Bebês de laboratório já podem ser concebidos em Bauru
Bebês de laboratório já podem ser concebidos sem sair de Bauru
Texto: Adriana Rota
Grupo de esterileutas monta centro de reprodução raro no interior paulista
Bauru já pode conceber bebês em laboratório. A novidade foi trazida por um grupo de médicos renomados da cidade, em parceria com uma estudiosa da área de Genética, que utiliza métodos e tecnologia de última geração para ajudar pessoas com dificuldade em gerar filhos. Embora o custo de um tratamento de reprodução assistida ainda seja alto mesmo nos paÃses mais desenvolvidos, a localização geográfica de Bauru permite que os interessados de toda a região tenham acesso a um trabalho à altura de centros como São Paulo e Rio de Janeiro, sem precisarem arcar com o Ãnus de viagens freqÃentes, hospedagem e refeições.
A Endogin Serh - serviço de reprodução humana, foi idealizada durante anos por médicos da cidade, com grande bagagem na profissão. São eles, os ginecologistas e obstetras Alberto Segalla Junior, Alberto S. B. Sanches, João Paulo Issa, Norton Ribeiro, o andrologista e urologista Carlos Alberto Gobbo e a bióloga PatrÃcia Miyuki Tsuribe.
A equipe fez questão de salientar que sua atuação será no sentido de assistir os pacientes no momento da reprodução, como esterileutas, sendo que o tratamento de rotina e o pré-natal, no caso de concepção, deverá ter continuidade junto ao médico de confiança. Este receberá um relatório mensal de todos os procedimentos e a resposta do organismo. A idéia é que os pacientes já procurem a clÃnica com os exames que comprovem a dificuldade de engravidar em mãos.
A primeira visita à clÃnica tem o valor de uma consulta para atendimento convencional, segundo os entrevistados. Já o preço do tratamento e sua duração variam de acordo com o caso, até porque, eles são divididos em ciclos e podem ser necessários vários deles. Como os planos de saúde não cobrem o tratamento, ele deve ser negociado diretamente com a equipe.
Outro ponto que os profissionais ressaltaram é que nenhum tratamento é garantia de concepção. "São feitas tentativas. Problemas podem ocorrer em qualquer fase do processo, inclusive após uma possÃvel concepção, o que pode resultar num abortamento ou em alguma doença genética", explicou PatrÃcia M. Tsuribe. "Mas deve ficar claro que esses problemas não são causados pelos métodos utilizados, mas por fatores como a idade da mulher, por exemplo".
As técnicas que serão utilizadas na clÃnica são a fertilização in vitro (FIV), a inseminação artificial intra-uterina e a injeção intracitoplasmática de espermatozóides (Icsi). Na FIV, óvulos e espermatozóides são colocados em contato fora do corpo, sem estimulação externa. A inseminação consiste em recolher o sêmen e selecionar os melhores espermatozóides, que serão introduzidos no útero. Na Icsi, a célula reprodutiva masculina é retirada diretamente dos testÃculos e injetadas no óvulo.
A equipe será reforçada por dois auxiliares de Enfermagem e um enfermeiro-padrão, além dos encarregados da recepção e limpeza. O anestesista e a psicóloga prestarão serviços de forma terceirizada. O primeiro profissional cuidará das anestesias locais necessárias em alguns procedimentos e a psicóloga, de controlar a ansiedade e prevenir eventuais frustrações. "Muitos pacientes sentem-se deprimidos ou desestimulados ao perceberem que algo interfere na sua capacidade de ter filhos. Esse não é um caminho linear e tranqÃilo. O enfrentamento de todas as questões pode ser utilizado positivamente como forma de fortalecimento da relação conjugal e encorajamento para aceitarem e ultrapassarem todas as etapas do tratamento", afirmou Selma I. G. Vieira.
