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Espetáculo Sacro

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 4 min

Vera Cruz terá Paixão com arte e fé

Vera Cruz terá Paixão com arte e fé

Texto: Marcos Zibordi

Comunidade encena a paixão, morte e ressurreição de Cristo. Espetáculo completa 10 anos de aprimoramento.

Vera Cruz - O que começou há 10 anos com um grupo de 40 pessoas da comunidade que se uniu para encenar a Paixão de Cristo, na próxima sexta-feira completará uma década de existência e aprimoramento, num espetáculo que já reúne 250 artistas se revenzando em 4 palcos na praça da matriz em Vera Cruz. O espetáculo é incluído no calendário de Eventos Oficiais do município e do Estado de São Paulo e no ano passado foi presenciado por 12 mil espectadores. Todo esse trabalho é coordenado por Valdivino de Moura, o seu "Vino", 66 anos, que retomou sua história da juventude quando ela foi marcada pelo teatro amador como ator, diretor e "cenarista".

Os artistas são pedreiros, carpinteiros, lavradores, aposentados, crianças, jovens e donas de casa, católicos ou ateus, que não possuem nenhuma formação institucional em teatro. "A gente trabalha todo esse tempo procurando promover eles como pessoa, procurando desenvolver neles o espírito comunitário, o espírito de grupo, quebrar o individualismo de cada um para eles se sentirem co-responsáveis. A gente procura estimular para ele pesquisar dentro da observação, para crescer no papel dele, para aprimorar o papel".

Todo ano eles começam os ensaios em janeiro, encenando cada ato com o grupo correspondente para, na última semana, realizarem o ensaio final-geral com os 250 atores nos 4 palcos, sendo três laterais e um central, este 180 metros quadrados.

"Nesse central a gente desenvolve toda a paixão e nesses laterais a gente faz o fio condutor da história". Os ensaios nessa última semana são feitos de madrugada para evitar a aglomeração de pessoas. O espetáculo montado na praça se completa com a arquibancada com capacidade para 15 mil pessoas.

Seu "Vino" estimula o conhecimento mais profundo do texto nos atores, "o porque daquela expressão, qual o sentido daquela expressão. Quando ele tem esse conhecimento ele tem mais domínio sobre a expressividade". Ele

é um observador das pessoas na comunidade, "pescando" os que possam ter algum talento para atuar. "A gente vai observando, conversando, vendo. Ele começa, você tem que trabalhar com ele desde o desenvolvimento primário. Ele é tímido, você tem que ajudar ele a perder a timidez. Uma pessoa que nunca se expressou em público, nunca subiu num palco, é difícil para ele. Então você tem que dar auto-confiança, tem que ir mostrando que ele é capaz, tem que ir animando, estimulando ele. Hoje nós temos lavrador em cima do palco que se expressa, faz o papel de Jesus Cristo. Isso floresce".

Responsável também pela direção geral, adaptação de texto e roteiro, seu "Vino"

é uma espécie de abnegado cuja missão é a montagem teatral da Paixão de Cristo, a ponto de ter dois atores preparados para o papel de Jesus, "caso algum fique doente na hora". "Eu me sinto uma pessoa que conseguiu caminhar com a comunidade de braços dados para uma apoteose de arte e fé", diz.

História e educação

Outra preocupação dos organizadores do espetáculo

é com a contextualização da história de Cristo, suas relações com a época e as condições sociais e políticas que ajudam explicar os acontecimentos na vida do Messias. Os palcos laterais servem também para isso. O espetáculo se inicia em um deles com uma família da época discutindo problemas comuns de seu tempo, até passar para o palco central, com o história da Paixão e Morte de Cristo. O espetáculo se alterna entre esses palcos, procurando acrescentar à encenação religiosa um suporte educacional, que a explica historicamente.

Mas a peça não fica só no passado. Outra idéia complementar, também de caráter educacional e histórico, é a inclusão do tema anual da campanha da fraternidade no espetáculo. Em algum momento da peça não revelado por seu "Vino", será feita referência à Campanha da Fraternidade de 99,

"Sem emprego... porquê?". "A gente dá expressão artística nesse tema. A gente procura levantar a realidade do desemprego, mostrar as consequências da situação hoje, econômica, social, política, nesse aspecto. A gente não dá uma coisa pronta, a gente joga um questionamento para que os espectadores saiam buscando o porquê, o como daquilo. Despertar a consciência".

Toda a comunidade mobilizada acolhe o trabalho como sendo dela e as pessoas que não estão participando diretamente estão torcendo para que ele dê certo.

Quem quiser conferir ao vivo esta demonstração real de grandiosidade da arte e da fé, a espetáculo começa pontualmente às 20 horas da próxima sexta-feira Santa. A apresentação é aberta, na praça da Matriz, sem cobrança de ingresso.

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