Safra de cana terá produtividade menor
Safra de cana terá produtividade menor
Texto: Marcos Zibordi
Setor sucroalcoleiro teve o pior ano em 98. Com prejuÃzos acumulados, safra 99/200 começa "com o pé atrás"
Jaú - A safra de cana 99/200 começa com pouco entusiasmo dos produtores, usineiros e trabalhadores. A cadeia produtiva da agroindústria canavieira amarga um prejuÃzo da safra anterior (98/99) de 25%, ou R$ 4 bilhões. Foi a safra em que o setor empobreceu. Para este ano, a área plantada deve ser a mesma, com queda na produtividade. Estima-se que haverá um aumento na produção de álcool e uma diminuição na produção de açúcar, em função da já anunciada liberação dos preços do álcool hidratado e da cana-de-açúcar pelo governo federal. Atualmente, cerca de 2 bilhões de litros de álcool da safra anterior ainda estão estocados.
Os produtores dizem que a liberação dos preços pelo governo forçou uma queda na margem de lucro por causa da pressão das distribuidoras, que são grandes empresas internacionais com força no mercado.
Na avaliação dos produtores, os prejuÃzos acumulados são consequência dessa "imprevidência". Eles estão desencantados com a safra deste ano, dizendo que foram os maiores prejudicados do setor com a liberação dos preços. A tonelada da cana valia R$ 21,00 no ano passado. Hoje o produtor recebe R$ 12,00 pela mesma quantidade.
Essa situação incerta tem gerado protestos de trabalhadores, produtores e usineiros. Na última sexta-feira, por exemplo, a classe se uniu em Araçatuba para defender medidas que incentivem o consumo de carro à álcool. Para isso, fecharam o trânsito e das rodovias Marechal Rondon e Eliezer Montenegro de Magalhães com máquinas agrÃcolas, caminhões e pelo menos 5 mil pessoas.
A análise da situação sucroalcoleira por parte dos produtores você lê na entrevista à seguir, concedida por Francisco Paulo Luiz Barbosa, 66 anos, Presidente da Associação dos Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana) e Secretário Geral da Federação dos Cortadores de Cana do Brasil.
Jornal da Cidade - Qual a situação do estoque de açúcar e álcool na região, já que existe estoque do ano passado até agora, quando se inicia a safra 99/2000? A safra deste ano só vai aumentar o estoque do ano passado?
Francisco Paulo Luiz Barbosa - Esse problema do estoque, cerca de 1,8 bilhão de litros de álcool, é um estoque que sempre o governo tinha, um estoque estratégico, porque combustÃvel tem que ter estoque. O governo tinha sempre um estoque de 2 bilhões de litros mais ou menos, chamado estoque estratégico. Ele comprava e deixava reservado. Como sempre faltava no final da safra, ele ia soltando aquele estoque até o inÃcio da outra. Depois de algum tempo, uns seis anos, o governo deixou de ter este estoque estratégico. Ao lado do que houve, em 90/91, aquela falta do álcool, com um pouco de racionamento. Foi uma imprevidência dos industriais, porque o mercado de açúcar estava mais compensador do que o do álcool, eles deixaram de fazer o álcool e fizeram mais açúcar. Veja você que em 87, 88, 90% dos carros (fabricados) eram movidos Ã
álcool. Hoje, 10 anos depois, nós temos uma faixa de 1% dos carros à álcool, na fabricação. A frota era de 4 milhões e pouco e agora está reduzida a 3,5 milhão, que são carros já de uma certa idade, e o sucateamento vai sendo cada vez mais rápido.
JC - Então quer dizer que o estoque que está sobrando da safra passada é porque o governo não está comprando?
Barbosa - Exatamente. Então veja bem: não
é um estoque que iria perturbar muito. Não chega a 60 dias de consumo. Nós tivemos um depoimento do ex-ministro que foi presidente da Petrobrás muitos anos, e ele falou que isso, na linguagem popular, é uma porcaria para Petrobrás, seria uma "chequinho" a compra dessa álcool, não precisava causar problema nenhum.
JC - Da parte dos produtores, qual a reivindicação então?