Os especialistas alertam que os tratamentos de reprodução assistida não resultam, necessariamente, em gravidez múltipla: a chance de ter gêmeos está na casa dos 22%, trigêmeos, 2,5% e quadrigêmeos, 0,5%. A possibilidade desse tipo de ocorrência está ligada a fatores genéticos e à administração de hormÃnios que podem ser extraÃdos da urina de mulheres na fase da menopausa ou produzidos sinteticamente. Esses últimos são alvos de crÃticas por parte de alguns estudiosos, como os pertencentes à Comissão de Cidadania e Reprodução
(CCR), que alegam não serem totalmente seguros. Enquanto isso, empresas farmacêuticas brigam pelo direito de fabricá-los em larga escala, o que diminuiria sensivelmente o valor do tratamento. Hoje, cerca da metade do valor gasto é devido aos altos preços das drogas utilizadas.
Poucas clÃnicas realizam o trabalho de reprodução assistida junto à população de baixa renda que, ainda assim, tem de arcar com o valor dos medicamentos na maior parte dos casos. Em São Paulo, o atendimento pode ser conseguido (com aguardo que chega a anos) no Hospital Pérola Byington e na Santa Casa. Em Belo Horizonte (MG), no Hospital das ClÃnicas da Universidade Federal de Minas Gerais (Ufmg) e, em Porto Alegre, no Hospital das ClÃnicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
Atualmente, no Brasil, não existe uma legislação especÃfica para a utilização de técnicas de reprodução assistida. É a resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) número 1.358, de 1992, que rege a atuação dos médicos nessa
área. Ela proÃbe a fecundação de óvulos humanos para outra finalidade que não a procriação, a seleção de caracterÃsticas biológicas do bebê, determina o número máximo de quatro embriões para serem implantados, a assinatura de um documento em concordância com o tratamento e a realização dos procedimentos somente com a aprovação do pai, seja a candidata à mãe casada ou não com ele.
Bancos de sêmen e doação de óvulos
Quem tem interesse em fazer uma "produção independente" deve saber que, no Brasil, a maior parte das clÃnicas usa sêmen importado, especialmente dos Estados Unidos, onde os homens recebem para ejacular. O único hospital que possui um banco de sêmen nacional, mantido por voluntários,
é o Hospital Israelita Albert Einstein.
Uma técnica de maturação do tecido ovariano, por sua vez, está sendo desenvolvida com a intenção de abandonar a prática de ovodoação compartilhada
(doação de óvulos), que gera angústia e desgaste para ambas as partes, já que a doadora tem de ser submetida a um monitoramento intenso e ingerir uma série de drogas a fim de incentivar sua ovulação.
Infertilidade
Dados da Sociedade Americana de Fertilidade dão conta de que, até a década de 60, o Ãndice de infertilidade no mundo variava entre 10 e 15% da população, números que saltaram para 25 e 30%.
Caracteriza-se um casal como infértil quando, num perÃodo de um ano de relacionamento sexual regular sem o uso de contraceptivos, não ocorre a gravidez. Diversos fatores podem causar a dificuldade, como faixa etária e hábitos. Tradicionalmente, o sexo feminino foi sempre culpado pelos problemas de infertilidade. Sabe-se, atualmente, que o homem é responsável por 40% dos casos, a mulher por outros 40%, ambos por 10% e os 10% faltantes enquadram-se no que se chama de "sem causa aparente".
No caso da mulher a idade é um dos fatores predominantes, já que cada vez mais a gravidez é adiada, obedecendo-se
à s aspirações profissionais pessoais. O perÃodo de maior fertilidade vai dos 15 aos 24 anos. Aos 30 tem inÃcio um declÃnio na capacidade de procriar e, aos 40, as chances que habitualmente são de 20% ao mês caem para 5% nessa fase. Aos 45, a fertilidade natural praticamente desaparece. Outro fator agravante é a maior probabilidade de abortamentos nas gravidezes tardias. Importante ressaltar que a mulher já nasce com os óvulos, ou seja, eles envelhecem à medida que ela envelhece.
