Geral

Auto-controle

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Fora de controle: A outra face

Fora de controle: A outra face

Texto: Gustavo Cândido

Por que uma pessoa aparentemente normal, que convive em um grupo onde tem uma posição de destaque, perde o equilíbrio e parte para a violência, agride verbalmente ou fisicamente "seus inimigos" e até manda matá-los? Embora esse caso soe familiar é apenas um exemplo, tirado do comportamento de vários líderes históricos

(desde os imperadores romanos até alguns ditadores deste século) para ilustrar uma situação que não

é tão incomum assim: a perda de equilíbrio emocional das pessoas. Considerada uma reação, até certo ponto, normal, que pode acontecer com qualquer pessoa, a perda de controle, às vezes, revela uma outra face do ser humano nada agradável.

Quem não se acostumou com as confusões do boxeador Mike Tyson ou com as brigas do jogador Edmundo? Elas são tão comuns que hoje ninguém duvida que os dois possuem

"algo de errado", além da simples falta de paciência e precisam de algum tipo de tratamento. É fácil falar quando o problema está apenas dentro do seu aparelho de televisão. Mas a realidade não é bem assim, existem muitos Mike Tysons e Edmundos por aí, às vezes muito mais perto do que se imagina.

As razões para a perda de controle de uma pessoa podem ser orgânicas ou psicológicas (emocionais), explica o psicoterapeuta José Luis Cremonesi, que se recorda de um caso de divulgação nacional em que um jovem normal, de comportamento exemplar, agindo por estímulos externos, matou uma pessoa porque no ambiente onde ele estava tinha uma substância química que acionou uma reação agressiva no seu cérebro. Esse tipo de caso é raro, segundo o especialista. "Geralmente o que acontece são casos de fundo emocional, que eclodem de repente, mas que na verdade não são de repente", diz Cremonesi.

"Esse tipo de desequilíbrio momentâneo, está intimamente ligado à palavra desespero", diz a psicóloga Zilá Flauzina Soucheff. Segundo ela, o ato em si, embora acabe parecendo loucura, não é um ato de loucura e sim uma maneira da pessoa expressar o seu desespero e sua falta de visão de uma saída para o seu problema, é um apelo. O suicídio é o maior dos desesperos na visão da especialista.

Acúmulo de mágoas

A "explosão" de uma pessoa não acontece de uma hora para outra, embora mesmo quem convive com ela não perceba, geralmente ela vai estar acumulando pequenas histórias de estresse, frustrações, medos e raivas que em dado momento vão se tornar insuportáveis, provocando a sua ira e conseqüente atitute anormal. "É o acúmulo de situações difíceis que a pessoa não soube resolver, até por falta de equilíbrio emocional. Uma pessoa com um bom equilíbrio emocional raramente vai entrar em desespero e agir diferente do que está acostumada", explica Zilá Soucheff.

É após o ato de anormalidade da pessoa, que pode ser qualquer coisa, desde uma briga de trânsito, um ato de violência ou uma decisão propositalmente maldosa, que se pode perceber se o problema tem alguma origem física

(mental) ou é apenas um rompante de fúria momentâneo de uma pessoa normal.

Essa diferenciação pode ser notada de acordo com a reação da pessoa. Se ela tiver a noção do ato que cometeu e souber que agiu de uma maneira errada (estando arrependida ou não), ela pode ser considerada normal. Na situação oposta, se a pesssoa não tiver a consciência do seu ato e achar que não fez nada além do que era necessário, é sinal de que ele passa da linha do normal e anormal e habita o imaginário. "As pessoas normais viajam para o imaginário e voltam para a realidade", diz Zilá Soucheff, "quem é anormal não, fica acreditando em fantasias". Dormindo com o inimigo

Existem casos em que casais vivem juntos por muitos anos, sem que um parceiro possa perceber no outro, qualquer traço de anormalidade. Até que ocorre um rompimento e as verdadeiras faces se mostram. São brigas na justiça por bens sem valor, brigas por causa dos filhos, que são usados como instrumento de disputa e todos os tipos de jogo baixo. Essa situação é tão corriqueira que pode parecer normal, quando não é. Um casal que vive junto por muitos anos, mesmo que não sintam mais amor um pelo outro, devem se respeitar, por educação, mesmo que existam mágoas, pelo menos é isso o que se espera de pessoas civilizadas. Mas quase nunca é o que acontece. Em alguns casos, pais chegam a seqüestrar os próprios filhos.

