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Ecodesenvolvimento

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 7 min

Economia pode rimar com ecologia

Economia pode rimar com ecologia

Texto: Márcia Buzalaf

A palavra ecodesenvolvimento nasceu em 1973, no primeiro debate internacional promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para discutir o crescimento insustentável da economia na harmonização com o meio. De lá para cá, muita coisa mudou, principalmente na legislação brasileira, que é considerada avançada. Verifica-se uma alteração no comportamento das indústrias e dos consumidores, mas ainda tímida se comparada com a rapidez da retirada de insumos naturais e do despejo de resíduos no meio ambiente.

"Quando acabam as florestas, as águas se vão, os peixes e a caça se vão, as colheitas se vão, os rebanhos e as manadas se vão (...)

Depois disso, aparecem os fantasmas milenares: as inundações e as secas, o fogo, a fome e as doenças"

Robert Chambers

O eixo central da discussão sobre um crescimento econômico em harmonia com o meio ambiente - chamado de ecodesenvolvimento

- é formado pelo tripé de três esferas de desenvolvimento. De acordo com Alexandre Goulart de Andrade, economista e consultor socioambiental, mestrando em Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente na Universidade de Campinas (Unicamp), o ecodesenvolvimento tem como base a economia rentável, a justiça social e o respeito ecológico.

A sustentação econômica e a preocupação ecológica são dois fatores diretamente ligados quando se fala em ecodesenvolvimento. Já o lado social é constantemente abandonado pela discussão. Como ter uma sociedade ecologicamente conscientizada se a concentração de renda faz com que a escolha de um produto valorize mais seu preço do que a forma com que foi feito?, questiona Andrade.

O alerta dado no início da década de 70 pelo ambientalista brasileiro Ignacy Sachs dizia que o Planeta Terra tem recursos finitos se considerado o atual regime político e econômico baseado no capitalismo - puro, simples e lucrativo.

Na teoria, o desenvolvimento econômico pode não significar degradação ambiental, na opinião de Andrade. Ao mesmo tempo, para ele, a desestruturação do meio ambiente hoje em dia não pode ser dissociada do desenvolvimento econômico e da urbanização da sociedade mundial.

O crescimento da economia não é o único vilão da degradação ambiental. O aumento do consumo, a despreocupação com a reposição dos insumos retirados do meio ambiente, a falta de exigência do mercado e a falta de políticas voltadas para a manutenção do ecossistema contribuem para que a preservação da natureza seja colocada em segundo plano para os brasileiros, moradores de um dos países mais ricos neste quesito.

A mentalidade imediatista do lucro da empresas é sempre apontada como a principal causa da falta de cuidado com a natureza. De fato, é, na opinião dos especialistas. Mas porque as indústrias agem desta forma?

Para Andrade, o próprio mercado é quem dita o que quer consumir à indústria. Em uma economia globalizada, uma indústria de papel que desmata sem repor não encontra mercado consumidor nos países europeus, por exemplo, o que acaba fazendo com que estes produtos sejam "desembocados" nos países com menor exigência de mercado. "Na Inglaterra, na Holanda, Alemanha, França, o poder de pressão dos consumidores é muito grande e decisivo no sucesso de uma empresa. Aqui, isso ainda é um ensaio", explica.

Andrade diz que o Brasil é um dos maiores recicladores de lata de alumínio. "A articulação dos catadores de lixo faz com que este resíduo seja o item de outra cadeia econômica. Quer dizer, a atividade ecológica acaba tendo lucro", conta o consultor.

A falta de políticas econômicas que mantenham e implementem o meio ambiente, na opinião de Andrade, também deveria ser imposta pelo governo federal, estadual e municipal através de suas armas: incentivos a projetos de ecodesenvolvimento, isenções fiscais para indústrias ecologicamente corretas, limitação de área ambiental a ser explorada, incentivo à retração no consumo, fiscalização maior que faça cumprir a Lei de Crimes Ambientais e tratamento de lixo e esgoto adequados.

Andrade diz que os problemas relacionados ao meio ambiente também são causados pela própria política adotada pelo país, de incentivo da migração da área rural para a urbana. Ele cita o exemplo da Alemanha, que subsidia fortemente parte da população - 30% - que ainda mora no meio rural. "Esta é uma decisão do governo e tem um lastro de protecionismo na própria história da Alemanha", completa.

