Telegramas para Marte
Telegramas para Marte
Texto: Ana Maria Ferreira
As pesquisas espaciais, mais do que conhecer os limites do Universo, buscam detectar alguma forma de vida extraterrestre
O pouso da sonda Viking no solo marciano, em 1976, selou definitivamente a história - desta que é tida como "nova ciência"
- a Exobiologia ou Astrobiologia, nome escolhido pela agência espacial norte-americana, a Nasa, que criou uma academia e um instituto de astrobiologia, tamanha a importância desta nova ciência.
A Exobiologia é a ciência que visa o estudo dos sistemas vivos extraterrestres e que abrange, ainda, as análises sobre a possibilidade de vida no espaço, os problemas relacionados
à sua origem e os métodos de detecção de sinais de vida inteligente fora da Terra.
No Brasil a área desperta o interesse de pesquisadores como Eduardo Dorneles Barcelos, exobiólogo, doutor em História da Astronomia pela USP e coordenador executivo do gabinete da presidência do Ministério da Ciência e Tecnologia, atualmente cedido à Agência Espacial Brasileira, que pesquisou os estudos científicos de vida inteligente entre os anos 20 até 1959. Esse trabalho culminou na sua tese de doutorado "Telegramas para Marte".
Para Eduardo Barcelos "a pesquisa exobiológica originou-se na década de 60 através da pesquisa de cunho radioastronômico, ou seja, a busca de sinais de rádio vindos do espaço interestelar que tenham uma natureza artificial - Projeto Seti
-, radiotelescópios direcionados para estrelas parecidas com o nosso sistema solar, na tentativa de captar sinais de vida fora da Terra. Dentro da comunidade científica não existe consenso sobre a existência de vida extraterrestre. O que temos, até hoje, são falsos alarmes. Um caso clássico foi em 1967, quando uma cientista detectou uma seqüência regular de pulsos vindos de uma estrela. Fato que não se repetiu e, depois, estes sinais foram associados aos Pulsares que são estrelas de nêutrons que giram muito rapidamente e que emitem feixes de radiação de forma muito precisa, a intervalos muito curtos.
Para os exobiólogos há uma grande probabilidade da existência de vida extraterrestre inteligente, mas não uma certeza, como defendem os ufólogos. Há um confronto entre essas duas concepções.
Os domínios da ciência têm se expandido de forma a atingir todos os níveis da vida do homem na Terra. O que não pode ser comprovado cientificamente hoje, poderá num futuro próximo ser uma das teorias revolucionárias. A expansão e as novas descobertas constantes sobre a constituição e formato do Universo, por exemplo, vão delineando a sua própria história. O homem está inserido na evolução do Universo e resta saber se ele é mero instrumento desse "todo" imensurável ou se é agente transformador. "Se a gente cada vez vai e descobre que as leis da física são válidas para todo o Universo além da Terra, portanto, se existe uma homogeneidade em todo o Universo, é lógico dizer que há vida inteligente extraterrestre. Nós não representamos um caso especial na nossa galáxia", avalia o pesquisador.
Vida em Marte
A descoberta de um meteorito marciano, na Antártida, contendo microrganismos fossilizados no seu interior, feita pela equipe da Nasa, em agosto de 1996, tentou mostrar que havia sido detectada, pela primeira vez em toda a história, uma forma de vida extraterrestre. Eduardo Barcelos comenta que essa afirmação de que o meteorito contém restos fossilizados de formas de vida extraterrestre tem sido muito contestada pelos cientistas. Existe uma grande polêmica e há uma tendência a refutar essa idéia. "Estão surgindo novas explicações que não envolvem processos biológicos, apenas químicos. Minerais que dariam origem ao que parece ser um microrganismo marciano, mas que na realidade não
é. De qualquer modo, é o renascimento de uma perspectiva científica moldada pela idéia de um universo habitado por diferentes formas de vida."
As constantes descobertas feitas principalmente pelas sondas e telescópios espaciais, como a missão Pathfinder, que fotografou o solo marciano, serviram, na opinião do pesquisador, muito mais como um meio para difundir a idéia de programas de pesquisas exobiológicas.
A imprensa divulgou, recentemente, nota na qual astrônomos da Nasa acreditam que Caronte, lua de Plutão (descoberto em 1930), descoberta em 1978, é a "nova candidata" para a busca de vida fora da Terra. Segundo a nota, os pesquisadores elegeram ainda mais três locais capazes de abrigar vida no sistema solar: Marte, Vênus e Europa, uma das luas de Júpiter; mas, por enquanto, vida mesmo só aqui na Terra.
Plutão é o único planeta que ainda não foi visitado por uma nave espacial. Até mesmo o telescópio Hubble não pode resolver a questão das formações em sua superfície.
Barcelos ressalta que "o que nós, exobiólogos, procuramos é um segmento muito específico da evolução da vida, que são seres que têm tecnologia para comunicação interestelar. A vida inteligente técnica é muito mais complexa".
