Entre o céu e a terra
Entre o céu e a terra
Texto: Gustavo Cândido
"Se eu quiser falar com Deus terei que subir ao céu..." diz a bela canção de Gilberto Gil. Nem todas as pessoas se relacionam da mesma maneira com Deus, nem mesmo o enxergam com os mesmos olhos. Se para uns ele está próximo, até mesmo dentro da pessoa, para outros, ele está distante, em um paraíso de onde manda e desmanda no mundo e na vida das pessoas. Quem está certo? Como falar com Deus. A resposta para essas perguntas são difíceis e talvez impossíveis de serem alcançadas. Autor da monografia: "A Construção da Relação do Homem com Deus", o psicoterapeuta José Luis Cremonesi trabalha com essas questões e ajuda as pessoas a se encontrarem e se darem melhor com o seu Deus.
Jornal da Cidade - Como é o relacionamento das pessoas com Deus?
José Luis Cremonesi - Sem defender nenhuma religião em especial, eu tenho visto como cada um constrói a sua relação particular com Deus e isso não á avaliado ou julgado. O que é importante é tratar a pessoa que tem uma dificuldade no relacionamento com Deus.
JC - Como assim?
Cremonesi - Por exemplo, uma pessoa que chega e diz que tem dificuldade de se comunicar com Deus porque ele é como se fosse um velho que fica sempre com o dedo em riste, a culpando. Nesse caso é preciso conversar com a pessoa e saber como ela construiu essa visão de Deus, de onde buscou essas informações. Porque ela não tem um relacionamento saudável com Deus.
JC - Cada pessoa tem uma visão diferente de Deus, não
é?
Cremonesi - Sim, mas por incrível que pareça as visões são similares não importa a religião que a pessoa siga. Parece que as pessoas têm algum código que representa a figura de Deus.
JC - Com é a figura de Deus?
Cremonesi- Ele é geralmente visto como um velhinho sábio, que sabe tudo e vê tudo, por ter experiência, o que acontece em diferentes culturas. Outra imagem que ele tem
é de luz. Algumas pessoas o vêem como energia, aquela coisa que vem e clareia, espantando as trevas. Outra figura que também aparece é a do pai, o que disciplina mas acima de tudo ama, cuida e educa. E por fim existe a imagem do criador, que fez o universo, criou o homem, os animais, tudo.
É um arquétipo muito comum.
JC - Qual o objetivo de trabalhar com essa visão das pessoas de Deus?
Cremonesi - Com isso a gente acaba desmistificando algumas projeções que existem. Por exemplo, é comum uma pessoa que teve um pai bravo, severo, muito exigente, achar que Deus é assim também e dai ele passa a permear a sua relação com Deus como se o tempo todo fosse ser castigado. Isso pode afetar a vida da pessoa como um todo, no trabalho, na vida afetiva, na vida sexual, tudo, porque o Deus dela vai estar sempre cobrando. Quando isso acontece a gente tenta mostrar que aquilo não é Deus, mas sim uma projeção da imagem do pai.
JC - Com essa projeção a pessoa constrói o seu Deus então?
Cremonesi - Sim. Ela constrói o seu Deus a partir dos problemas que teve na vida com o pai, mas ela não percebe isso, é inconsciente. Eu vou trabalhando com a pessoa de uma forma que ela descubra que, na verdade, não viu Deus a vida toda e sim o pai. Dai ela vai descobrir quem é Deus mesmo.
JC - Quem é Deus mesmo?
Cremonesi - Isso é muito pessoal para cada um, tanto que eu costumo perguntar, "Quem é o seu Deus?", para as pessoas. Cada um tem o seu Deus.
JC - Como pode ser isso?
Cremonesi - As religiões apresentam um Deus e um comportamento ideal para se chegar a ele, que é colocado como meta. Quando existe um grupo terapêutico onde as pessoas falam cada um como é o seu Deus, existe uma troca de informações e as pessoas têm a possibilidade de enxergá-lo de uma maneira diferente e ver que talvez ele não seja "o que está sempre bravo", ou "o que está sempre cobrando", etc. Isso dá a possibilidade da pessoa ver Deus de uma outra maneira.
JC - Deus é necessário para o homem?
Cremonesi - É. Uma das perguntas que eu sempre faço
é "o que leva a pessoa a entrar em contato com Deus?" A resposta que eu mais ouço é: "para dar sentido
à minha vida". E ai entra uma teoria de psicologia que diz que as pessoas têm de ter um sentido na vida para viver, seja o que for. A gente tem que ter um objetivo pelo qual lutar. Deus está ligado a isso para algumas pessoas, para outras está ligado à uma sensação de paz de espírito. A paz de espírito é uma questão de harmonia interna. Ainda existe uma outra resposta para a necessidade de Deus, que é para se libertar de angústias e dificuldades, é o Deus salvador, que ajuda. Por todas essas razões Deus é importante.
JC - Seria exagero afirmar que Deus é uma criação do homem para justificar seus atos e incompreensões?
Cremonesi - Deus também é isso, mas não só isso. Dentro das construções que o homem faz, essa é uma delas. Durante toda a história da ciência o homem têm jogado para Deus o que ele não entende. Isso vem desde os índios, que achavam que Deus era o sol ou a lua e os trovões eram sinais de raiva.
JC - Questionar a existência e as ações de Deus leva a algum lugar?
Cremonesi - Eu acho que a gente tem que ficar no respeito
às definições que existem. O autor do psicodrama sonhava que um dia todas as pessoas fossem pegar as suas definições de Deus e uní-las em torno de um Deus único, como se cada definição fosse uma faceta de Deus. JC - Com tantas religiões e um só Deus, não
é isso o que acontece hoje?
Cremonesi - De certa forma sim e ai entramos na filosofia sistêmica na qual "Deus é o todo", como se cada pessoa carregasse um pedacinho de Deus dentro dela. Uma pequena chama, uma centelha.
Serviço
José Luis Cremonesi trabalha com grupos onde debate, realiza vivências e trata do relacionamento das pessoas com Deus. No dia 17 de abril um novo grupo será formado. Quem estiver interessado deve entrar em contato com ele pelo telefone: 223-9740.