Barbosa - No ano passado, aqui foi o centro da reivindicação. O governo iria liberar o setor, era uma determinação antiga que nós vÃnhamos acompanhando desde a ex-ministra Dorotéia Werneck. No ano passado houve a liberação dos preços e nós conseguimos a prorrogação até 1º de fevereiro deste ano. Mas desde junho do ano passado, as usinas deixaram de cumprir o compromisso, de cumprir os preços oficiais. Nós tÃnhamos medo, e de fato veio se confirmar, na federação de Jaú e em mais 7 associações do Estado e a Federação, de que a liberação sem regulamentação iria trazer o caos e uma grande prejuÃzo aos fornecedores. Infelizmente se confirmou. Nós querÃamos que o governo regulamentasse e depois saÃsse do setor. Ele só saiu e falou: se virem!
JC - E o que aconteceu?
Barbosa - Então aconteceu o seguinte: num primeiro passo, algumas associações que aderiram à tal da auto-gestão, que queriam a liberação, economia de mercado, junto com as usinas, o ponto de vista deles saiu vitorioso. Mas infelizmente essa foi a causa. As usinas alegaram a liberação total e as distribuidoras passaram a impor o preço. E o álcool hidratado, de um preço de R$ 0,41, está sendo comercializado a R$ 0,16, na venda da usina para o distribuidor. Então trouxe prejuÃzo. Não foi só do fornecedor e da usina, mas a gente entende que o feitiço virou contra o feiticeiro.
Com essa pressa de liberar tudo, que o mercado ia regular, ele não viram que as distribuidoras, que são monstros internacionais, forçariam a queda no preço, ainda mais sabendo que havia um excesso de álcool no mercado.
JC - Você atribui o problema atual à liberação do mercado?
Barbosa - A coisa toda é consequência dessa imprevidência. Nós lutamos dois anos bravamente com alguns deputados que ficaram com a gente para liberar só após regulamentar.
JC - Como deveria ser feita esta regulamentação?
Barbosa - O setor sempre trabalhou regulamentado porque a cana de açúcar, diferente de outros produtos, só pode ser entregue nas destilarias ou usinas, não tem outro comprador. Em termos de distância, seu produto só pode ser entregue na usina e naquela usina que fica cerca de vinte, vinte e cinco quilÃmetros da sua propriedade. Passando de trinta quilÃmetros já começa ser deficitário. São certas regras mÃnimas que o governo teria que manter, como existia antigamente o Instituto do Açúcar e do Ãlcool, que regulamentava toda a cadeia produtiva, do cultivo até a comercialização. Veja bem: a gasolina e o diesel, produtos com mais de duzentos anos como combustÃvel, até hoje os preços são controlados. O governo liberou uma coisa relativamente nova, o álcool tem aà vinte e poucos anos, e continuou sobre controle os demais combustÃveis. Isso provocou, já em sentido inverso, que as usinas não puderam pagar os fornecedores, os compromissos gerais, até o trabalhador. Todo o setor, em cascata, foi sofrendo as consequências...
JC - É neste ponto que você diz que o feitiço virou contra o feiticeiro?
Barbosa- ... virou contra o feiticeiro, porque eles esperavam que iam regular o mercado, mas as forças muito mais poderosas forçaram a baixa violenta. Se baixasse de R$ 0,41 para R$ 0,35, tudo bem, mas de R$ 0,41 para R$ 0,16, é 70% de desvalorização, isso de junho (98) para cá. Então houve uma descapitalização muito grande do setor. E este ano, com a safra iniciando, muitas usinas ainda não terminaram de pagar aquela do ano passado, no Brasil todo, o retrato é um só.
No ano passado a cana valia R$ 17,20 mais a sacarose, que dava em torno de R$ 21 a tonelada bruta. Agora, nós viemos para R$ 12. Em contrapartida o fertilizante subiu 70%, os herbicidas 70%, então inviabilizou.
JC - Mas o preço do álcool na bomba não subiu nesse perÃodo?
Barbosa - Ele era mais alto, caiu para R$ 0,40. Domingo eu vi em São Paulo álcool a R$ 0,28. A média hoje é de R$ 0,39 a R$ 0,40. Há um atrativo muito grande pela diferença com o preço da gasolina, que custa por volta de R$ 1.
JC - Com todo este quadro que você colocou, a tendência este ano é plantar menos, vão arriscar mais um ano..., como os produtores vão fazer?
