Síndrome de Caim
Síndrome de Caim
Texto: Gustavo Cândido
Talvez o mais democrático de todos os pecados capitais, a inveja ataca a todos sem distinção. Jovens, adultos, homens, mulheres, ricos, pobres, todos a têm, já tiveram ou ainda vão ter um dia. Ou não? Será que alguém está imune ao desejo de ter algo igual ou superior ao do seu semelhante somente para não se sentir inferiorizado? O psicólogo Antonio Roberto Soares, em uma página da Internet define este sentimento como uma das causas mais influentes da infelicidade na vida das pessoas. Em seus provérbios (14:30), a Bíblia confirma: "... a inveja destrói como câncer".
A história vem de muito tempo atrás segundo a própria Bíblia. Adão e Eva já haviam perdido a chance de viver no paraíso e seus dois primeiros filhos, Caim e Abel, já estavam crescidos. Caim, o mais velho, era agricultor, e Abel, um pastor. Um dia os dois trouxeram oferendas ao Senhor. A de Abel foi aceita, a de Caim não. Com inveja da sorte do irmão, Caim matou Abel e foi punido por Deus, que o baniu e colocou uma marca em sua testa para que ele não fosse morto e permanecesse vagando.
Para entendermos adequadamente este sentimento temos que tentar descobrir a estrutura básica que o antecede. Somente na reflexão da estrutura-mãe da inveja é que teremos consciência deste sentimento na nossa vida e poderemos aprender a lidar com ele em nosso comportamento. Qual será o mecanismo básico, o mecanismo intelectual que nos move para a inveja? De acordo com Antonio Roberto Soares, este mecanismo responsável pelos nossos ressentimentos é o mecanismo da Comparação. "Sem uma profunda meditação sobre o processo comparativo, jamais chegaremos a entender e a avançar no nosso modo de vida, relativamente a este sentimento".
"Falar da inveja é falar sobre a comparação, sobre o processo de nos compararmos com as outras pessoas. Quando nós nos comparamos com os outros e nos sentimos inferiores a eles em algum aspecto, estamos com inveja. Isso não significa que todas as vezes que nos comparamos sentimos inveja. Mas nunca poderá haver inveja, sem que antes tenha havido uma comparação", afirma o psicólogo.
Para Soares a inveja é a vivência de um sentimento interior sob a forma de frustração, de tristeza, de mal-estar, de acanhamento, por nos sentirmos menores do que alguém, por nos sentirmos menos do que o outro, por não possuirmos o que o outro possui, por não sermos o que o outro é. É o desequilíbrio íntimo, que vem de um sentimento de inferioridade, fruto da comparação que fizemos entre nós e o outro em algum aspecto específico: ou nas posses materiais, na casa, no carro, na roupa, no dinheiro ou nas suas qualidades psicológicas, morais, físicas, sociais ou espirituais.
"E como a inveja é um desequilíbrio entre nós e os outros num processo comparativo, desde cedo nos foram ensinando alguns mecanismos de defesa para este desequilíbrio. E nestes mecanismos escondemos de nós o sentimento de inveja e pode até acontecer acharmos que não vivenciamos este sentimento", diz o especialista. Um exemplo rápido disso é que todas as pessoas entrevistadas sobre inveja para esta matéria não admitiram que também sentem inveja, até mesmo as que se consideram vítimas dela.
A inveja não aparece tão claramente assim. O processo do ressentimento é muito mais encoberto. Um dos mecanismos mais comuns é exatamente aquele em que, ao nos sentirmos menores do que os outros, nós nos aumentamos, nos vangloriamos para evitar o mal-estar do desequilíbrio. Falamos excessivamente bem das nossas próprias coisas e, ao mesmo tempo, procuramos diminuir o outro através de crítica. Quando criticamos alguém, quando diminuímos alguém, quando ofendemos alguém, quando temos necessidade de falar mal de alguém, provavelmente estamos nos sentindo inferiores a ele.
Visão egoísta
A inveja é a incapacidade de ver a luz das outras pessoas, a alegria, o brilho, a luminosidade de alguém, seja em que aspecto for. É o sentimento daqueles que não encontraram respostas para a diversidade do mundo e das pessoas e a complexidade de relações, desejos, sentimentos e realizações que existem à sua volta. E esta incapacidade de aceitar que as coisas e as pessoas sejam diferentes é uma rejeição da sua própria pessoa como sendo diferente das demais, é a auto-aversão.
Muitas pessoas pensam que inveja é quando vemos algo em alguém e queremos ter ou ser iguais ao outro. Não
é somente assim. Muitas vezes esse querer é apenas um desejo de aprendizado, apenas um desejo de crescimento. Toda a nossa sociedade é baseada na comparação, toda a nossa cultura é uma cultura da comparação. A força elementar, fundamental, do nosso sistema é o processo comparativo. A melhor definição, segundo Soares, para o homem não é mais a de um animal racional, mas a do homem como um animal que se compara. O cume do nosso modo de viver, o núcleo de nossa maneira de
estar na sociedade é o movimento comparativo. "Como tudo é relativo, como tudo está em relação, nós perdemos a capacidade de ver as coisas em si mesmas e só conseguimos entender as pessoas e as coisas em comparação umas com as outras", diz.
