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Previsões

Adriana Amorim
| Tempo de leitura: 6 min

3º milênio desperta visão apocalíptica

3º milênio desperta visão apocalíptica

Texto: Adriana Amorim

Morte, fogo, miséria, fome. Essa é a imagem que o terceiro milênio disperta em uma parcela da população, pessoas que só conseguem vislumbrar desgraças com a chegada do ano 2000. Para elas, o mundo caminha em direção ao flagelo e o apocalipse está perto de chegar.

A idéia de que o mundo vai acabar na passagem deste ano para o ano 2000 ou no máximo durante o próximo milênio

é compartilhada por pessoas que acreditam em previsões traçadas por celebridades ou desconhecidos que arriscaram palpites sobre o futuro da humanidade. Para outros, o fim dos tempos é uma revelação bíblica, contida em vários trechos do livro sagrado, principalmente no Apocalipse.

Para o vendendor ambulante Antonio Pereira da Silva, 30 anos, as previsões de que o mundo vai acabar em fogo não são apenas especulações. Ele acredita que todos serão consumidos pelas chamas entre dezembro deste ano e janeiro de 2000.

Por isso, pega firme no trabalho a fim de ir em setembro para sua casa, na Paraíba, e aguardar o fim do mundo junto da família. "Já que é para morrer, que seja perto das pessoas que a gente gosta", justifica. Ele diz que já está se preparando para a morte, intensificando as orações e suplicando o perdão divino.

Vinda de Cristo

Para a balconista Silvia Souza, 29, as profecias bíblicas já estão se cumprindo: o mundo enfrenta a miséria, a fome e a guerra. Ela diz que esses são os sinais apontados na Bíblia como precedentes à vinda de Cristo. Para ela, esses são os indícios de que Jesus voltará com a virada do milênio. "Isso que nós passamos

é uma provação", argumenta.

Silvia acredita que será salva do flagelo final e levada da terra por Cristo. "Sei que tudo vai ser destruído, mas sereia salva", afirma. Ela diz que está garantindo seu lugar no céu porque passou a orar e participar com mais frequência das celebrações na igreja evangélica da qual é integrante. "Estou pegando firme".

O gesseiro Luciano dos Santos, 22, também acredita que Cristo está por vir. Evangélico, ele diz que não teme o fim dos tempos porque está preparando o seu espírito através de orações. "Agora estudo mais o evangelho", garante. Para ele, o futuro só reserva desgraças e por isso tem um novo lema: aproveitar a vida.

"Estou procurando viver melhor para aproveitar o que ainda resta".

O preparo físico também é importante para o aposentado Lionel Nicolau, 64. "Não sabemos com o que vamos defrontar", argumenta. Ele realiza caminhadas diárias, faz aulas de educação física e dança para manter o corpo em forma. Além disso, investe também no espírito, numa preparação para enfrentar as surpresas do novo milênio. "Me preparo, mas não tenho medo porque Deus é pai. Ele me criou e acredito que não vai me deixar na mão".

Viver o presente

A preocupação com o presente é a melhor forma de evitar o pânico causado pela incerteza em relação ao futuro. Essa é a recomendação da psicóloga Dalva Taborianski para as pessoas que estão ansiosas e preocupadas em relação à chegada do terceiro milênio.

Ela diz que a atenção com o atual evita a neurose e pode acontecer através da adoção de pequenas atitudes tomadas no dia-a-dia. "É importante a pessoa fazer uma busca da qualidade de vida", ressalta. "As pessoas precisam saber que podem fazer mais por si dentro do seu espaço, fazendo coisas que realmente valem a pena no dia de hoje".

Dalma diz que a preocupação excessiva com o futuro e o medo de que o mundo acabe na virada do ano 2000 podem fazer com que a pessoa crie o seu próprio fim.

A visão crítica diante das especulações com relação ao novo milênio também

é indicada pela psicóloga. Ela acredita ainda que

é papel de líderes religiosos e espirituais levarem mensagens positivas e de tranquilidade à população, que busca na religião e no misticismo uma saída para as incertezas. Para mística, novo milênio é

última etapa da evolução A taróloga Cleide Sakata Chiodi, 29 anos, acredita que a partir do ano 2000 as pessoas atingirão aquilo que ela chama de "evolução verdadeira", na qual os valores pessoais serão analisados e reestabelecidos. Ela diz que o mundo caminha para o equilíbrio depois de enfrentar o caos. "Esse novo milênio é o começo de uma nova etapa, de um caminho muito mais iluminado".

Ela compara a história da humanidade a uma escada na qual o novo milênio seria o último degrau, a última etapa da evolução do espírito. Depois de enfrentar as dificuldades durante a subida, Cleide acredita que as pessoas estão preparadas para conquistar o amor. "As pessoas estão buscando muito mais o amor hoje depois de enfrentar os desafios de cada etapa da evolução", afirma.

Para enfrentar o novo milênio, a taróloga diz que está preparando seu lado espiritual através da meditação e terapias naturais, como incenso e ervas. "Uma das coisas mais importantes para ter um equilíbrio é a espiritualidade", diz. (AA)

Pânico predominou na entrada do 2º milênio

O mundo entrou em pânico na passagem para o segundo milênio embalado pelapredominância da Igreja Católica, que naquela época ditava todas as regras. O historiador Roberto Chinaglia explica a seguir como a população enfrentou a incerteza da chegada do ano 1000.

Jornal da Cidade - Como o mundo se comportou na passagem do ano 999 para o ano 1000?

Roberto Chinaglia - Naquele período, a Igreja Católica era muito forte. As pessoas passaram a doar seus bens e terras para ela com o objetivo de garantir a vida eterna. Foi aí que a Igreja saiu fortalecida em relação ao patrimÃnio, mas ao mesmo tempo desacreditada. Ela pregava que o mundo ia acabar, mas passou o tempo e o mundo não acabou.

JC - As pessoas passaram a cobrar?

Chinaglia - As pessoas passaram a questionar a Igreja e Deus, que não teria feito aquilo que a religião havia dito. Surgem então novas teorias que colocam o homem no centro do universo. As pessoas começaram a fazer uma análise de tudo o que tinha acontecido.

JC - Então os comentários feitos atualmente de que o mundo vai acabar com a virada do milênio também existiu naquela época?

Chinaglia - Existiu e era muito mais forte e explícito do que hoje. O imaginário coletivo das pessoas era muito rico. Só que o pânico foi grande, diferente de agora.

JC - Que avaliação você faz na passagem deste século?

Chinaglia - Como historiador, eu busco no passado os acontecimentos para traçar uma análise do que está acontecendo agora. O que podemos dizer que é vivemos em um período de desemprego, fome e globalização, aspectos que tornam as pessoas mais carentes e abaladas espiritualmente. Esse caos faz com que a população busque saídas, que muitas vezes têm sido encontradas nas religiões e seitas.

JC - Essa carência que você cita não era tão grande no século passado?

Chinaglia - Era, porque naquela época não existia a ciência e a razão. Por isso, o imaginário coletivo era muito criativo. A falta de explicação dos fenÃmenos naturais causava assombro, como um eclipse do sol, por exemplo, que podia ser visto como o fim do mundo. Naquela época, um conjunto de fatores levou ao pânico: a Igreja, a economia, a política e cultura.(AA)

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