A vida é bela
A Vida é Bela
Texto: Gustavo Cândido
Crise econômica, guerras, sequestros, violência nas ruas, falta de emprego, doenças cada vez mais difíceis de serem curadas. Será que é possível ser otimista no final do século XX? Aparentemente a resposta talvez seja negativa mas o fato é que hoje em dia muitas pessoas ( na realidade, a maioria) são otimistas sim! O que não quer dizer que elas não se preocupem com o dia-a-dia e a vida real. É uma opção consciente, de quem sabe que a "coisa está ruim", mas pode melhorar. E estas pessoas só estão ganhando com isso.
No refrão de um dos maiores sucessos do grupo de pagode baiano, coqueluche do momento, Terra Samba, o cantor pergunta:
"como que um povo que sofre com fome e passa mal, vai batucar na panela vazia e fazer carnaval?", e suplica "ah meu Deus, eu só quero entender!". A explicação para a dúvida colocada no sucesso das FMs não é a tão citada e preconceituosa idéia de que o baiano
é festeiro e só pensa em carnaval o ano inteiro.
É claro que o povo da Bahia gosta e espera com ansiedade pelo carnaval mas o que fica claro na atitude descrita na letra da canção, e que é realidade, é a capacidade do baiano (e do brasileiro em geral), de conseguir
"dar um tempo" na vida real para se divertir, crendo que ao fim da festa, as coisas vão estar melhores. Em outras palavras: otimismo puro.
Mas afinal, como alguém pode ser otimista com tanta coisa de ruim acontecendo por aí? Na opinião da psicóloga Maria José Barbosa Gobbi o otimismo tem de existir sempre, em todas situações e a todo momento, "até mesmo na morte de alguém ou no suicídio, é possível ver um lado bom", afirma surpreendentemente a especialista. Ela explica que todo processo, por mais doloroso que seja, abre uma porta para a reflexão sobre ele, o que proporciona a possibilidade de que ele não aconteça de novo ou que seja melhor encarado da próxima vez. "No caso do suicídio, a pessoa que se mata não acha que está morrendo de verdade, ela acha que está passando para uma vida melhor. Para gente é ruim porque perdemos alguém que amamos. Isso abre um espaço para o questionamento, a reflexão, na família, do porque a pessoa desistiu de viver e toda reflexão é boa para a evolução", explica Gobbi.
O mesmo exemplo se aplica na economia e em outras áreas. Para a especialista, o mundo sempre teve crises econômicas e sociais e sempre as superou ou assimilou, a crise é vista como uma forma de avanço porque gera a reflexão, deste modo não há razão para crer que as coisas não têm solução, é só refletir.
Pensamento positivo
A dona de casa Maria Angélica Gomes é um exemplo de otimismo, "eu nunca deixo a tristeza me vencer, logo que acordo já penso que o dia vai ser lindo, mesmo quando está nublado, ai penso que vai ser ótimo se a chuva molhar as plantas do meu jardim", diz sorrindo. A atitude da dona de casa lembra a personagem dos livros, Pollyanna, que sempre via uma possibilidade boa para os acontecimentos da sua vida (veja no boxe). Menos "Pollyanna" do que Maria Angélica Gomes, mas ainda assim otimista, o estudante Paulo Sérgio Soares não reclama muito do fato de ter quebrado o braço em uma partida de futebol com colegas da vizinhança em um lance de puro azar: tropeçou sozinho no campo, "é
óbvio que não é bom quebrar o braço mas é só um tempo que eu vou ficar engessado, tem tanta gente por aí que se machuca sério e nunca mais larga as muletas ou vai para a cadeira de rodas", diz.
Segundo Maria José Gobbi, em geral, a mulher acaba sendo mais criativa em situações difíceis, do que o homem, o que faz com que elas também sejam mais otimistas do que eles. "O homem é mais introspectivo quando está em crise, acha que só ele sofre e que a dor
é só dele, a mulher identifica o problema e visualiza mais rápido uma forma de sair dele, ela tem um aparelho psíquico mais estruturado do que o masculino, o que faz com aceite melhor as coisas", afirma a psicóloga.
A idade também afeta a capacidade das pessoas de serem otimistas, de acordo com Maria José Gobbi. Isso porque quando ultrapassam a linha dos 40 anos, a suposição mais comum é de que se está caminhando para o fim da vida o que faz com que as pessoas repudiem essa idéia e se tornem mais amarguradas em relação a tudo e conseqüentemente, pessimistas. As dificuldades de se conseguir um bom emprego com a idade e as doenças que ela traz, também deixam os que passam dos 40 "mais para baixo". "Mas se você tem um otimismo em viver, se olhar para dentro de você mesmo e enxergar o seu potencial, dai não há pessimismo que te derrube. Todo homem tem um potencial dentro dele que às vezes fica esquecido. Ele vê crise em todo lugar mas não percebe que ele é quem está em crise por pensar as coisas negativamente. O otimismo depende de como você está com você mesmo, depois vem o mundo", ensina a psicóloga. Sem dúvida, uma otimista de primeira.
Literatura otimista
Escrito pelo francês François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, "Cândido" ou "O Otimista", é talvez o maior clássico sobre o otimismo da literatura mundial. O personagem título,
é um jovem, uma espécie de "Forrest Gump" do passado, que passa com ingenuidade e otimismo por todos os tipos de desgraças possíveis.