Exobiologia x Ufologia
"O contato extraterrestre vai ser um dos momentos mais marcantes da história humana."
O pesquisador Barcelos explica que a comunidade científica vê a ufologia como uma pseudo-ciência, assim como a parapsicologia, que ainda não conseguiu comprovar suas teses, "pois é um campo que tenta imitar os procedimentos científicos". "Os ufólogos almejam transformar a ufologia em ciência, mas quando isso acontecer ela vai deixar de ser ufologia, porque o prefixo 'ufo' terá que desaparecer, pois significa objeto não-identificado. Se
é não-identificado não pode ser ciência. Isso é uma bobagem! Como vai existir a ciência dos objetos voadores não-identificados? Ela vai se tornar ciência, somente. A parapsicologia, quando comprovar suas teses, deixa de ser parapsicologia e passa a ser simplesmente psicologia," esclarece Barcelos.
Na opinião do assessor do MCT, a exobiologia está se tornando cada vez mais institucionalizada em todo o mundo - o caso mais claro é o da Nasa -, mostrando que existe a preocupação científica que se concretiza na forma de projetos de pesquisa, "e isso é totalmente distinto da ufologia". "A ufologia é um conjunto de relatos e, na minha opinião, ela não contribui em nada com a ciência. Só prejudica."
O escritor Jostein Gaarder, autor de "O Mundo de Sofia", best-seller publicado em 1991, dá uma definição interessante sobre o conhecimento científico. "Os filósofos dedicam-se em demasia ao conhecimento em detrimento do empirismo, o que é a base do trabalho de astrônomos, biólogos e outros. Essa é a era dos pensadores da moral e da linguagem, porque a filosofia das grandes questões cosmológicas se desenvolve mesmo é nos laboratórios, com os técnicos."
Para Barcelos, o ônus da verdade não está sobre os exobiólogos, está sobre quem afirma que viu isso ou aquilo. O típico argumento usado pelo ufólogo
é: "Eu não minto, eu sou uma pessoa idônea".
"Acho que quem está trazendo à tona essa questão são as ciências humanas. Existem muitos trabalhos de antropólogos e sociólogos que dizem o seguinte: uma explicação para isso é que esses fenômenos, na realidade, já sucederam em outras sociedades, em outros momentos, de diferentes formas. Por exemplo: há relatos do final da Idade Média da passagem de cometas. Na leitura desses documentos, os intelectuais da época, aqueles que detinham o conhecimento, descreveram que escutavam-se gritos vindos dos cometas, havia chuva de enxofre, apareciam espadas e fisionomias horrorosas associadas aos cometas, que eram tidos como de mau agouro. Eles estavam mentindo? O que é isso? São fenômenos coletivos em que as pessoas realmente acreditam estar vendo aquilo. O que os sociólogos estão analisando na ufologia: que ela se constitui numa nova religião, num novo mito contemporâneo", afirma o pesquisador.
Na tentativa de legitimação desses campos, que são pseudo-ciências, os adeptos tentam mimetizar a aparência externa de ciência sem utilizar os instrumentos rigorosos de comprovação das idéias. O que para Barcelos
"é o abismo que separa o que os exobiólogos fazem da ufologia."
Os ufólogos tem a certeza mística da existência destes seres. A explicação para que no mundo inteiro existam relatos parecidos da existência de seres, é porque na sociedade existe a comunicação global. Se uma pessoa hoje relata que viu um ser verde, baixinho, etc, amanhã todo mundo sabe. Outras pessoas, em outros lugares, vão ver a mesma coisa. Jung publicou um livro sobre ufologia, onde faz uma análise, baseada na sua teoria psicanalítica, procurando explicações sobre os fenômenos. A idéia de seres superiores que vêm à Terra como uma espécie de anjos salvadores, isso representa uma modernização, uma adaptação de visões antigas de anjos. Jung coloca toda uma iconografia no seu livro mostrando a semelhança de visões de querubins, anjos com a visão de Ufos e de seres extraterrestres. Ele aborda essa parte do inconsciente coletivo, mostrando que é o arquétipo da espécie humana. No entanto Jung não julga, apenas acredita que isso faz parte do inconsciente coletivo da humanidade" finaliza ele.
Fica aqui mais ponto para reflexão:
"A vida já é fantástica e não preciso falar com gnomos, ler cartas ou adivinhar o futuro. Para que contatos imediatos do 3.º grau com extraterrestres? Já cheguei ao 4.º grau, pois acordo todo dia com um alienígena em minha cama: eu. Fale para uma criança que descobriram um planeta com vida inteligente, cheio de seres que caminham em imensas cidades em trens subterrâneos e ela ficará de olhos arregalados, sem perceber que, estando em São Paulo, já vive nesse tal planeta. Para que ir atrás de espíritos e espaçonaves ?" Jostein Gaarder
Fontes: Revista Superinteressante e Banco de Dados do Estadão.