Barbosa - A gente nota um desencanto dos fornecedores com a lavoura canavieira. Eu acredito que muitos companheiros vão deixar de adubar suas canas, vão deixar de fazer os tratos culturais, aplicar herbicidas. Então pode ser que a área fique a mesma, mas a produtividade vai cair muito. Haverá uma queda, sem diminuição de área, em torno dos 25% da quantidade de cana produzida no Estado.
JC - Mas isso também não gera uma outra reação em cascata, como diminuição do nÃvel de emprego e outros?
Barbosa - Exatamente. É uma luta porque vai diminuir o número de funcionários utilizados, numa hora em que o maior problema nacional é o desemprego. Por interesses internacionais estão estimulando o uso de máquinas. Uma máquina de cortar cana substitui 90 homens. No caso do campo, são 90 famÃlias praticamente. Nós somos favoráveis que haja uma mecanização, mas que seja paulatina, dentro desse controle. O terreno tem que ser preparado para isso, as máquinas atuais não funcionam com mais de 12% de declividade, então há uma série de circunstâncias. Nós temos regiões que ficariam muito prejudicadas, como Piracicaba onde os terrenos são muito acidentados ou no Nordeste. Elas seriam prejudicadas porque não teriam condição de cortar com máquina. O setor ainda enfrenta um processo de mais de 50 anos, que é a queima da cana. O pessoal do Ibama, os ecologistas são contra. Mas são processos que levam um tempo para adaptação, não que sejamos favoráveis à queima.
JC - No processo produtivo, quem está perdendo mais?
Barbosa - Eu acho que o maior prejudicado foi o produtor, mesmo porque no ano passado foram feitos contratos leoninos. O produtor não teve opção. Foi imposto na seguinte condição: ou você assina ou eu não corto sua cana. Esse contrato possibilitava que no meio do jogo se mudasse as regras. Nós tÃnhamos todas as perspectivas em cima de R$ 21 por tonelada. Nós estamos terminando abril de 99, ainda não recebemos tudo, e o preço está em R$ 12 a tonelada, sem juros, sem correção monetária que corrigisse esta perda.
JC - Estão ocorrendo movimentos de reivindicação dos canavieiros no Estado todo. Quais as reivindicações?
Barbosa - As medidas que estão sendo tomadas no papel, que na prática não vão acontecer, de incentivo a carro à álcool, à frota verde. Faz um ano e meio que o governador assinou a criação oficial da frota verde. Mas até hoje não se tem notÃcia de nenhuma ocorrência pública que especificasse que os carros adquiridos seriam à álcool. A solução urgentÃssima seria a absorção desse excedente de álcool. Houve, me parece que felizmente, uma reunião de todo setor que fizeram o Brasálccol II, uma associação de todas as destilarias e usinas que estão reunindo 93% do álcool produzido no estado de São Paulo, que seria comercializado numa central única com condições de impor um preço, brigar com as distribuidoras, alguma coisa que gerasse lucro para toda cadeia produtiva. Nesses últimos cinco anos, o pau da barraca do real foi segurada pela agricultura, que está descapitalizada.
O Brasil no ano passado produziu 305 milhões de toneladas de cana e teria que haver uma redução para cerca de 250 milhões.
JC - Porque é tão difÃcil fazer com que as usinas falem sobre esta situação da cana? Porque só os plantadores e trabalhadores fazem o movimento?
Barbosa - É um mistério. Ela, que produz a mercadoria, teria que ter o maior interesse em falar sobre o assunto. O governo acusou, na última reunião que teve, que quando ele prorrogou a medida e insistiu para que os preços fossem negociados na mesa, à preços oficiais, entraram 150 liminares dos industriais querendo vender o álcool em vez de R$ 0,41 para R$ 0,27. Ficou uma coisa sem explicação. Em vez de negociar na mesa com o governo, preferiram as liminares. Eu acho que eles deviam participar desta luta.
Setor acumula perdas nas 2 últimas safras *
Açúcar de Mercado Interno Safra
97/98 R$ 12
98/99 R$ 9,57
Média -20,19%
Açúcar de Marcado Externo
Safra
97/98 US$ 272,43
98/99 US$ 215,02
Média -21,07%
Ãlcool Anidro (m3)
Safra
97/98 R$ 446,40
98/99 R$ 316,33
Média -29,14%
Ãlcool Hidratado (m3)
Safra
97/98 R$ 413,40
98/99 R$ 301,31
Média -27,11%
* Dados da União da Agroindústria Canavieira (Única).