Agentes nocivos

De acordo com José Luis Cremonesi, as pessoas que têm tendência a perder o equilíbrio, podem fazê-lo mais facilmente se estiverem sob o efeito de drogas ou bebidas. Essas substâncias agem como elementos liberadores, que ajudam a pessoa a fazer aquilo que normalmente ela não faria.

"Às vezes a pessoa tem a vontade de fazer uma coisa

'errada' mas seu senso de responsabilidade a proíbe, e ela não o faz", explica Cremonesi, "com a bebida ou a droga, ela perde o senso e pode fazer tudo o que quer", completa.

Fenômeno geral

Como o texto inicial já comentou, pessoas que perdem o controle e cometem loucuras sempre existiram e, com certeza, continuarão a existir sempre. O número de assassinatos, escândalos provocados por má fé e outras anormalidades, por parte de pessoas tidas como sãs, têm aumentado tanto, que faz pensar se as pessoas não são mais "sensíveis" hoje do eram antes. Na opinião de José Luis Cremonesi, esse comportamento mais agressivo é resultado da situação que u mundo se encontra hoje em dia. "Não são só as pessoas que estão perdendo o controle, o país está perdendo o controle, a economia, tudo, as pessoas vão na esteira", diz.

A correria do dia-a-dia têm deixado as pessoas mais ansiosas e a perda do controle das pessoas reflete o mundo a sua volta, segundo o psicoterapeuta, "antes se você ia na fila de banco e esperava, hoje você não tem mais paciência para isso, a vida está muito estressante", afirma.

Segundo ele, essa é uma das razões para o aumento do fanatismo religioso das pessoas, que vêem na religião uma âncora. "A religião pode ser uma solução para alguns problemas, com tanto que ela não se torne fanatismo", salienta Cremonesi.

Além da linha vermelha

Sempre é uma surpresa para as pessoas, quando alguém ultrapassa a linha que divide a normalidade da anormalidade. Mas

é possível saber, por observação, se alguém tem a tendência para acumular "pequenos problemas", que um dia vão resultar em uma atitute violenta.

A psicóloga Zilá Soucheff afirma que pessoas que desenvolvem obssessivamente apenas uma atividade, como um garoto que só gosta de andar de skate e não fica feliz sem fazer isso ou alguém que só fica no computador, por exemplo, têm grande probabilidade de um dia virem a demonstrar comportamentos anormais. Do mesmo modo, pessoas que acham que sempre estão certas e não aceitam a opinião dos outros, chegando a ficar violentas quando são contrariadas.

"Se uma mãe observa um filho que tem um comportamento esquisito, deve logo encaminhá-lo a um especialista", recomenda Soucheff.

O tratamento com psicólogos ou especialistas na área

é o ideal para esse tipo de comportamento, ele se torna mais imprescindível ainda, se a pessoa não pensar que está doente. "Quando alguém vem, por conta própria, pedir ajuda, é porque tem a noção de que não está bem e precisa se curar", diz a psicóloga. Frases para irem no meio do texto:

"Achei que ele estava aparecendo demais e queria mostrar que era melhor que eu, por isso bati mesmo",

Confissão de Mateus (nome fictício), que agrediu em público um companheiro de sala de aula porque não conseguiu participar de uma equipe que iria representar a turma.

"Briguei com meu namorado por ciúme, não sou violenta mas aquele dia dei tapa, bati, arranhei, deixei ele todo marcado, só parei quando me seguraram"

amila (nome fictício), que uma semana após a briga fez as pazes com o namorado.

Comentários

Comentários