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Descarrilamento

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 4 min

Vagões descarrilados continuam cheios

Vagões descarrilados continuam cheios

Texto: Fábio Grellet

Dos dez vagões que descarrilaram domingo, apenas dois haviam sido esvaziados até ontem. Os trilhos seriam liberados ontem à noite.

Presidente Alves - Durante todo o dia de ontem, cerca de 40 funcionários da Novoeste trabalharam para desocupar os trilhos na área próxima a Presidente Alves onde ocorreu, por volta das 11h30 de domingo, o descarrilamento de dez vagões de uma composição que, ao todo, tinha 89 deles, todos transportando combustível. A linha, porém, só seria totalmente liberada para o tráfego no início da noite de ontem, segundo avaliavam os engenheiros da Novoeste presentes ao local

- Roberto Zambonatto, 49 anos, engenheiro responsável pelo setor de transportes, e Luiz Penna, engenheiro do Departamento de Manutenção da Via Permanente. Ainda segundo eles, as causas do acidente devem demorar ao menos 15 dias para serem definidas.

A composição saíra de Paulínia, onde os 89 vagões foram carregados com gasolina e óleo diesel, e tinha como destino a cidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Cada vagão carregava 35 mil litros de combustível. Dentre os 10 que descarrilaram, seis transportavam gasolina e os outros quatro, óleo diesel. Os engenheiros não informaram o número exato de vagões cujo conteúdo, na íntegra ou em parte, foi perdido. Mas afirmaram que

"pelo menos dois" apresentaram vazamento, sendo ambos de gasolina - o maior deles, causando o escoamento de aproximadamente 7 mil litros. Um vazamento em outro vagão teria causado a perda de mais 500 litros. Dois vagões já haviam sido esvaziados até a tarde de ontem, mas, dentre os outro oito vagões ainda cheios de combustível, ao menos um deles ainda apresentava vazamentos.

Os oito vagões ainda cheios só devem ser esvaziados depois que os trens voltarem a circular, conforme os engenheiros. Seu conteúdo deve ser transferido para outros vagões, que seguirão viagem até Campo Grande. Como o material

é perigoso, o Corpo de Bombeiros de Bauru enviou ao local do acidente vários oficiais, que fazem, periodicamente, o resfriamento dos vagões, para evitar qualquer acidente.

Sobre as causas do descarrilamento, porém, os engenheiros preferiram não se estender: segundo eles, há diversas causas que podem ter provocado o acidente - falha na via permanente

(trilhos e dormentes), falha na composição ou em algum vagão ou erro funcional (falha humana) são algumas das possibilidades. Mas outras também serão avaliadas por uma comissão de responsáveis pelas três áreas estratégicas da Novoeste - transportes, segurança e manutenção de vias permanentes. Essa comissão exclui as causas conforme elas sejam descartadas e, após avaliar todas elas, define qual ou quais provocaram o acidente. Mas as primeiras conclusões devem ser apresentadas em, no mínimo, 15 dias.

Os vagões eram particulares e, quando estiverem vazios, serão conduzidos até Bauru, sobre plataformas, através da própria ferrovia. Eles pertencem a distribuidoras de combustível, que deverão avaliar os prejuízos causados pelo acidente para avaliar se compensa consertá-los.

Os prejuízos da Novoeste, empresa que opera parte das linhas de trem no Estado, consistem no conserto dos trilhos.

Acidentes em seqüência

Este é o quarto acidente ferroviário ocorrido na região nos últimos meses. O mais sério ocorreu em 1 de março último, quando um vagão descarrilou e matou um menino de 5 anos, em Dois Córregos.

Indagado sobre o aumento do número de acidentes na região, o engenheiro Penna sugeriu que isso se deva ao aumento do número de composições em tráfego na região.

Roque condena privatização

O coordenador do Sindicato dos Ferroviários de Bauru, Roque Ferreira, atribuiu o descarrilamento a três fatores principais: a falta de manutenção das vias permanentes (trilhos e dormentes), o sucateamento delas (que, em última análise,

é consequência da falta de manutenção) e o modo de transporte estabelecido pela direção da Novoeste. Segundo Roque, as empresas que adquiriram a malha ferroviária brasileira - entre elas, a Novoeste - não investiram o que era necessário para a recuperação das vias - já sucateadas, quando ainda pertencentes às empresas públicas. Por isso, a situação só tende a se agravar, caso não haja uma atitude mais enérgica do governo - como o cancelamento da concessão, sugerida por Roque.

Outro grave problema surgido com a privatização das ferrovias, segundo Roque, foi a forma de uso das vias: o coordenador do Sindicato afirmou que, antes, cada composição era integrada por, no máximo, 60 vagões. Hoje, os trens circulam, segundo ele, por até 120 vagões, o que causa um desgaste muito maior em todo o sistema, favorecendo a ocorrência de acidentes.

A direção da Novoeste foi procurada pela reportagem do JC, para comentar as afirmações do ferroviário, mas não foi possível estabelecer contato, já que ninguém atendeu os telefones da empresa.

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