Fundo de maldade
José Eduardo Assis se considera vítima de inveja:
"sempre fui bom aluno e passei bem no vestibular, embora eu nunca tenha tido inimigos, sempre ouvi comentários em tom de brincadeira sobre mim que, na verdade, tinham um fundo de maldade que eu sei que eram pura inveja", conta.
"Cansei de gente invejosa do meu lado", afirma com raiva a estudante universitária, V.C.B., de 22 anos. Muito bonita, V. sempre atraiu o que chama de "olho gordo" de outras garotas, por chamar mais a atenção dos rapazes.
"Hoje não dou muita importância, sei que mulher
é competitiva mesmo e aprendi a selecionar melhor as minhas amizades, mas já sofri muito com isso", diz. Embora não haja estudos sobre o assunto, as mulheres parecem ser mais invejosas do que os homens, pelo menos na opinião das próprias. "Conheço uma moça que
é muito bonita, mas extremamente sem graça e isso não é inveja minha, os rapazes que dizem. Ela poderia namorar qualquer um se quisesse, mas faz questão de 'estragar' o namoro ou a paquera das 'amigas', só por inveja. Se algum cara não dá bola para ela e sim para uma amiga dela, ela fica brava e se empenha para acabar com a felicidade da outra, mesmo que precise ser vulgar e baixa. É uma cobra", conta a balconista Gabriela Maria Assunção, que completa: "Ela está sempre infeliz e por isso quer todos também estejam para não se sentir tão mal. Tenho pena dela". Mãe de um recém-nascido, Assunção não dispensa a fitinha vermelha no pulso do filho para espantar a inveja alheia.
Extremos
Com Luis Carlos (nome fictício), de 26 anos, a inveja chegou ao extremo de virar violência: "era muito amigo de um cara, muito amigo mesmo. Só que ele era do tipo que só aceita as coisas do jeito dele, só acha legal quem concorda com ele e acha que sempre está certo. Por tudo isso ele era também um cara que gostava de 'aparecer' mais do que os outros, principalmente para as meninas. Um dia discordei dele em um ponto insignificante na frente de outras pessoas e isso gerou uma cisma. A coisa piorou quando, já sem conversar com ele, comecei a sair com uma garota que ele sempre gostou e que era muito desejada. Ele pareceu assimilar bem a história mas não conseguia se controlar ao perceber que tinha ficado para trás. Um dia em uma festa, quando eu estava com ela ele me agrediu, por trás. Depois usou uma desculpa besta para a atitude, mas sei que foi inveja".
De acordo com a psicóloga Fátima Masson Bastos, a agressividade e o sofrimento estão implícitos na inveja. Quando o projeto do invejoso é possuir um bem alheio (seja ele qual for), fica claro que há uma agressividade para com o outro e, ao mesmo tempo, que isso causa sofrimento para ambos. "Há uma atitude no invejoso em supervalorizar o objeto de desejo, fazendo uma análise distorcida, atribuindo a ele características quase mágicas. Desta maneira o invejoso deixa de investir em projetos próprios e deixa de valorizar a sua realidade. Vive em projeção do outro", diz.
Auto-conhecimento é a solução
Uma reflexão sobre si mesmo e sobre a complexidade das relações das outras pessoas com o mundo, pode ser a solução para o invejoso mudar sua postura diante da vida e dos seus semelhantes. Fátima Bastos explica "O auto-conhecimento e uma análise do modo de ser do invejoso pode fazê-lo descobrir seus projetos próprios, canalizando suas energias e seu tempo, num processo de construção de uma vida com mais chances de realização".
"Eu não"
Ninguém gosta de se sentir invejoso. Quando perguntadas sobre
quando sentiam inveja dos outros, as pessoas entrevistadas se esquivavam do assunto ou pareciam estar se esforçando para lembrar, como se o sentimento fosse uma coisa bem rara em suas vidas. O máximo que se consegue de confissão é algo do tipo: "não sou invejosa mas de vez em quando gostaria de ter a sorte de outras pessoas", com disse Luciene Pereira, funcionária pública, de 31 anos. Antônio dos Santos também admitiu que de vez em quando sente uma pontinha de ressentimento que pode ser classificada como inveja, geralmente associado a algum bem material, "mas não
é nada grave", se absolve. Outras cinco pessoas disseram que não são invejosas de jeito algum! O resultado disso é a conclusão que, pelo menos, os invejosos não invejam a sinceridade alheia. (G.C.)
Parte de uma série sobre os sete pecados capitais, Mal secreto, do escritor e jornalista Zuenir Ventura mistura ficção e realidade para falar da inveja. Ventura acabou fazendo um livro sobre um escritor que está escrevendo um livro sobre o tema e criou dois universos paralelos e indivisíveis. Uma ótima leitura para invejosos e não-invejosos.