Lei autoriza prótese para câncer de mama
Lei autoriza prótese para câncer de mama
Texto: Ana Maria Ferreira
A Câmara do Deputados, em Brasília, aprovou projeto de lei que autoriza os hospitais públicos a realizarem cirurgia de reconstrução de mama com a colocação de prótese. O projeto que já tramita há dois anos pelo legislativo ainda tem de passar pela aprovação do Senado, mas já causou impacto e dúvidas a respeito da sua validade.
Segundo pesquisa do Instituto Nacional de Câncer (http://www.inca.org.br), o câncer é a terceira causa das mortes no Brasil e a segunda que mais mata, perdendo apenas para as doenças cardiovasculares. Os tipos de canceres que mais acometem a mulher são o de mama e de colo de útero, e as estimativas para 99 é de eles respondam por 38,6% dos novos casos. Para o mastologista Rodolfo José Celeste a incidência de câncer de colo de útero em Bauru, por exemplo, é maior que em São Paulo e os casos apresentam estágio mais avançado também. "O câncer de colo de
útero é um dos que podem ser prevenidos, contidos com maior eficácia. É possível evitar o aparecimento dele o que o diferencia do câncer de mama, onde é feito um diagnóstico precoce, mas ainda não se conhecem formas concretas para evitá-lo. Agora o governo autoriza uma prótese mamaria mas não autoriza cotas para exames preventivos. As cotas do serviço público de saúde estão muito abaixo da demanda, para situar melhor, cada UBS (Unidade Básica de Saúde) tem direito a 5 ultra-som obstétrico por mês, a cota de mamografia
é de 180 exames mês e é preciso pensar que Bauru atende a cidade e a região", afirma o especialista.
"O ideal seria a criação de um serviço de referência, com equipe multidisciplinar que faça a triagem, encaminhamento, diagnóstico e tratamento destes casos", finaliza ele.
Os traumas decorrentes de uma cirurgia radical de extirpação do tumor são conhecidos pela sociedade, e principalmente pelas mulheres. Os avanços tecnológicos na medicina, na área específica de câncer feminino, visam dar melhores condições para o diagnóstico precoce, tratamento e recuperação da doença. A maioria dos tipos de câncer tem cura se diagnosticado a tempo e as campanhas governamentais de conscientização se alternam na mídia, mas a eficácia delas ainda está abaixo do esperado. E qual o motivo para isso? Na opinião do médico Flávio Badim Marques, diretor técnico da DIR-X Bauru não há um motivo que a não conscientização das pessoas da importância da prevenção, "Talvez isso se explique pela correria do dia-a-dia ou pelo fato de que as pessoas pensem que isso nunca vai acontecer com elas, e aí acabam negligenciando e buscam o tratamento tardiamente, o que é muito mais caro, difícil e arriscado porque tem que passar por uma quimioterapia, radioterapia e até amputação de órgão. Então, neste sentido é muito mais fácil e saudável fazer a prevenção", conclui.
O diretor da DIR-X diz ainda que para a saúde pública a prevenção é extremamente importante, "é prioridade, e o papel da imprensa é de suma importância na divulgação das campanhas de prevenção. Hoje você vê até nas novelas a discussão sobre certas doenças. Não adianta fazer campanha de uma semana é preciso fazer a manutenção da campanha. Não abandonar"
Sobre a cirurgia de reconstrução de mama Flávio Badim acrescenta que isto está longe de ser uma questão estética, porque é algo que reconstrói, que minimiza o efeito multilante. Envolve o emocional da paciente não só porque refaz o que foi amputado, mas traz a idéia da cura, da vontade de viver, porque a indicação de colocação de prótese é um fator positivo que dá indícios fortes de que essa paciente está praticamente curada, necessitando só de acompanhamento periódico do médico.
Na opinião do Dr. Flávio a cirurgia de reconstrução é necessária,
"entendo até como terapêutica mesmo, e desse modo acho que não tem porque o SUS não pagar. Obviamente que isto vai despender recursos e o governo tem que arrumar estes recursos, pois infelizmente um grande número de mulheres sofre este tipo de cirurgia radical. E mesmo que fosse um caso só, pelo o que a gente está colocando, é necessário fazer a reconstrução e tem que se arranjar os recursos. Provavelmente não terá o mesmo custo do que a tabela da AMB (Associação Médica Brasileira) paga para prótese que é de R$ 1.450,00, mas observe que a consulta médica pela AMB é R$ 29,00 e o SUS paga R$ 2,00."
Hoje o SUS cobre a implantação de prótese auditiva, ortopédica, ocular e marcapasso. As entidades de combate ao câncer trabalham em conjunto com ONGs e segmentos organizados da sociedade fazendo campanhas de doação e arrecadação de fundos para a compra de próteses, esse é um dos caminhos diante das dificuldades. O outro caminho é a prevenção através de campanhas públicas e da efetiva participação de cada um. O auto-exame (apalpar a mama com as duas mãos) e pode ser feito durante o banho, papanicolau, inclusão de hábitos saudáveis, o abandono do cigarro, atividade física e boa alimentação só contribuem para uma vida saudável. Os médicos cada dia mais reforçam a necessidade e a importância de se prevenir doenças com ações participativas da sociedade, não com a omissão.
