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Melhor idade

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 9 min

As dores e as delícias de ser idoso

As dores e as delícias de ser idoso

Texto: Adriana Rota

De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil tem a 6.ª maior população de idosos do mundo. E idade avançada significa aposentadoria. Num país em que o sistema previdenciário está falido e que grande parte da sociedade não tem o mínimo respeito pelos seus velhos, a situação dessas pessoas é preocupante. Por isso, a reportagem do JC ouviu alguns especialistas que lidam diariamente com questões relacionadas

à "melhor idade" e com pessoas que curtem a vida como deve ser.

Bauru conta com um atendimento diferenciado voltado para os idosos desde 1994, o Programa Municipal de Atendimento ao Idoso (Promai), ligado à Secretaria de Saúde da cidade, que atende a pessoas a partir dos 60 anos (é a partir dessa idade que se classifica alguém como idoso).

De acordo com a assistente social da entidade, Maria Marli Tizianel, 36 anos, a maior parte dos atendidos possuem uma renda não superior a dois salários mínimos. Às vezes procuram o trabalho espontaneamente, por terem ouvido falar bem a respeito. Outras, são encaminhados por profissionais da área de Saúde.

Logo que chega ao Promai, o paciente passa por uma entrevista com a assistente social. Ao final do encontro, é possível avaliar a classificação socioeconÃmica da pessoa, o motivo que a levou à entidade, quais as suas expectativas. Enfim, traça-se o perfil biopsicossocial. Em seguida, o paciente é encaminhado ao profissional competente para tratar de seu caso, seja um psicólogo, um médico, um enfermeiro, um nutricionista ou um fisioterapeuta. Todas essas especialidades podem ser encontradas no próprio Promai, que conta, hoje, com 18 funcionários no total.

Esse número, no entanto, é muito pequeno em relação ao de pacientes cadastrados, cujas estimativas dão conta de 4 mil cadastrados, sendo que 3 mil permanecem em acompanhamento. Em virtude disso, embora não haja fila de espera como dos núcleos de Saúde, existe a "fila da agenda", como classificou uma das médicas do estabelecimento, Maria de Fátima Moreno, 44 anos. "Com isso, o paciente que gostaríamos de atender no máximo em cinco dias, só pode ser atendido em 30", avaliou. Ainda assim, segundo ela, a prioridade é conseguir mais espaço físico, porque hoje não haveria salas suficientes para abrigar outros profissionais. "Essa questão já está sendo resolvida, porque estamos procurando outra casa para funcionar. Eventuais contratações são um segundo passo", informou.

Apesar das dificuldades, ainda é possível o atendimento a domicílio para cerca de 450 acamados, geralmente acometidos por acidentes vasculares cerebrais (AVC, ou popularmente, derrame) e suas seqÃelas, que dificultam a locomoção. Eles serão, inclusive, vacinados a partir da próxima semana.

Outra frente de ação são os grupos de artesanato, nos quais os pacientes atuam como voluntários, cada um ensinando aquilo que sabe. A renda obtida com a venda dos bordados, pinturas, crochê e tricà é revertida para os próprios pacientes. São eles, também, que colaboram como podem, levando materiais para as aulas. Palestras sobre assuntos de interesse geral também são freqÃentemente realizadas.

No Promai existe um conselho gestor, formado por dois usuários e dois funcionários do local, que se reúnem uma vez por mês para tentar solucionar problemas, levando propostas para a Secretaria de Saúde.

Quanto aos objetivos do órgão, a assistente social destacou: "Nosso objetivo é a qualidade de vida do idoso. Nossa competência é tratar o idoso com o respeito que lhe é cabido".

Tratamento

O tratamento do idoso, segundo as especialistas entrevistadas, requer um trabalho em equipe. O ideal, segundo elas, é atrelar o diagnóstico médico ao psicológico. Isso porque, de acordo com a psicóloga Jaqueline Rodrigues Mendes, 35 anos, essa é uma fase de muitas perdas. "Eles apresentam um quadro de ansiedade e depressão porque perdem o papel social - o que ele é, o que presta de serviços para a comunidade. Eles têm de aprender a dividir o poder com os filhos e depender mais de outras pessoas, inclusive pelas mudanças financeiras. As perdas físicas e mentais fazem com que eles estabeleçam ligações com a morte".

Para tentar amenizar o impacto, segundo Jaqueline, principalmente o que vem acompanhado da aposentadoria, a pessoa tem de começar a lidar com a realidade, percebendo que essa é apenas mais uma mudança na vida. "Na verdade o envelhecer é um processo, mas geralmente a pessoa só dá conta disso quando ocorrem as mudanças mais drásticas no corpo e na mente. Além disso, algumas sociedades, como a nossa, colocam no idoso um estereótipo de inutilidade. De modo geral, o caminho é dar uma abertura para que ele coloque suas emoções e sentimentos para fora e aprenda a lidar com essa fase específica da vida".

Ela salientou, ainda, que o envelhecimento é um processo de autoconhecimento, no qual a pessoa tem de ver que pode não fazer as coisas como fazia antes, mas pode fazer num ritmo diferente, aceitando as próprias limitações, deixando de considerar tudo como empecilho.

