Geral

Consciência corporal

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

"Não gosto do meu corpo"

"Não gosto do meu corpo"

Texto: Gustavo Cândido

Quantas vezes você não ouviu esta frase vinda da boca de uma conhecida ou até de uma parente sua? E você, quantas vezes já olhou para o seu próprio corpo e pensou isso? Esse tipo de afirmação é mais mais comum do que parece e não apenas "frescura de mulher" como diriam alguns machistas de plantão. A preocupação com o corpo aflige milhares de pessoas de ambos os sexos em todo mundo e essa tendência têm aumentado cada vez mais nos últimos anos, com a transformação das academias de ginástica num espaço quase que obrigatório para quem quer ter um corpo bonito. Para quem acha que isso é problema de "gente feia" (o que quer que seja isso), saiba que dois ícones de beleza do cinema (entre outros) também reclamam do seu visual e nem se dizem belas. Michelle Pfeiffer acha que seu rosto é estranho e Julia Roberts, que sua boca é enorme.

Valdinéia de Lima é uma das pessoas que se incluem no grupo das não-satisfeitas com o próprio corpo. Apesar de, aparentemente, ter um físico normal e bonito para os seus 17 anos, ela reclama do fato de ser muito magra.

"Como muito e não engordo, gostaria de ser um pouco mais gorda", afirma. Suzana Amaral, de 35 anos também não está feliz com o corpo que tem: "sou muito baixinha e tenho os seios muito grandes", explica. Já Ariana dos Santos exagera: "gostaria de trocar tudo, pernas, altura, cor dos olhos..."

Pensar de maneira tão negativa em relação ao próprio corpo não é um comportamento saudável. Segundo a psicóloga Elaine Olmo a preocupação excessiva com o próprio corpo muitas vezes leva a mulher a sofrer e se limitar de uma maneira muito séria, fazendo com que ela se retraia e não deixe transparecer suas qualidades e seus reais desejos. "Muitos sofrimentos passam pela cabeça de uma pessoa que pensa assim: culpa, rejeição, inferioridade. Ocorre um vazio, a dependência da aprovação de terceiros, juntamente com uma cobrança externa, tende a fortalecer muito essa preocupação", diz a psicóloga.

Padrão de beleza

Muito da insatisfação das mulheres com o próprio vem da cobrança que a moda, a sociedade e até os costumes de herança cultural imprimem nas suas cabeças, São publicações, programas de televisão, tudo voltado para exaltação do corpo esguio, sem marcas na pele, os cabelos sedosos... uma realidade bem diferente da vista nas ruas. "Tudo parece que é feito para colocar a gente para baixo, nas novelas todo mundo é bonito, nos filmes também, mas na vida real não é assim", diz Maria Edinéia Cardoso, que não gosta dos cabelos e vive trocando suas madeixas de corte e cor. "Ainda o cabelo eu posso mudar mas e quem não gosta de uma parte do corpo que não há como mudar?", questiona.

A insatisfação com o corpo muitas vezes leva a pessoa a esconder completamente as sua "partes feias" com peças de roupa nem sempre na moda e até mesmo evitar ambientes como piscinas e praias. "Não gosto muito de ir à piscina porque tenho muita celulite", disse uma jovem de 23 anos que não quis ter seu nome publicado, "quando não tem jeito eu uso maiÃ, mas mesmo assim morro de vergonha", completa.

Baixa auto-estima

As pessoas que se deixam abalar muito pela opinião alheia

(inclusive pelas pressões da mídia) e chegam ao ponto de se esconder e evitar os prazeres de uma piscina (sem que haja uma razão como uma cicatriz ou alguma deformidade o que até justificaria o fato), por exemplo, só para não mostrar o corpo, estão com um problema de auto-estima. "As pessoas com baixa auto-estima tendem a ficar vulneráveis às críticas, à procura constante da felicidade, sem se dar conta de que basta olhar com carinho para dentro de si", explica a psicóloga. Isso inclui achar que o seu corpo tem que ser exatamente igual ao da estrela de televisão, mesmo quando isso é impossível. Afinal se a pessoa possui 1,57m de altura, como pode querer ser como Cláudia Raia?

Ou seja, primeiro é preciso aceitar as suas limitações para depois tentar ficar bonita (o que quer que seja isso para ela mesma) segundo o seu corpo permite, até porque não existe só um padrão de beleza vigente e cada pessoa pode se destacar com a sua própria beleza pessoal.

"É preciso desenvolver o auto-respeito e a auto-confiança. Tudo o que foi nos foi passado pelos nossos pais, os valores, o afeto, o respeito e a atenção facilitam isso", diz Elaine Olmo.

Nem tudo mundo

las não são top models nem estrelas de cinema. Não precisam disso para se sentirem felizes com os seus corpos. Cassia Cristina Santos é uma dessas pessoas: "sempre fui do jeito que sou e não vejo nada de errado com isso. Nunca fico doente e tenho muita saúde. Meu visual não me incomoda, as pessoas é que se incomodam", diz, segura. Karina Rosetti também pensa assim: "por enquanto está tudo bem com o meu corpo, graças a Deus!" Soraia Francisco, Silmara Ishikawa e Michele Gomes engrossam a lista das felizes consigo mesmas. "Não tenho nada a reclamar", as duas primeiras disseram quando foram perguntadas sobre seus corpos. Michele foi mais fundo: "não me incomodo com o meu corpo, sou um pouco gordinha, já tentei emagrecer mas não consegui manter o peso, hoje se as pessoas dizem 'você é gorda', eu digo 'eu sou'".

O outro lado da medalha

Reclamar e não gostar do próprio corpo pode não ser uma coisa ruim se for encarada como face da vaidade, pelo contrário, pode bom se não for em excesso. Não há nada de errado na pessoa achar que está um pouco acima do peso, por exemplo e querer emagrecer. É uma pequena dose de vaidade e isso faz bem. "Podemos e devemos sempre desejar mudanças e tentar evoluir, desde que ocorra de uma forma consciente, que seja uma transformação de dentro para fora", diz Elaine Olmo. O que não pode acontecer é o exagero, que trás conseqÃências negativas para a pessoa que tem o seu tempo tomado por idéias fixas de uma beleza externa, por roupas, acessórios, maquiagem...

"Praticar esportes, ginástica, natação, caminhadas, é importante e necessário para o bem estar, mas nada deve ser feito em excesso", afirma a psicóloga.

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