A maior parte da população mundial - 56% a 60% - vive na área urbana. Em 2.050, a perspectiva é de que aproximadamente 80% da população viverá nas cidades. Para Andrade, isso significa um desequilíbrio muito grande. Apesar deste processo estar sendo assistido há décadas, apenas nos últimos 30 anos é que esta mudança se tornou acentuada.

Indústrias

Atualmente, as empresas que mais desenvolvem projetos ambientais são as que exportam, pela própria exigência do mercado internacional. Algumas indústrias brasileiras estão adotando sistema de gerenciamento ecológico para discutir a internalização dos custos ambientais e sociais dentro do sistema produtivo. "Também é para não perder consumidores que consideram a forma com que o produto foi feito e sua agressão ao meio ambiente", explica.

De acordo com o capitão da Polícia Militar Florestal da 2.ª Cia. de Bauru, Daniel Antônio Cinto, as indústrias que mais poluem são as suco-alcooleiras, as cítricas, as mineradoras e as de distribuição de energia. Andrade complementa dizendo que as indústrias de bateria também são extremamente poluidoras, assim como as de papel e celulose.

A indústria de celulose é uma das mais poluidoras pelo uso de alta química. Já a cana, segundo Cinto,

é uma das monoculturas que não permitem nenhum tipo de desenvolvimento de ecossistema.

Existem dois tipos de indústrias que poluem o meio ambiente: as que retiram insumos do meio ambiente e as que devolvem resíduos tóxicos à natureza. "Ou seja, quem usa demais sem repor e quem dispõe sem tratar", diz Andrade. Para ele, nenhuma indústria está dissociada deste processo.

Em 98, por exemplo, foram lavrados 290 autos de infração ambiental nos 39 municípios da região que a Florestal abrange, contra 100 no primeiro quadrimestre deste ano. Uma questão destacada por Cinto é o aumento do ano passado para este nas denúncias recebidas pela Florestal. Em 98, foram 262 e, apenas nos primeiros quatro meses deste ano, o número subiu para 242. "E deve chegar a 400 até o final do ano", completa.

No ano passado, Cinto conta, foram embargadas 291,232 hectares, ou seja, aproximadamente 300 campos de futebol, contra 95 neste primeiro quadrimestre.

A indústria do turismo, segundo Cinto, também contribui muito para a deterirização ambiental. Brotas é um exemplo na opinião de Andrade. Segundo ele, um limite deve ser imposto aos passantes e turistas da cidade para que haja proteção ambiental.

Soluções

De cima para baixo: assim deve ser a imposição de uma nova mentalidade ecodesenvolvimentista, na opinião do consultor.

Uma questão que se coloca, na opinião dele, é se as questões ambientais podem ser resolvidas no âmbito microeconômico, ou seja, por parte das próprias empresas. Andrade diz que há um consenso internacional que diz que não, que são necessários mecanismos de comando e controle para o crescimento econômico sustentável. O uso do poder governamental em ditar regras e incentivos para a manutenção dos sistemas ecológicos.

Na prática, seriam taxas, subsídios e incentivos fiscais para empresas que não poluem e produzem produtos ecologicamente sustentável. "São mais fáceis de serem assimilados pelo empresário capitalista, tem menos custo de implementação e são mais democráticos na medida em que o próprio mercado difunde a `conscientização' da sociedade", explica. A discussão é muito forte nos países da Europa, Canadá, Japão e Estados Unidos.

O problema enfrentado pelos economistas e ambientalistas, conta Andrade, é a quantificação da degradação ambiental. "Quanto custa poluir `x' toneladas de enxofre na atmosfera? Chegar a um valor econômico para isso é complicado", fala Andrade.

Mesmo assim, a "máxima" ambientalista continua em vigência: é preciso pensar globalmente e agir localmente.

"Tudo muda

Mas podemos começar de novo,

com o último alento.

O que acontece, porém, está feito:

a água posta no vinho

não podemos mais separar.

O que acontece, porém, está feito:

a água posta no vinho

não podemos mais separar.

Mas tudo muda:

com o último alento

podemos de novo começar"

Bertold Brecht

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