Já o homem produz novos espermatozóides freqÃentemente, durante toda a vida. O que pode ocorrer é um declÃnio discreto na sua produção, chamado de climatério ou, equivocadamente (na opinião do doutor Gobbo), de andropausa. O número de espermatozóides pode ser baixo (oligospermia), considerando-se como valores normais 20 milhões por ml, num total coletado entre 2 e 5 ml de sêmen. Existem casos, também, de não produção devido a uma insuficiência testicular ou completa ausência (azoospermia), possivelmente causada por alguma obstrução. A astenospermia
(pouca mobilidade), impede que eles "nadem" através do colo uterino para encontrar o óvulo na trompa de Falópio. Dentre os problemas masculinos também está o formato inadequado do espermatozóide (teratospermia), o que não permite a perfuração da camada interna do óvulo.
Podem ocorrer, ainda, dificuldades de cópula, insuficiência ejaculatória e impotência. A vasectomia, hoje, já pode ser revertida. Outro fator que habitualmente passa despercebido mas atinge muitos homens é relativo aos hábitos de vestimenta, como cuecas e calças apertadas. Elas pressionam os genitais, aumentam a temperatura local e dificultam a circulação, podendo ocasionar distúrbios.
O tabagismo e o uso de drogas influenciam a fertilidade de ambos os sexos. A maconha, uma das mais difundidas e defendidas, comprovadamente causa modificações na forma do espermatozóide e queda na ovulação.
A avaliação do casal com problemas reprodutivos tem inÃcio com um estudo criterioso da história clÃnica de ambos, considerando-se infecções, inflamações, traumatismos, problemas genéticos, cirurgias, uso de produtos tóxicos ou drogas, fumo, obesidade, magreza extrema, tratamentos anteriores dentre outros. Na primeira consulta, o ato sexual também é detalhadamente discutido, sendo aconselhadas variações de posição no momento do ato.
Os testes de diagnóstico, geralmente, consistem na análise do sêmen, raios-x, ultrassonografia e microfilmagem dos
órgãos reprodutivos internos da mulher, avaliação da ovulação, testes bacteriológicos, exames fÃsicos dos genitais. Como existem casos de presença de anticorpos que atacam os espermatozóides, tanto no homem quanto na mulher, é preciso também fazer testes especÃficos.
Causas mais comuns da infertilidade feminina
Ausência de óvulos, disfunção na sua produção, anormalidade no eixo hipotálamo-hipofisário, ausência ou obstrução da trompa de Falópio, aderências, doença inflamatória pélvica, endometriose, anomalias anatÃmicas, seqÃelas de infecção ou cirurgia, tumores
Causas mais comuns da infertilidade masculina
Produção ou função inadequada do esperma, anticorpos anti-espermatozóides, obstrução do trato seminal, falta de descida dos testÃculos, distúrbios do canal de ejaculação, varicocele, alterações hormonais, infecções, fatores genéticos
Famosos que confiaram na Ciência
*Pelé: recorreu à FIV por ter feito vasectomia. Teve dois bebês
*Fátima Bernardes: deu à luz a trigêmeos após um tratamento de Icsi
*Leandro (da dupla sertaneja): congelou sêmen antes de começar as sessões de quimioterapia. Hoje, a famÃlia quer destruir o material, enquanto a ex-mulher briga para ter um filho do cantor
Curiosidade
Por mais que se rejeite a implantação da clonagem em seres humanos, principalmente agora que se descobriu que a ovelha Dolly já nasceu com três anos de idade, é importante ressaltar que quando nascem dois gêmeos univitelinos ou monozigóticos, a natureza está praticando uma clonagem, porque eles são 100% similares.
Serviço
A Endogin Serh fica na rua Amadeo Sangiovani, 5-15. Agendamento de consultas podem ser feitas pelos telefones 223-1012 ou 234-7595. Um site e um sistema de ligação gratuita (0800) devem estar em funcionamento brevemente.