No Promai, segundo a assistente social Maria Marli, a procura pelo atendimento psicológico é infinitamente maior por parte das mulheres. Isso provavelmente ocorra porque o homem

é culturalmente mais fechado, já que não foi educado para lidar com as emoções. O mecanismo de defesa, o processo de negação dos sentimentos

é muito grande, por isso evitam falar sobre si mesmos. O impacto da aposentadoria sobre os homens acaba sendo decisivo, porque mexe com a masculinidade, transformada em machismo. Mas, em linhas gerais, ainda existe muito tabu em aceitar a terapia como tratamento, por parte de ambos os sexos.

A médica Maria de Fátima, que confessou ter preferência em tratar idosos, embora isso tenha ocorrido 'acidentalmente', lembra a questão da somatização das doenças.

"Se, por um lado, o idoso é um paciente mais trabalhoso, porque tem mais queixas, exige mais atenção, as consultas são mais demoradas, por outro, eles também transmitem paciência, carinho, respeito. Os problemas que aparentemente são apenas físicos, quando você investiga melhor, vê que, às vezes, são decorrentes de solidão ou rejeição, por exemplo".

A médica chamou a atenção para um ponto positivo: os idosos atendidos por ela estão se conscientizando da importância de viver mais e melhor. "Tem uma coisa que eu digo sempre para eles e virou quase como um lema: não existe saúde onde existe a tristeza. O aspecto mental é muito importante. Saúde é bem-estar físico e mental".

Ainda nessa linha, a psicóloga Jaqueline afirmou que a carência pode deixá-los realmente doentes e que alguns tipos de sintomas estão relacionados com características da personalidade. Mas para ela, considerar que o idoso fica cheio de manias é um preconceito. "É preciso conectar a experiência do velho com o novo, não simplesmente descartá-lo como se ele não tivesse mais importância", alertou.

Serviço

O Promai fica na rua Aviador Gomes Ribeiro, 11-33. O telefone

é 235-1358.

Personagens

Em busca de uma companheira

João Nabuco Filho tem 60 anos e é separado. Agente de estação por 32 anos, aposentou-se em 1986 pela antiga estrada de ferro Noroeste. Ele define essa função como uma espécie de 'dona de casa' da estação, porque cuida de várias coisas ao mesmo tempo. Talvez por isso não encontre tantas dificuldades em assumir os afazeres do lar. Mas, com muita garra, pretende conseguir um novo emprego em breve. Experiência ele tem de sobra porque, depois de aposentar-se, atuou como garçom, recepcionista, porteiro, dentre outras atividades. Agora, seu maior objetivo no momento

é encontrar alguém. "Estou procurando uma noiva, uma companheira, uma amiga. Não tenho saído em busca. Pode ser que ainda vá, porque aqui na porta ninguém vem me procurar. Tenho de ir à luta, botar uma roupinha limpa no corpo e procurar uma alegria para o coração porque, afinal de contas, ninguém é de ferro. É preciso alegrar o espírito", considerou.

Tempo para os hobbies prediletos

Aos 72 anos, Ivone Francisco de Souza aproveita cada segundo do seu dia para fazer tudo aquilo que não pÃde a vida toda. Com metade da família nos Estados Unidos e morando com apenas um dos filhos atualmente, diz não ter a mínima vontade de deixar o País. "Brasil é Brasil, não é?!".

Inspetora de alunos aposentada, compõe músicas e poesias, canta em um coral da cidade e toca violão, para citar apenas algumas de suas atividades. "Já estava no tempo de parar. Eu já estava no limite, por isso, a aposentadoria foi muito boa para mim", comentou.

"Queridinha" da família, dona Ivone disse que seus filhos e netos endossam tudo o que ela faz. "E quando eu falo que não quero sair, eles ficam bravos. Dizem: 'nada de ficar em casa chocando'".

Embora seja muito ocupada, orgulha-se em dizer "o meu tempo eu faço". A idade também não é empecilho: "Sou uma vencedora", garantiu. O segredo é manter-se na ativa

"Aposentadoria não é morte". Com essa frase, a (ainda) costureira Terezinha Lopes Sanches, 65 anos, ressaltou a importância de a pessoa da "melhor idade" manter a cabeça ocupada através de atividades físicas e mentais. "Não se pode ficar parado só pelo fato de ter mais idade. Estou no 6.º estágio de um curso de Computação, fiz um outro de Teologia para leigos numa paróquia da cidade. Gosto de estar sempre aprendendo". Prova disso, é que essa senhora, que tem por hábito trocar informações sobre tudo com filhos e netos, comprou até um computador recentemente. "Agora inverteu a situação. Minha mãe tem 91 anos e eu cuido dela como se fosse minha filha. Ao mesmo tempo, tudo eu pergunto para meus filhos e netos. É uma troca muito bonita", emocionou-se. Integrante do grupo gestor do Promai e do grupo de artesanato da entidade, diz continuar atuando como costureira tanto para complementar a (baixa) renda mensal quanto para distrair.

"Harmonia é a palavra-chave para levar velhice numa boa. O que envelhece é o corpo, por isso é preciso muita força de vontade para continuar lutando. Essa é a época para começar a fazer tudo aquilo que não pÃde até agora. Estudar, fazer amizades, ir em clubes. Tem muita coisa que dá para fazer de graça aqui em Bauru mesmo. A pessoa tem de ir atrás, não pode ficar em casa fechada". E mandou um recado para os filhos:

"Eles têm obrigação de levar os pais onde quiserem ir porque, tendo uma atividade mental ou manual, vai ser bom para o idoso e para quem está em volta. Tem mais, dá para economizar o que seria gasto no médico e na farmácia", finalizou.

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