Barganha alimenta projeto de nepotismo
Barganha alimenta projeto de nepotismo
Texto: Gisele Hilário
Pressão exercida por vereadores por cargos na administração antecipa discussão sobre nepotismo na Câmara
A barganha política, que já recebeu entre os sinônimos a composição, acordo, volta a ganhar dimensão nas relações entre o Poder Executivo e Legislativo em Bauru. Depois de cassar o ex-prefeito Izzo Filho por duas vezes e dar exemplo à sociedade local na investigação de atos de corrupção, o Legislativo pode colocar toda a credibilidade conquistada nos últimos meses em xeque. O veneno é o eterno nepotismo. Mudou o prefeito mas não diminuiu a pressão sobre o agente político sentado na principal cadeira do Palácio das Cerejeiras. Um grupo de vereadores, sobretudo aqueles que deram apoio à Izzo Filho, voltam à carga com a ação do toma lá dá cá, a troca de favores.
O prato preferido de um grupo de parlamentares bauruenses, após a confirmação de Nilson Costa no cargo de prefeito, tem sido a manutenção de cargos de parentes ou apadrinhados. As ações pelo loteamento de cargos só não pode ser comparado ao que aconteceu na Prefeitura de São Paulo porque aqui o que está em discussão não
é a partilha de poder de influência em áreas estratégicas dentro da administração municipal, mas do financiamento de cabides de emprego com o dinheiro do contribuinte.
O assunto não é novo, só o momento é que se renova com rapidez e astúcia que só o ambiente político sabe perpetuar e com certo "silêncio", pelo menos para a opinião pública, diga-se de passagem. O tema já foi colocado à mesa com frequencia na gestão Izzo Filho. Agora, vereadores que deram sustentação ao governo anterior tenta manter as regalias conquistadas com a conta sendo paga pelo contribuinte. O resultado foram parentes de vereadores conquistando cargos, sobretudo na Cohab e Emdurb. Cargos de confiança lotados e loteados sem critério técnico, de oportunidade, conveniência ou capacitação.
Agora, voltam à carga interlocuções exercidas por edis. A Cohab enfrenta a pior situação, que vem sendo "administrada" pelo novo presidente, Daltair Valim. Recentemente, o presidente da Cohab tentou negar a uma repórter de economia do JC que vereadores estivessem solicitando a manutenção ou retorno de cargos em troca de "apoio político à administração municipal na Câmara". Azar do momento, Valim foi surpreendido por um funcionário que entrou na sala e disse: "Presidente, vereadores aguardam o senhor lá fora". É claro que o habilidoso Valim soube dizer que se tratavam de audiências para discutir a "política habitacional a ser implantada pelo governo Nilson Costa".
Porém, os corredores das repartições públicas não confirmaram a tentativa de explicação, nem mesmo os telefones da redação que, repetidas vezes, passaram a trazer menções às relações entre vereadores, parentes e emprego. Entre os principais "visitantes", tanto da Emdurb quanto da Cohab, estão Catarina Carvalho, Harley Caçador, Rino Biagio, José Eduardo Ávila, Lucrécio Jacques e Salvador Afonso. Roberto Bueno e Leandro Martins também foram citados, não como interlocutores de cargos, mas como participantes do grupo de vereadores agraciados com nomeações.
O prefeito Nilson Costa chegou a utilizar, em seu discurso, por mais de uma vez, que em sua gestão não seria aceito o toma-lá-dá-cá, a troca de favores. Agora, diante da situação será interessante saber a postura a ser tomada pelo vice de Izzo Filho. Em tempos de crise e carência de recursos, ficará ainda mais difícil para o prefeito sustentar um discurso que contemple qualquer conivência com a política do loteamento de empregos.
A Cohab vem demonstrando rigor e a Emdurb se empenha rumo ao enxugamento, mas sabe-se que ainda há muita gordura para queimar. Um experiente interlocutor político chegou a sugerir ao prefeito que adotasse publicamente a linha dura, colocando para a opinião pública que estava sendo pressionado por cargos em troca de apoio político. Estaria o prefeito cometendo anti-ética com o manual do nepotismo se assim o fizesse?
Outra sugestão chegou a ser comentada pelos quatro cantos das rodas políticas da cidade. A de que Nilson Costa teria chegado a um consenso na administração de que só seria aceito um (1) cargo por cada vereador disposto a indicar alguém de "sua confiança", ainda que fosse parente. Não está dando certo: não há consenso (por parte dos parlamentares que têm no bolso da camisa uma lista de irmãos, tios, pais e correligionários muito mais extensa é claro).
A situação vai certamente colocar o Poder Legislativo de Bauru novamente em xeque com a população. O agravante
é que daqui a alguns meses tem eleição para vereador e prefeito e, na contra mão do tempo e da contabilidade, não há dinheiro na Prefeitura nem para honrar, em dia, com as contas de "primeira necessidade". Aliás, o enxugamento da máquina é a principal cobrança a ser feita em relação ao governo de transição de Nilson Costa, para a retomada do desenvolvimento de Bauru com as próprias pernas, em época de crise econômica e ajuste fiscal.
O tema também recoloca na pauta do dia o projeto de autoria do vereador Antonio Carlos Garmes (PSDB), exatamente sobre nepotismo. Setores discutem que o vereador tucano está certo no remédio mas estaria exagerando na dose, em sua proposta. Mas não há a menor dúvida que a administração pública tem que encontrar mecanismos de controle sobre os métodos da velha política. A credibilidade da Câmara Municipal de Bauru está em jogo nessa discussão. Mas também a postura do prefeito Nilson Costa frente à essa situação. Investigada a corrupção talvez seja a hora da sociedade cobrar renovação no código de costumes das relações políticas no Município, com ampla revisão sobre o dicionário, com o uso de luneta para o significado de jargões como acordo e composição, além de seus sinônimos. A "barganha" do sacrifício, no bom sentido é claro, semântico e prático, pelo renascimento de Bauru.