Mania de telefone
Mania de telefone
Texto: Gustavo Cândido
Até alguns anos atrás andar na rua falando com um telefone portátil era coisa de filme de ficção-científica. Com a invenção do telefone celular isso se tornou possível e com a explosão de vendas dos aparelhos no Brasil, é cada vez mais fácil encontrar pessoas de todas as idades, sexos e condições sociais com seus telefones a tiracolo pela cidade. O que parecia ser apenas um objeto para ser usado em situações de emergência e extrema necessidade, acabou se tornando, em muitos casos, um brinquedo de luxo. O uso excessivo do aparelho é tão grande, que em Bauru, ele é a terceira causa de multas no trânsito, já que dirigir falando ao telefone é proibido pelo novo Código de Trânsito Brasileiro.
A calçada lotada, dezenas de pessoas indo de um lado para o outro no centro da cidade. De repente toca um telefone. Uma senhora tira o aparelho da bolsa e pára no meio da calçada para conversar, atrapalhando todo mundo. Quantas vezes isso não aconteceu com você? Com certeza algumas e se não foi na calçada, foi na loja, no supermercado, na locadora, no banco, no cinema!
O celular caiu no gosto do brasileiro e com a ampliação do mercado tem tudo para se tornar cada vez mais popular. Como se encontra atualmente, a situação já é exagerada, o número de pessoas com um telefone portátil
é enorme. Em alguns casos como no dos profissionais da
área médica ou prestadores de serviço, o celular se tornou um ótimo objeto de trabalho para facilitar a vida, mas, em outros, o telefone virou apenas uma maneira fácil de falar com as pessoas. Na maioria das vezes, assuntos nem sempre tão importantes.
"O celular vem de encontro à necessidade do ser humano, principalmente do brasileiro, de se comunicar, mas também
é uma forma de demonstrar status", diz a psicóloga Daniela Pires. Segundo ela nesse segundo caso o aparelho seria apenas reflexo do consumismo exagerado dos dias de hoje. "A pessoa diz: 'o outro tem, então também vou ter' e compra o telefone".
Necessidade X curiosidade
O técnico de telecomunicação Dorival Nardi possui um celular desde que eles foram lançados no país e diz que o usa para trabalho. Mesmo assim ele acha que o aparelho não é vital: "ele pode ser dispensado, até porque o custo é alto", mesmo assim, Nardi não mencionou a intenção de vender o aparelho. Para o subdelegado do Ministério do Trabalho, o médico, Sérgio da Silva Branco o aparelho é fundamental:
"comprei o meu logo que eles saíram e sou a favor do seu uso", diz.
O celular quase nem chega a dividir opiniões já que a maioria das pessoas que não possuem um dizem que gostariam de comprar um aparelho. "Acho que deve ser legal poder falar com as pessoas a qualquer momento, em qualquer lugar", diz a vendedora Cassia Pereira, "ainda vou comprar um".
Por outro lado, tem gente que reclama: "se o povo brasileiro
é comunicativo por natureza e isso é uma das razões para a popularidade do celular ele também tem exagerado um pouco na dose e, literalmente, 'falado demais'", diz o professor Aloísio Xavier que não possui um telefone portátil: "é incrível como as pessoas usam o celular até dentro de salas onde existem telefones comuns que poderiam ser usados, acho que é só para mostrar que tem".
Nas escolas
Até dentro das salas de aula é possível encontrar alunos (as) com seus próprios telefones. Em grande parte dos casos os aparelhos foram dados pelos pais, que, à distância, têm sempre a possibilidade de saber aonde estão os filhos, o que estão fazendo, etc. Como uma babá eletrônica.
"Nesse caso o celular tem até um papel social, é uma forma de estar próximo dos filhos o tempo todo. E também se torna um instrumento útil no caso de um acidente, por exemplo", diz Daniela Pires.
Vera Lúcia Kirchner Juliano diz que deu um celular para a filha de 18 anos para o caso de uma necessidade, "depois que ela passou a dirigir, dei o telefone e tem sido muito útil. Quando precisa de ir a algum lugar, meu filho mais novo, que não dirige, liga para ela e isso também facilitou a nossa vida. E também é bom poder entrar em contato com os filhos a qualquer momento", explica.
"Sempre sei onde meu filho está e isso me deixa tranqüila", diz Rosa Maria Garcia, que presenteou cada filho com um telefone,
"mas deixei bem claro que não é para ficar usando o aparelho para qualquer coisa, afinal, custa dinheiro", lembra.
Os filhos com certeza aprovam essa atitude dos pais e não acham nem um pouco ruim andar com um telefone portátil e poder receber notícias dos amigos o dia todo. "Meu pai deu um telefone para cada filho para poder ficar mais calmo", diz Marta Resegue, de 17 anos. "Tenho um, minha irmã tem e o meu irmão também, conta. Marta acha bom ter um telefone mas afirma que não usa muito o aparelho para papear com as amigas, "eu recebo mais ligações do que faço", garante.
O valor da comunicação
De acordo com a psicóloga Daniela Pires, atualmente as pessoas estão valorizando mais a comunicação e uma das razões para isso é a informática, que ligou o mundo através da Internet. "O telefone celular veio na esteira da informática e até as pessoas passaram a se comunicar mais". Segundo ela, hoje em dia tudo exige uma comunicação aberta e direta, seja na hora de pedir um aumento ou na hora de namorar. Mesmo que seja pelo telefone.