Geral

Entrevista

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Bauru não e terra de cangaço, diz procurador

Bauru não é terra de cangaço, diz procurador

Texto: Nélson Gonçalves

O procurador Geral de Justiça, Luiz Antonio Guimarães Marrey, disse que a cidade não vai virar praça de banditismo

Bauru viveu dias tensos, a comunidade conviveu com insegurança e setores da comunidade sofreram com atos de atentado. Instituições e entidades, entretanto, formaram grupos de resistência, se mantiveram firmes contra os dias de "Alagoas" e foram

às ruas, ou às delegacias de polícia e fórum, para condenar os atentados, formando uma frente anti-corrupção. O contexto foi desenhado pelo maior representante do Ministério Público no Estado de São Paulo. Para o procurador Geral de Justiça do Estado, Luiz Antonio Guimarães Marrey, os bauruenses não se curvaram diante da crise e deram respaldo para que as instituições que os representam retomassem a "paz".

Em entrevista exclusiva ao Jornal da Cidade, em seu gabinete, no centro de São Paulo, Luiz Antonio Guimarães Marrey retrata sua opinião sobre este momento da história política da cidade. O procurador geral, coordenador de uma equipe especializada em apuração de crimes contra prefeitos, coloca a situação de Bauru como a mais grave no Estado junto com Guarulhos. Para o Ministério Público a diferença é que em Guarulhos as denúncias de corrupção estão inseridas num Município mais rico e mais populoso. Entretanto, em Bauru as dimensões da crise foram proporcionalmente muito mais graves.

Guarulhos enfrenta situação parecida com a de Bauru. Lá o ex-prefeito Néfi Tales também foi cassado por denúncias de corrupção, como aconteceu com Antonio Izzo Filho em Bauru, sendo aqui por duas vezes.

O Município de Guarulhos tem arrecadação média mensal de R$ 40 milhões, contra apenas R$ 7 milhões em Bauru. Ainda assim, o comentário do procurador aponta a gravidade para o caso de Bauru: "a cidade viveu ações de banditismo. mas Bauru não vai virar terra de cangaço". A seguir, a entrevista com Luiz Antonio Guimarães Marrey:

Jornal da Cidade - Como o senhor avalia a situação de Antonio Izzo Filho, que teve o mandato cassado em Bauru, em relação às apurações em todo o Estado?

Luiz Antonio Guimarães Marrey - É uma situação muito difícil, para não dizer insustentável. Na medida em que há inúmeras ações civis e penais, os casos são extremamente graves e tenho esperança que o Tribunal de Justiça negue a segurança de uma vez por todas no mandado de segurança por ele impetrado e hoje o ex-prefeito está na situação de foragido que é algo absolutamente incomum para um prefeito de uma cidade da importância e da história de Bauru.

JC - O senhor pode fazer um paralelo do caso do ex-prefeito de Bauru com os de outros prefeitos que também passam por investigações em todo o Estado?

Marrey - Eu creio que há outros casos de cassação de prefeitos no Estado de São Paulo no momento mas talvez nenhum tão grave quanto a situação de Bauru na medida em que temos não só a imputação de fatos irregulares e atos de improbidade administrativa como também passamos até mesmo a constatar a prática de atos de banditismo. Banditismo vulgar, baixo, rasteiro, como esses que aconteceram e nós lamentamos porque verificamos em recente matéria jornalística a referência a comparação de Bauru a Alagoas. E Bauru é uma grande cidade é um sustentáculo do Estado de São Paulo no interior, uma grande comunidade, cidade de gente trabalhadora e que não merecia essa sorte ou este azar. Mas creio que nós temos que ter tomado essas situações negativas como uma lição. E a lição

é que as instituições paulistas estão funcionando com vigor, que a comunidade se rebelou contra essa situação e que certamente nós vamos encontrar uma solução de Justiça para que a cidade possa seguir tranquilamente o seu grande destino.

JC - Quando o senhor defendeu a suspensão da segurança no STF ainda não existiam os elementos dos atentados contra vereadores. Como o senhor vê essa situação hoje lembrando o argumento do perigo à ordem pública?

Marrey - Isto eu creio que confirmava a minha preocupação. A minha argumentação era procedente. Infelizmente o ilustre presidente do Supremo Tribunal Federal não se sensibilizou talvez à distância dos fatos com a argumentação e houve por bem negar a suspensão da segurança. Mas isto prova que ela era necessária e procedente. Talvez nós tivéssemos podido poupar alguns dissabores se ela tivesse sido concedida. Mas de qualquer maneira eu creio que o desfecho de tudo isso está mais próximo.

JC - A distância dos tribunais de segunda e terceira instâncias em relação a fatos que envolvem toda uma comunidade, um Município, é uma reflexão para o Poder Judiciário?

Marrey - Sem dúvida. Porque é claro que autos tribunais situados nas capitais talvez não tenham à primeira vista o conhecimento total das condições reais pelas quais passam uma cidade. Creio que o Judiciário tem que encontrar formas para que dentro da lei e da Justiça, obviamente não se trata de fazer um julgamento com base simplesmente na opinião pública, para naquilo que a lei exige encontre fórmulas. Em especial os tribunais que estejam mais distanciados dos problemas que envolvem toda uma comunidade, para poder captar efetivamente a realidade dos fatos e decidir aplicando a lei.

JC - Izzo Filho se colocava como perseguido por alguns promotores. Agora surgem depoimentos com planos para assassinar um promotor e um juiz. Como o senhor vê essa situação?

Marrey - Sempre vi essa situação com grande preocupação. Nós não vamos admitir o cangaço no Estado de São Paulo. Bauru não vai virar terra de cangaço. Esta referência, essa prova, me parece uma atitude desta natureza. Esta reflexão de perseguição por parte do Ministério Público já se torna uma desculpa gasta. Infelizmente as pessoas que são objeto de investigação deveriam procurar esclarecer os fatos e tem todas as condições de fazê-lo e não fazer esta afirmação. Quando isto começa a ser feito me parece que é um mau sinal. Um sinal de que as pessoas não têm muito o que explicar.

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