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Reciclagem

Fábio Grellet
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Duartina lucra com "febre" das latinhas

Duartina lucra com "febre" das latinhas

Texto: Fábio Grellet

Cidade arrecadou quase 115 mil latinhas recicláveis, durante campanha para trocar por produtos diversos; agora, objetivo

é adquirir leite para crianças

Duartina - Segundo nota publicada pela imprensa na última semana, embora reprovado na reciclagem de outros materiais, o Brasil é campeão mundial de reciclagem de latas de alumínio (latinhas de cerveja ou refrigerante, em geral). De cada 100 latinhas produzidas, 65 retornam para serem recicladas. Há, no país, 125 mil pessoas trabalhando no recolhimento dessas latas, e esse mercado movimentou, durante o ano passado, cerca de US$ 80 milhões.

A cidade de Duartina é um exemplo que comprova a disseminação do hábito de recolher latinhas, para reciclar. Por iniciativa da primeira-dama da cidade, Maria Rosa Maranho, que exerce a função de presidente do Fundo Social de Solidariedade, o Centro de Saúde de Duartina se empenhou numa campanha promovida pela distribuidora da Coca-Cola em Bauru, a Spaipa (que tem fábricas, em outras cidades do Estado), e arrecadou quase 115 mil latinhas em cerca de um ano.

Essas latinhas foram trocadas por bolas de futebol e aparelhos eletro-eletrônicos, que serão usados nas atividades do Centro de Saúde.

Maria Rosa conta que tomou a iniciativa de buscar entidades interessadas em participar da campanha de arrecadação das latinhas logo que tomou conhecimento dela. A primeira-dama soube que um vereador de Reginópolis havia iniciado campanha semelhante naquela cidade e, informando-se melhor, descobriu que a Spaipa desenvolvia esse projeto para beneficiar escolas, na maioria dos casos. Ela, então, procurou as escolas do município de Duartina, mas transcorria o final do mês de novembro

(praticamente véspera do início das férias escolares) e, temendo não obter a mobilização necessária dos alunos em prol da campanha, os diretores preferiram não se engajar nela.

Maria Rosa, então, procurou os responsáveis pelo Centro de Saúde da cidade e propôs que a entidade aderisse ao projeto.

A proposta foi aceita e, diante da aceitação, por parte da Spaipa, de que o Centro de Saúde (e não uma escola) participasse, em 8 de dezembro teve início, oficialmente, o recolhimento de latas descartáveis, em Duartina.

Após cerca de seis meses de coleta, foi realizada a primeira troca: as 37,5 mil latinhas até então arrecadadas foram entregues, e por elas o Centro de Saúde recebeu um sofisticado aparelho de som.

A campanha ampliou-se, tornando-se uma "febre" em Duartina

- a ponto, aliás, da própria primeira-dama e do prefeito, quando em visita a outras cidades, discretamente recolherem latinhas, para levar até Duartina. Os próprios alunos das escolas do município, integrantes de entidades diversas e, ainda, os próprios beneficiados por projetos do Centro de Saúde se engajaram na campanha, e a quantia de latas recolhidas cresceu bastante, para alegria dos funcionários do Centro de Saúde, de seus usuários e da primeira-dama.

Rosana Burihan de Siqueira, assistente social do Posto de Saúde de Duartina, destaca que o projeto não se resume a uma atividade beneficente. "É um programa que desperta a consciência ecológica, a cidadania e a solidariedade, e ainda evita a proliferação da dengue, já que latas vazias, abandonadas em locais inadequados, são próprias para a proliferação do mosquito transmissor dessa doença" - que, aliás, se alastra na região.

A "mania" de recolher latas proporcionou ao Centro de Saúde o recolhimento de 113.400 delas, até dezembro do ano passado, quando a Spaipa anunciou que suspenderia temporariamente o projeto. As latas foram, então, contabilizadas, para serem trocadas pelos produtos equivalentes. Ao invés de contar as latas (o que seria improdutivo), elas são pesadas, depois de embaladas, e cada quilo corresponde a 67 latinhas prensadas.

Essa contagem permitiu que as latinhas recolhidas fossem trocadas por uma bola oficial de vôlei, dois ventiladores de teto e um aparelho de vídeo-cassete, entregues em fevereiro.

Diante da surpreendente receptividade que a campanha obteve, autoridades da cidade se reuniram em prol de um novo projeto. Enquanto o programa da Spaipa não é retomado, as latinhas arrecadadas serão vendidas a particulares, que as revendem para reciclar. O preço médio, pago pelos compradores por cada quilo de latinhas corresponde a R$ 0,50. Os valores arrecadados serão utilizados na aquisição de leite, a ser distribuído entre a população carente de Duartina.

Segundo a assistente social do Centro de Saúde, um projeto criado pela Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento fornece leite para consumo diário de 174 crianças carentes de Duartina, com idades entre seis meses e seis anos. Como ainda restavam crianças necessitadas, outras 37 delas foram atendidas por entidades da cidade. Assim, o Rotary fornece leite para 12 crianças, outras 10 são atendidas pela Prefeitura e 15 ganham leite doado pelo Fundo Social de Solidariedade e pela comunidade em geral. Mas outras 155 crianças, segundo cálculos de órgãos municipais, ainda precisam ser atendidas, através do oferecimento de leite. Por isso, decidiu-se aplicar a renda da venda das latinhas na compra de leite para doar a essas crianças.

A campanha começou na semana passada, quando foram reunidos grupos beneficiados com projetos do Centro de Saúde, para que tomem parte na divulgação da campanha. Nesta semana, professores e pais de alunos das escolas de Duartina devem se reunir, para discutir formas de incentivar a participação dos alunos no novo projeto.

Além da primeira-dama e da assistente social do Centro, também são responsáveis pelo novo projeto o coordenador de saúde, Jorlando Sabage, o representante da Secretaria da Agricultura e Abastecimento, Hélio Zaparoli, e o presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Lauro Origa. Eles não imaginam se a quantia arrecadada com as latinhas vai garantir o fornecimento de leite a todas as 155 crianças que ainda não tem acesso ao produto. Mas a expectativa é que, mais uma vez, a população se desdobre, agora para proporcionar melhores condições de vida àqueles que farão o Brasil do amanhã

- cujo comportamento no futuro, certamente, vai refletir os exemplos que observam enquanto crianças. E mais uma vez, certamente, a "febre" das latinhas vai envolver Duartina!

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