Geral

Emprego

Luciano Augusto
| Tempo de leitura: 7 min

Alto custo do empregado inibe as contratações

Alto custo do empregado inibe contratações

Texto: Luciano Augusto

A desvalorização do real e a conseqÃente crise econÃmica desencadeou uma onda preocupante de recessão que trouxe consigo o aumento das taxas de desemprego. Em São Paulo, por exemplo, o desemprego bateu o recorde histórico de 19,9%, em março, sobre a população economicamente ativa. Além do fator crise, um outro grande empecilho para as contratações é o altíssimo custo do empregado. Atualmente, um empregado custa para as empresas, na média, cerca de 108%, sobre o salário registrado em carteira.

Este percentual é pressionado pelos encargos previdenciários

(como o INSS, por exemplo) e trabalhistas (como férias anuais e 13.º salários). O Ãnus exagerado acaba inibindo as contratações e engrossando as filas de desempregados.

Como explica o professor, economista e consultor de empresas, Carlos Roberto Sette, 49 anos, as contratações ficam prejudicadas porque o empregador conhece este custo elevado e prefere protelar, ao máximo, novas contratações. Quando resolve contratar, o empregador estabelece ainda uma série de "regras", que nem sempre são as corretas, para efetivar o funcionário. O empresário, por exemplo, usa o empregado, no período de experiência, sem registro e só depois, caso o trabalhador corresponda às expectativas da empresa, ele efetiva a contratação com carteira assinada. "Isso não aconteceria se o custo fosse menor", destaca Sette.

A saída, segundo o economista, passa pela reforma trabalhista, com a modernização da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que remonta ao governo de Getúlio Vargas. Mas, para Sette, falta coragem ao Governo Federal para promover estas reformas.

Relacionado ainda com o fato das leis trabalhistas brasileiras estarem defasadas em relação a outros países, está o trabalho sem carteira assinada. Pesquisas demonstram que aproximadamente 50% da população economicamente ativa (PEA) brasileira trabalha sem carteira assinada, com muita gente empregada na economia informal e em subempregos. Com a reforma, esclarece o estudioso, "poderíamos gerar muito mais empregos, inclusive com carteira assinada".

Na geração de empregos, o tradicional poder de absorção de mão-de-obra pelo setor industrial está ficando menor. A introdução de novas tecnologias, substitutas do trabalho humano, transfere para o setor de prestação de serviço a responsabilidade de arrumar ocupação para o contingente de desempregados.

De acordo com a Diretoria Regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, o nível de emprego na região composta por 17 municípios apresentou, no mês de março deste ano, uma variação negativa de -0,85% em relação ao mês anterior. O índice foi influenciado pelas variações negativas dos setores de produtos alimentares, editorial e gráfica, respectivamente, -1,83% e -0,99%. Estes, segundo a Ciesp, são setores predominantes na região por número de empregados e, por isso, são os que mais influenciam na ponderação do cálculo do índice total.

Quando comparados os meses de março, nos anos de 98 e 99, o cenário é pior, pois em março de 98 o resultado foi negativo em 0,13%. No acumulado do ano de 99, a variação

é negativa em -1,22%, que é um resultado semelhante ao apresentado no mesmo período no Estado de São Paulo, -1,13%. Em 12 meses, de março de 98 contra março de 99, a diminuição do nível de emprego atinge

-1,12%. O resultado é bem melhor do que o apresentado para o Estado, que no mesmo período acumula variação de -7,53%.

Cabe ao comércio e o setor de prestação de serviço, a missão, mesmo que indireta, de empregar a mão-de-obra dispensada .

Neste sentido, Bauru, pela sua vocação comercial histórica, leva certa vantagem em comparação com as cidades estritamente industriais. Tanto é verdade, que já se verifica na Grande São Paulo um processo de migração contrário às décadas anteriores. Mais pessoas estão saindo da capital pressionadas pela falta de emprego e outros fatores, como a violência urbana.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista, Walace Garroux Sampaio, 49 anos, destaca que o comércio em Bauru

é o principal empregador. Isso não quer dizer, entretanto, que o setor esteja empregando. Segundo Sampaio, "o quadro

é de estabilidade. Não estamos nem demitindo e nem contratando".