Dr. Flávio conclui "os órgãos de saúde tem que participar mais de campanhas. Hoje você tem que ser cidadão. Eu não posso só cobrar os meus direitos, todos temos deveres também. Temos que propor, ensinar, participar. Temos que acabar com essa postura de "tem alguém que pensa por mim; tem alguém que faz por mim". Boa Nova
Existe no mercado, desde dezembro passado, um seguro por diagnóstico de câncer feminino chamado de Seguro Mulher , que garante uma indenização que varia entre R$ 2 mil a R$ 50 mil nos casos de câncer de mama, útero ou ovário. Este seguro é uma parceria entre o IBCC (Instituto Brasileiro de Controle do Câncer) e o Unibanco, o que garante mensalmente o repasse de 20% - do total pago pelas seguradas - ao IBCC.
Para dar uma idéia mais clara sobre o seguro a Central de Informações (0800164345) calculou o custo de uma apólice para uma mulher com idade entre 30 a 39 anos, com uma cobertura de R$ 25 mil, o valor mensal fixo por doze meses é de R$ 20,39. É necessário responder cerca de 12 questões no que eles chamam de DAS
(Declaração de Saúde e Atividade) que será analisado pelo corpo médico responsável e aprovada a proposta existe carência de dois meses - a contar da data de emissão da apólice - para se fazer um diagnóstico. Segundo a Central o dinheiro é liberado, após a apresentação dos documentos exigidos, em 7 dias.
Esta é uma alternativa a falta de cobertura dos planos de saúde no caso de câncer feminino, dando liberdade de escolha de médico e hospital, garantindo recursos para tratamento adequado. Entendendo a cirurgia de reconstrução de mama
O cirurgião plástico Bashir Mussa Gazi que trabalha com reconstrução de mama dá maiores detalhes sobre as técnicas possíveis para se reconstruir a mama e da importância da prevenção do câncer e comenta a nova lei que autoriza a colocação de prótese mamaria pelos hospitais conveniados aos SUS.
JC - Na sua opinião o que é mais importante: reconstruir ou prevenir?
Bashir
- Eu acho que o problema do câncer de mama ele tem duas etapas distintas de abordagem. A primeira etapa é preventiva onde a paciente que tem a suspeita do tumor, faz o auto-exame e procura o ginecologista e uma vez detectado o tumor ela passa pela ressecção (retirada) desse tumor. O problema
é que muitas vezes essa prevenção não acontece e então muito tardiamente descobre-se o tumor
, e a paciente tem que passar por uma cirurgia muito maior, fazer quimioterapia.
Existem tumores que são precocemente detectados e a seqüela física é muito pequena, já nos casos muito avançados você tem que fazer esvaziamento ganglionário, os nódulos podem já estar afetados, nesse caso a ressecção e amputação é radical e logicamente a paciente vai trazer uma seqüela física muito grande.
JC - E quais as conseqüências dessa seqüela para a mulher?
Bashir
- A mama para a mulher tem componente psicológico muito grande, sexual , de identidade feminina, social e essa mama amputada vai trazer todas as conseqüências negativas. E é nesse campo que entra a cirurgia plástica. Entramos na segunda linha de pensamento sobre câncer de mama, a primeira
é a prevenção e a segunda a reconstrução da mama. Existem várias técnicas para a reconstrução da mama que envolvem a rotação de retalhos de músculo. A gente utiliza o músculo das costas (grande dorsal) o do abdômen (reto abdominal), pode-se utilizar somente a pele e a gordura da própria região do tórax para reconstruir a mama e definir uma forma àquela área amputada.
JC - Dá para se usar próteses ?
Bashir
- Algumas técnicas nos permitem utilizar as próteses de silicone, mas nem em todos os casos de reconstrução
é possível utilizá-las.
JC - É mais difícil fazer a reconstrução da mama através de músculos ou implantar prótese?
Bashir
- A dificuldade na verdade ela não se encontra na técnica desde que o profissional que vá fazer a reconstrução da mama esteja habituado a isso. Acho que a dificuldade é inerente a própria paciente mesmo. Existem pacientes que tem mama pequena, a reconstrução nestes casos se torna mais fácil porque o volume de tecido que se tem que deslocar é menor do que aquela paciente que tem um volume maior de mama. O que pode ser feito nestes casos (muito volume de mama) também é tratar a mama que não foi atingida, reduzindo o tamanho e tratando o lado acometido na mesma cirurgia, o que o gente faz habitualmente para facilitar a simetria da mama.
A técnica de rotação do músculo do reto abdômen, é na verdade uma plástica abdominal também, e a cicatriz que vai ficar é a mesma que se deixa numa cirurgia estética de abdômen e a paciente vai ganhar obrigatoriamente essa plástica de abdômen porque a musculatura retirada para confecção da neo-mama vai por dentro do abdômen até o local da amputação.
