenças terminais ou procedimentos legais em caso de óbito ou até o preenchimento de uma AIH, por exemplo, na maioria das escolas médicas do País só é conhecido quando o estudante se depara com a situação durante o internato ou depois de formado. As orientações não são organizadas no currículo e nem avaliadas periodicamente. Quando vêm, são dadas pelos docentes mais próximos em meio a conversas informais no corredor do hospital. A partir deste ano, todos os estudantes de graduação da Faculdade de Medicina de Marília do novo currículo receberão um caderno com mais de 160 habilidades. Elas terão que ser praticadas e avaliadas durante todo o curso médico. Para que o aluno seja diplomado, todos os itens terão que receber conceito satisfatório. A escola será a primeira do País a adotar o caderno de habilidades.

"A grande maioria dos médicos, hoje, se forma sem saber como lidar nestes casos. E por isso, nos EUA, 90% dos processos contra os médicos são resultantes da inabilidade do profissional se comunicar com os pacientes ou familiares", diz o professor visitante da Famema, José Venturelli, que está apoiando a implantação do caderno de habilidades. Ele trabalha na Universidade McMaster desde 1975, onde se implantou o primeiro programa de formação médica baseada em problemas do mundo. "O aluno do currículo tradicional não aprende a se comunicar, não recebe e nem é avaliado de uma maneira formal para reconhecer um caso de suicida ou mesmo fazer um prontuário", ressalta.

O material está dividido em habilidades comunicativa, educacional e semiológica e vai avaliar a capacidade dos futuros médicos em escutar, perguntar, falar, utilizar os recursos educacionais como a biblioteca, buscar dados por computador, fazer histórico, diagnóstico através da leitura de exames clínicos e laboratoriais do paciente, entre outros.

O Caderno procura contemplar também os aspectos éticos e legais do exercício da medicina: saber dos direitos dos pacientes, dos profissionais, do informe aos legistas, das incompatibilidades

éticas na prática médica e como lidar com a confidencialidade nos casos de pacientes com aids. "Os princípios éticos devem ser uma preocupação permanente e a defesa dos direitos das pessoas precisa ser uma constante durante toda a vida profissional", completa Venturelli.

Para ele, as habilidades profissionais estão centradas no desenvolvimento do profissional da medicina e permitem a aquisição de informações, execução de procedimentos diagnósticos e terapêuticos e a formação crítica no campo profissional.

Não bastará ao estudante conhecer como deve agir em determinada situação. Ele precisa demonstrar o conhecimento na prática com avaliação de um docente durante os seis anos do curso médico. O próprio aluno terá que procurar um docente para se submeter a avaliação.

"O profissional precisa de um alto grau de autocrítica e uma capacidade de busca permanente para melhorar suas habilidades e excelência profissional", destaca Venturelli. Como suporte para o treinamento das habilidades, a Faculdade montou o Laboratório de Habildades com um acervo de material didático para esta aprendizagem auto dirigida.

Venturelli ressalta que está se tornando primordial avaliar as habilidades e objetivos operacionais e não mais apenas

"cobrar conhecimento" dos estudantes mediante provas e testes teóricos. "O estudante deve aprender os conteúdos e relacioná-los com a realidade e ser capaz de demonstrar sua aplicação de forma sistemática".

Principais habilidades avaliadas

.Comunicações

Violência familiar

Tipos de abuso

Paciente psiquiátrico

Droga adição

Paciente de alto risco

Entrevistas difíceis

Entrevista de grupo

. Aspectos éticos e legais

Direitos do paciente e do profissional

Testemunhos em processos médicos

Inquéritos

Incompatibilidades éticas

. Documentação

Registro clínico

Prescrições

Atestado de óbito

Autópsia

Morte cerebral

.Avaliação crítica e raciocínio clínico

Exames de laboratório

Diagnóstico

Terapias

. Semiologia

Exame físico em adultos, idosos e crianças

. Busca de informação

Biblioteca

à distância

Birene

Medline

. Saúde comunitária

Trabalho em equipe

Serviços ambulatoriais

. Análises de Laboratório básico

Urina

Hemograma

Glicemia

Coleta de culturas

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