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Carne de caça

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 5 min

Carne de javali abre espaço para criação

Carne de javali abre espaço para criação Texto: Márcia Buzalaf

Se comparada com a carne bovina, a carne do javali tem 85% a menos de calorias, 31% a mais de proteínas, 15% a mais de minerais, cinco vezes menos gordura e um índice de colesterol próximo de zero. Estas características são suficientes para que o javali faça parte do rol das "carnes do futuro", juntamente com a carne de avestruz e de capivara. Seu preço por quilo é de R$ 13,00; no mercado consumidor, o quilo da carne sai por R$ 25,00. De acordo com dois produtores da fazenda Haras Santa Clara, Doacyr Crivelenti Júnior, 44 anos, e Reinaldo Mazzottini, 53 anos, os custos de sua criação não são altos e e geralmente é a opção de pequenos produtores.

De acordo com o gerente do haras, Paulo Sérgio Pinto, 29 anos, a criação do javali não demanda tanto custo porque são eles que fazem a alimentação do animal.

O haras possui dois criatórios, próximos um do outro. Em um deles, ficam os animais selecionados e as marrãs

(javalinas que acabaram de parir) com 22 matrizes e 36 leitões. Na outra propriedade, ao todo, são 112 cabeças de javali.

Por ser um animal selvagem, o javali é bastante arisco. As marrãs, nome dado às "leitoas", são ainda mais ariscas na época de mama, para defender suas crias.

Em contrapartida, as marrãs precisam ficar completamente isoladas com suas crias, porque, no caso de uma delas alcançar um filhote de outra marrã, ela come a cria na hora. "Não dá nem tempo de apartar", conta Pinto.

A agressividade do javali é o motivo principal pelo qual o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tem limitado a emissão de certificados que aprovam os criatórios. Segundo Crivelenti Júnior, quando um animal destes fogo, ele come tudo o que encontra e pode causar vários danos a produções.

Além disso, eles brigam muito entre si é podem, quando bravos, darem saltos de até dois metros para pular uma cerca. No haras visitado, as cercas tinham arames com fio de tensão para isolar o animal.

Os javalis e as javalinas comem de tudo e em grande quantidade. Segundo Pinto, cada animal na fase adulta consome um quilo de comida por dia. Não é por menos que alimentação corresponde a 40% do custo total da manutenção do animal.

Criação

A javalina geralmente tem seu cio com seis meses de idade, mas os produtores preferem fazer a cobertura apenas no terceiro cio, entre oito e nove meses. Geralmente, a fêmea tem seis crias, contra 12 da leitoa. A gestação dura, aproximadamente, 114 dias. São feitos dois partos por ano.

A desmama costuma ser feita quando o animal tem 50 dias, com uma média de 12 quilos. Esta fase é chamada de cria.

Na recria, a "puberdade" dos animais, o javali costuma ganhar 230 gramas por dia até atingir sua fase de reprodução, aos oito meses.

É nesta fase que os criadores costumam fazer uma triagem fenotípica (análise física) e genotípica

(análise genética) dos animais, separando os que vão para abate e os destinados apenas à reprodução.

Grande negócio

A criação de javalis nesta propriedade já tem dois anos e, segundo seus produtores, a atividade pode ser lucrativa desde o primeiro ano de criação. O único cuidado que deve ser tomado para que a lucratividade do negócio seja rápida é a produção do próprio alimento do animal.

O haras comercializa animais vivos para a reprodução e para o abate. A venda ao consumidor é feita através de um frigorífico autorizado. "Não é qualquer açougue que compra esta carne", diz Pinto.

Nas capitais, o consumo da carne do javali é maior. Mesmo assim, tanto o consumo da carne quanto a procura pelo animal para a reprodução estão em crescimento.

Pelo preço que atinge no mercado e pela raridade de sua criação, Crivelenti Júnior diz, a carne é limitada ao consumo da classe A.

Como toda inovação, a carne de javali já tem concorrente. É a carne do java-porco, um cruzamento entre porco e javali que, segundo Pinto, não tem o mesmo resultado do que a carne de javali pura. "O java-porco tem a gordura da carne do porco também", afirma.

Outro dado interessante sobre o caráter econÃmico da criação de javalis é que, segundo Crivelenti Júnior, a produção brasileira é menor do que o consumo.

Uma matriz é vendida pelo haras para a reprodução a R$ 800 a R$ 1 mil. Segundo Crivelenti Júnior, é esta a procura que tem crescido mais.

No abate, afirma Pinto, há uma perda de 30%. "O rendimento de carcaça do javali é de 70%", afirma ele.

História de javali

O javali é o resultado de uma série de cruzamentos do porco doméstico. Mesmo assim, ele acabou se tornando muito diferente do seu ancestral.

O animal surgiu na região norte da África e Sudoeste da Ásia. De lá, o animal foi levado à Europa, onde foi caracterizado por se adaptar a qualquer tipo de solo e clima.

O javali é característico por ter dois pares de presas, que chegam a 15 cm na época adulta. As presas da parte inferior da boca do animal servem como "amoladoras" das presas de cima, emitindo um som bem forte. "Se o javali der uma bocada em alguém, ele arranca pedaço", afirma Pinto.

O peso do javali pode chegar a 250 Kg e, da javalina, a 150 Kg. Eles sempre andam em grupos, e são liderados pelo macho.

O macho geralmente lidera uma manada de fêmeas, deixando outros javalis acompanharem. Quando chegam na fase de reprodução, os machos procuram outras manadas e, conseqÃentemente, outras javalinas para a reprodução. Aí, vários conflitos são travados entre os machos.

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