Menos trágico e não menos famoso é o clássico infanto-juvenil "Pollyanna" da inglesa Eleanor H. Porter. O livro conta a história de uma orfã que não se deixa abater pelos percalços da vida e sempre está feliz com a sua situação. O livro tem uma continuação que conta a vida da personagem na adolescência: "Pollyanna Moça".
Os morangos
Há morangos ao alcance da mão, mesmo pendurados sobre o abismo. Tudo é uma questão de ver e de colher. Lá, muito longe, do outro lado do mundo, num país onde o sol aparece quando aqui as estrelinhas começam a piscar. Lá, quando as crianças vão para a cama, os seus pais lhes contam a seguinte estória:
Um homem ia feliz pela floresta quando, de repente, ouviu um urro terrível. Era um leão. Ele teve muito medo e começou a correr. O medo era muito, a floresta era fechada. Ele não viu por onde ia e caiu num precipício. No desespero agarrou-se a uma raiz de árvore, que saía da terra. Ali ficou, dependurado sobre o abismo.
De repente olhou para a sua frente: na parede do precipício crescia um pezinho de morangos. Havia nele um moranguinho, gordo e vermelho, bem ao alcance da sua mão. Fascinado por aquele convite, para aquele momento, ele colheu carinhosamente o moranguinho, esquecido de tudo o mais. E o comeu. Estava delicioso!...
Sorriu, então, de que na vida houvesse coisas tão belas. Rubem Alves
Otimismo afasta o tédio
Texto: Gustavo Cândido
Mal típico deste final de século, como a depressão e o estresse, o tédio costuma atacar quando a pessoa quando não consegue ver o lado bom das coisas, ou seja, é pessimista. De certo modo ele é uma consequência da depressão, com a qual é preciso saber lidar para não se perder e começar a pensar que tudo a sua volta é ruim, feio e chato. Mais comum entre os adolescentes, o tédio pode ser deixado para trás facilmente se a pessoa quiser. É uma questão de abrir a janela da sua casa, para admirar a beleza lá de fora e abrir a janela do seu interior para enxergar o ser humano de potencial infinito se encontra ali dentro.
A palavra tédio se tornou muito comum em todas as faixas etárias e classes sociais nos últimos anos, mas existem pessoas que dizem "estou com tédio" para expressar muitas vezes o seu cansaço com a rotina, com a falta de perspectiva diante de uma situação ou com qualquer dificuldade. A pessoa está tão cansada que não é difícil dizer: "até já sei como vai ser meu dia amanhã, um tédio". Na realidade a pessoa está é vivendo uma vida rotineira e fica sem motivação para fazer qualquer outra coisa. Essa falta de motivação é o tédio, que pode levar a uma depressão profunda se não for tratado logo.
A vendedora Maria Luiza (nome fictício) acredita que a sua vida é completamente sem graça e pensa que vive no tédio. Mesmo tendo uma família, namorado, amigos, ela acha que existe algo de errado porque nunca está satisfeita,
"não sei porque sou assim, sempre fui desse jeito"
Luciana Biem Neuber, psicóloga, diz que uma postura otimista em relação às dificuldades da vida pode evitar o tédio. "Quando uma pessoa afirma que está vivendo uma vida entediante, a tendência é que ela fique daquele jeito", diz a psicóloga, "é preciso que ela identifique o problema e tenha vontade de sair dele, de dizer: 'hoje está chato mais amanhã vai ser diferente'", completa fazendo lembrar a personagem Scarlett O'Hara, do filme "...E o Vento Levou", que sempre repete uma frase: "amanhã será um outro dia".
Luciana Biem Neuber, explica que toda pessoa que tem pensamentos positivos afasta as coisas negativas da sua vida. "Até arrumar emprego é mais fácil para uma pessoa que pensa positivo. Quando você pensa que é difícil e não vai dar certo, tudo fica mais difícil mesmo", diz.
Sob pressão
André Luis (nome fictício) tem 16 anos e acha que sofre de tédio: "nada tem graça para mim", diz ele, "eu não sei porque eu sou assim, mas parece que tudo o que eu quero não dá para conseguir e isso me deixa mais sem vontade de fazer outras coisas", revela.
A psicóloga Maria José Barbosa Gobbi diz que o tédio afeta mais os adolescentes porque hoje em dia eles sofrem mais pressão do que sofriam há alguns anos atrás. São curso e mais cursos, obrigações e a perspetiva de entrar em um mercado de trabalho hipercompetitivo no qual só os melhores conseguem alguma coisa. "É muita pressão", ela diz.
A solução nesse caso não é apenas o otimismo do jovem, mas também da sua família, que precisa lhe dar apoio e mostrar o que as coisas podem ser diferentes e, sobretudo, aliviar a pressão sobre o adolescente.
"No geral a cura para o tédio está dentro do próprio homem", diz Gobbi, "é preciso que ele seja fiel a ele mesmo, ao seu interior e busque nele mesmo, uma razão para mudar a sua postura e enxergar a vida de outra maneira, principalmente se ele for pessimista por natureza", completa.