O grito da selva pede paz
O grito da selva pede paz
Texto: Fabiano Alcantara
Começa amanhã, em Bauru, uma série de eventos culturais organizados para comemorar a Semana do Índio. Grupo está aberto para excursão de escolas
Os olhos do cacique denunciam sua paz interior. Há quase 50 anos morando na cidade, ele mantém sua ligação com a natureza e com a cultura indígena. Talihu é puro como uma árvore, simples como a água.
A invasão cultural do homem branco não afetou a compaixão do cacique, que insiste em dividir o que aprendeu. A partir de amanhã, ele e seus filhos transmitem um pouco da sua cultura para adultos e crianças de Bauru e região.
Uma série de eventos de dança, canto, culinária e artesanato, entre outros, foram programados em comemoração da Semana do Índio. Os festejos acontecem na rua Siqueira Campos, 7-62, na Vila Paraíso, a partir de amanhã,
às 8 horas.
Para Gilson, um dos filhos do cacique, mostrar a cultura indígena para os brancos é uma forma de evitar seu extermínio. Ele acredita que a ignorância provoque a violência.
"Este trabalho está no nosso sangue. É o fruto do desejo de uma família de manter a cultura do índio e ensiná-la. Nós índios sofremos muito preconceito. O que estamos fazendo é uma forma de mostrar nosso valores e fazê-los ser reconhecidos pelos brancos", afirma.
Morador de uma aldeia Terena, no Mato Grosso do Sul, Gilson voltou para a vida na tribo depois de passar por cidades como Bauru e Brasília. "Resolvi me dedicar à comunidade", afirma.
Para a exposição de objetos indígenas, que acontece em uma oca construída pela família do cacique e que fica aberta permanentemente, foram trazidos objetos de uma série de tribos de índios brasileiros.
Peças de Kadweus, Terenas, Guaranis, Carajás, Xavantes, Bororós, Canoeiros e Kaiagangs vão ser comercializados no local.
Além disso, um grupo de seis índios Terena, vindos do Mato Grosso do Sul especialmente para a Semana do Índio, vão estar ensinando atividades da cultura indígena. Uma taxa simbólica vai ser cobrada para participar das atividades.
De acordo com o cacique, as escolas interessadas em participar dos eventos podem entrar em contato com sua família pelo telefone (014) 238-8105. Os índios também estão agendando visitas às escolas.
Segundo Gilson, durante as comemorações, o cacique Talihu vai envocar o "Ser Supremo" para fazer um pedido de paz. "O homem branco só pensa nele, vamos pedir paz para a humanidade", diz.
500 anos de quê?
No evento programado para começar esta semana, os índios começam a questionar as comemorações oficiais dos 500 anos de Brasil.
Batizado de "500 anos: O Grito da Selva", o evento tem o objetivo de abrir os olhos da comunidade para o outro lado da moeda na questão do "descobrimento".
"A mídia está excluindo o índio do processo. E antes dos 500 anos o que havia? É preciso lembrar que aconteceu uma invasão, destruíram nossa cultura, nossa nação, mataram muito índio. É como a guerra do Kosovo", compara Gilson.
De acordo com ele, os reflexos da violência são sentidos até hoje. "Os índios são obrigados a sair de seu território. Os que ficam, recebem as piores terras e vivem muito mal", diz.
Mas mesmo os índios que deixam as aldeias para viver na cidade não abandonam o que aprenderam. "Minha principal bandeira é a nossa cultura, tenho muito orgulho disso", afirma o cacique Talihu.
Adeptos da oralidade, os índios mais velhos, como Talihu, são como bibliotecas ambulantes, ignorar a sabedoria deles
é muita burrice. Afinal, quem não conhece a cultura indígena, não pode dizer que conhece o Brasil.
Serviço
"500 anos: O Grito da Selva", a partir de amanhã,
às 8 horas. Com apresentações de dança, música, atividades culinárias e venda de artesanatos, entre outros. Informações e agendamento de escolas:
(014) 238-8105.