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Lançamento de livro

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 5 min

Bulhões mostra o Graciliano que ninguém viu

Bulhões mostra o Graciliano que ninguém viu

Texto: Fabiano Alcantara

O professor Marcelo Magalhães Bulhões do Departamento de Ciências Humanas da Faac (Faculdade de Arquitetura Artes e Comunicação) da Unesp de Bauru lança amanhã, na Jalovi, o livro "Literatura em Campo Minado - A Metalinguagem em Graciliano Ramos e a Tradição Literária Brasileira". Na obra, o professor faz uma análise original da obra de Ramos, que é mais conhecido pelos seus regionalismos que pelas experimentações modernistas apontadas por Bulhões. Um dos pontos defendidos pelo autor,

é mostrar como Ramos conciliou o engajamento com a reflexão sobre a linguagem literária. Leia a seguir a entrevista com o professor, que tornou-se mestre pela USP após defender a tese que deu origem ao livro.

Pergunta - Por que Graciliano

Ramos?

Marcelo Magalhães Bulhões - A premissa inicial foi ter observado que a leitura que eu fazia do Graciliano Ramos era diferente, eu até faço um parêntesis que dizem que um grande escritor é aquele que permite várias leituras, várias interpretações.

Parece que a obra de Machado (de Assis) é imensa, está sendo muito revisado, revisitado... e Graciliano também

é isso, assim como (Guimarães) Rosa, Clarice (Lispector) também. De certo modo os grandes autores permitem isso. Mas, enfim, na verdade, eu começava a perceber que a obra toda do Graciliano Ramos fazia uma espécie de percurso de reflexão sobre a linguagem.

Pergunta - Estudar a metalinguagem na obra de Graciliano atraiu o senhor?

Bulhões - Todos os livros dele, do primeiro ao último, desde Caetés, que o primeiro, até Memórias do Cárcere, você tem a presença de um personagem-narrador que está construindo uma narrativa, que está escrevendo um livro.

Até o Caetés, que é um livro pouco divulgado do Graciliano, ele tem algo que parece que passou batido para a crítica, ele tem algo muito moderno, na medida em que tem a presença de um narrador que está escrevendo uma obra. Isso está na literatura dita de vanguarda do começo do século. E eu comecei a perceber que isso vai se distribuindo, de maneira diferente e também desconcertante em várias obras dele.

Depois aparece em São Bernardo, que você tem um personagem-narrador, que pretende ser um escritor, que vai contar a sua história e vai configurar um livro. Em "Angústia" também a personagem vai pensar em escrever um livro. Ele é um cara frustrado, um jornalista que sofre com o texto que ele tem que escrever diariamente, notícia de jornal, ele pensa em escrever um romance. É curioso que neste livro, que a personagem é o Luís da Silva ele imagina um livro de cadeia e isso promove uma coincidência incrível com a obra de Graciliano, que o último livro dele é

"Memórias do Cárcere", um livro de cadeia. Nesse sentido é como se a ficção tivesse antecipado a realidade.

Tudo isso me fez pensar que talvez existisse no fundo de toda esta trajetória uma reflexão sobre a linguagem e de fato há.

Pergunta - Por que a metalinguagem é um fenômeno tão moderno, não restou mais nada para a literatura, senão falar dela mesma?

Bulhões - Essa é uma discussão terrível

, das mais ingratas, costuma-se dizer exatamente isso, a modernidade, ou a pós -modernidade, é uma espécie de beco sem saída da arte, é como se tudo já tivesse sido feito, refeito, reelaborado, reutilizado e agora a arte fosse utilizar um procedimento de comentar a si mesma. Na verdade, não deixa de ser um fato, é uma característica não exatamente da pós-modernidade, mas da modernidade. No entanto, a metalinguagem é algo que aparece na história da arte em toda a sua tradição milenar. Mesmo se você pegar uma autor como Dante (Alighieri), você vai encontrar lá a metalinguagem.

Pergunta - Mas a metalinguagem do mundo moderno não

é mais consciente?

Bulhões - Claro, na modernidade ela aparece como um momento de crise, um momento de se olhar, o (Umberto) Eco fala que parece que as poéticas, no sentido de concepções de literatura, de arte, elas hoje são discussões sobre si mesmas. Então, ao invés de falar do mundo, elas falam sobre elas mesmas. Na verdade, isso parece ser uma condição da própria arte moderna. E o que chama a atenção é que este aspecto esteja em Graciliano Ramos.

Pergunta - Com este estudo você pretende mostrar um Graciliano Ramos diferente do que é conhecido e comentado normalmente sobre ele?

Bulhões - Conhece-se muito do Graciliano a sua concisão, o seu aspecto clássico, do escritor que escreveu três ou quatro vezes o mesmo romance, "Vidas Secas". Parecia que ele trabalhava por subtração, ao contrário do Rosa, que trabalha por soma. No Rosa tudo é muito exuberante, o Graciliano é o magro, ele tem o que o João Cabral tem na sua poesia, a poesia mínima. A ausência de adjetivo. Enfim, esta questão da linguagem, de estilo, já é conhecido da crítica. O que é curioso é perceber que a obra do Graciliano acredita nesta capacidade da linguagem de ser concisa, sucinta, para que ela seja, digamos assim, verdadeira.

A experiência mais importante da literatura do Graciliano

é revelar o real através de uma experiência radical. Evitar tudo que seja palavra solta, palavra vã, que serve na verdade a ideologia dominante. Ele acredita na linguagem como uma forma de superação das formas de manipulação do poder.

Serviço

Lançamento do livro "Literatura em Campo Minado - A Metalinguagem em Graciliano Ramos e a Tradição Literária Brasileira", de Marcelo Magalhães Bulhões, amanhã, das 15 às 18 horas, na Livraria Jalovi, avenida Rodrigues Alves, 6-36. Informações:

(014) 224-3600.

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