Neste ponto, entra o fator taxa de juros. De acordo com o presidente do SinComércio, à medida que a queda na taxa de juros referencial do Governo, que hoje está em 27%, refletir nas taxas de juros praticados pelo mercado os negócios podem melhorar. "O que temos sentido é que as taxas do mercado não tem acompanhado esta queda (da taxa referencial)", argumenta. Com a queda dos juros, as perspectivas de incremento dos negócios melhoram e trazem consigo elevação das vendas.

A tendência para o segundo semestre, conforme a análise de Sampaio, deve ser melhor do que foi no primeiro. Há esta perspectiva sazonal de alguma melhora, em função da provável maior estabilidade econÃmica.

A tendência de estabilidade também já foi verificada pelo Centro de Orientação ao Trabalho

(COT). De acordo com Elcia Terezinha Rodrigues, 42 anos, psicóloga e coordenadora do setor de colocação de pessoal, afirmou que até março, a situação estava delicada. "Em abril, sentimos um fÃlego e em maio também está bom".

Embora o número de empregados que procuram o COT tenha aumentado de março em diante, o número de vagas disponíveis também cresceu no mesmo período.

Em março, cinco empresas ofereceram sete vagas. Para estas ofertas foram emcaminhadas 85 pessoas de um total de 216 atendimentos feitos. Em abril, foram 18 vagas com o encaminhamento de 84 trabalhadores desempregados, entre 300 atendimentos realizados. No mês de maio foram 107 atendimentos. O número de encaminhamentos ainda não está disponível. O número de vagas oferecidas, até ontem, era de 10 vagas.

Rodrigues explica que isto "pode ser um sinal de adaptação

às novas medidas econÃmicas". Seguindo a tendência atual, o maior número de vagas estão concentradas no setor de prestação de serviço.

A psicóloga destaca ainda que o mercado está exigindo hoje, além de um grau razoável de instrução escolar, com pelo menos o 1.º grau completo, também querem um profissional melhor em termos culturais, com um nível de informação maior sobre o contexto local, nacional e mundial. Outro aspecto destacado são as exigências, algumas vezes absurdas, que alguns empregadores fazem. Isso, para Rodrigues, "é um sinal de que estamos vivendo numa situação absurda, onde se pede o máximo possível e sempre acaba achando um profissional dentro das condições exigidas", pelo próprio excedente de mão-de-obra.

No Centro de Pesquisa e Encaminhamento para o Trabalho (Cepet), a coordenadora e psicóloga Rosane Aparecida Toquete Seabra Prudente, 33 anos, também registrou um aumento no número de contratações e na captação de vagas.

Os números dão conta de que nos primeiros dois meses do ano foram captadas apenas sete vagas. Em março, este número subiu para 39 vagas captadas. Em abril foram 26. Em comparação com os mesmos períodos do ano passado, também pode-se constatar um crescimento no número de vagas captadas. Em abril de 98 apenas 16 vagas foram abertas pelo empresariado bauruense. É bom lembrar que o Cepet capta somente vagas com registro em carteira.

Na análise de Prudente, o mercado está em compasso de espera, sentindo ainda os efeitos da desvalorização econÃmica, que inviabilizou as contratações, mas confiante num futuro próximo mais promissor. Um outro fator que deve ser levado em conta em relação ao aumento de vagas disponibilizadas pelo Cepet, é que o órgão municipal, ampliou o horário de atendimento ao público, a partir do mês passado. O horário de abertura tem inicio às 7 horas da manhã e segue até às 17 horas.

Na análise dos cadastros também pode-se verificar que o grau de instrução dos candidatos melhorou. Em 98, dos 7063 cadastrados, 2175 não possuiam o primeiro grau completo e 1566 tinham completado o segundo grau. Existiam ainda 16 analfabetos. Neste ano, dos 3356 cadastros feitos até agora, 1018 já têm o segundo grau completo. O número de analfabetos, até ontem, era de 13 pessoas.

Para a coordenadora do Cepet, "isso pode significar que as pessoas estão se conscientizando mais e se aprimorando profissionalmente". As facilidades de acesso à cursos supletivos ajuda também no aperfeiçoamento da mão-de-obra.

Comentários

Comentários