JC - O que é mais comum nas cirurgias?
Bashir
- Como a gente acaba pegando o tumor mais tardiamente o mais comum
é fazer uma amputação radical. Para se fazer um músculo parecido utiliza-se o grande dorsal, que quando espalhado no tórax ele tem uma forma muito semelhante ao do peitoral e por baixo desse músculo coloca-se uma prótese de silicone. Essa prótese dá o volume.
A novidade hoje são as próteses expansoras, e aí vem o top dentro da cirurgia plástica na reconstrução de mama. Na mesma cirurgia de retirada do tumor é possível colocar essa prótese expansora. Esta prótese é utilizada só em casos de reconstrução de mama, ao contrário da prótese de silicone utilizada também em cirurgias estéticas.
Ela tem dupla função, ela é uma prótese de silicone que tem uma válvula, onde
é colocado soro fisiológico no pós-operatório e ela vai sendo insuflada na medida do tempo , até que a mama que está sendo confeccionada por essa expansão tome o tamanho da mama existente . A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica autoriza a utilização por cirurgiões plásticos, embasada em conhecimento científico, e não tem nenhuma contra-indicação.
JC - Existe algum tipo de prótese que devolva a sensibilidade a essa mama reconstruída?
Bashir
- Existem algumas técnicas hoje utilizadas, de se colocar na neo-mama um pedaço do nervo da perna e fazer uma ponte entre a enervação intercostal e a musculatura e pele dessa região. Devolve uma sensibilidade tátil.
JC - A incidência e câncer de mama está em que faixa etária?
Bashir
- Todas as campanhas de esclarecimento à população tem trazido o problema mais precocemente ao consultório. Eu particularmente já fiz reconstrução de mama em mulheres de 23 anos, foi a mais nova que eu já atendi e numa de 68 anos. É uma gama bastante ampla, mas acredito que a terceira e a quarta década de vida é onde estão concentrados o maior número de pacientes.
JC - Você acha que o governo terá condições de cumprir com mais esta lei?
Bashir
- Um par de prótese de aumento está custando algo em torno de R$ 930,00 a R$ 960,00. A prótese expansora custa cerca de US$ 1500,00. Eu acho que se o governo está legislando algo nesse sentido então tem que se oferecer ao médico o arsenal completo para trabalhar. O que acontece na maioria dos casos tanto o convênio como o SUS não pagam a prótese e o médico fica um pouco de mãos atadas na utilização desse material para a reconstrução. O governo tem que dar todas as condições para viabilizar esta lei.
A reconstrução de mama é uma cirurgia multidisciplinar, porque envolve oncologista, internação, exames pré-operatórios, anestesista, o plástico, pós-operatório etc.
JC - É mais fácil fazer o implante na mesma cirurgia de amputação da mama?
Bashir
- Isso é uma coisa interessantíssima. Imagine você, uma mulher que tem o tumor de mama e ela tem uma cirurgia de amputação marcada. Pense no trauma que essa paciente não está carregando para a sala de cirurgia, no pós-operatório, para a família e para ela mesma do estigma da amputação. Imagine os traumas resultantes na vida sexual, afetiva, social. Agora imagine a mulher que entra numa cirurgia de amputação de mama e volta para o quarto com uma mama!
Estudos mostram que a recuperação em tumores de mama é muito melhor em pacientes que saem da sala com a reconstrução feita. Isso é indicação não do cirurgião plástico mas sim do mastologista. É ele que diagnostica, prognostica e indica a reconstrução da mama no primeiro tempo ou não. Em Bauru eu fiz a reconstrução de mama uma paciente do Dr. Pedro Tobias (oncologista mastologista) que é um dos cirurgiões que mais operaram tumor de mama na cidade e ele é um grande cirurgião, que havia retirado a mama há 10 a 15 anos. Agora a reconstrução no primeiro tempo é mais gratificante, porque se a paciente vai para a cirurgia sabendo que vai ser feita a reconstrução, o cirurgião de antemão já sabe que o prognóstico
é bom. Então é mais compensador em todos os aspectos.
JC - Há casos em que não é possível fazer ?
Bashir
- Sim, porque o avanço da doença impede a reconstrução em cima de áreas suspeitas de estarem contaminadas pelo tumor.
JC - Para quem fez amputação há alguns anos é possível fazer a reconstrução hoje? Existe risco?
Bashir
- Não, a paciente estando liberada pelo oncologista pode procurar um cirurgião plástico para fazer a reconstrução da sua mama sem nenhum problema. A prótese está ai para ser utilizada. O que falta hoje, na minha opinião,
é estrutura de saúde pública que encaminhe estes pacientes . Serviço
A Clínica Renaissence do Dr. Bashir Mussa Gazi fica na avenida Duque de Caxias, 2-06 e atende pelos telefones 234-6360 ou 234-3735, em Bauru. E-mail: bashir@travelnet.com.br