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Marcos Zibordi
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Canavieiros esperam 10 mil atos

Canavieiros esperam 10 mil em ato

Texto: Marcos Zibordi

Comitivas de várias cidades estarão seguindo em carreata para Jaú onde ocorre o ato em protesto contra falta de incentivo à produção sucroalcooleira

Jaú - Está previsto para ocorrer hoje em Jaú, um megaprotesto de usineiros, plantadores de cana e trabalhadores em geral ligados ao setor sucroalcooleiro, que pedem do Governo uma política de apoio ao setor. O objetivo

é sensibilizar o governo, montadoras, distribuidoras e a sociedade para a crise que vem ameaçando 1,1 milhão de trabalhadores do setor em todo o País.

Entre as reivindicações dos trabalhadores, em nível nacional, estão a compra imediata pelo governo de dois bilhões de litros de álcool, o estímulo ao

álcool combustível através da efetiva formação da frota verde, implementação da mistura álcool/diesel, a retomada da produção em grande escala de carros a álcool pelas montadoras e a regulamentação da relação entre fornecedores, produtores e distribuidores.

Os organizadores do ato na região (o protesto ocorre hoje em várias cidades, inclusive Brasília) esperam que no "Dia Nacional de Luta dos Canavieiros", cerca de 10 mil pessoas entre trabalhadores, fornecedores e usineiros se juntem em frente ao Kartódromo de Jaú, vindas de usinas e destilarias de toda região. Avalia-se que 240

ônibus trarão os trabalhadores que terão seu dia de trabalho pago e serão dispensados para engrossarem o protesto.

A organização do ato na região está sendo feita pela Associação dos Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana), Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Sindicato da Alimentação e Sindicato dos Químicos. Segundo Paulo Brandão, presidente da Associcana, os ônibus farão passeatas de protesto já nas cidades de origem, pela manhã, antes de irem até Jaú. "Vai contar também com a participação da Associação Comercial e Industrial, Clube de Lojistas, prefeito e presidente da Câmara. Toda comunidade está colaborando e apoiando o movimento".

Usinas de São Manuel, Barra Bonita, Bocaina (Santa Cândida), Brotas (Paraíso), Bariri (Dela Colleta), Macatuba (São José), Lençóis Paulista (Barra Grande), Dois Córregos (Santa Adelaide) e Jaú (Diamante, Central Paulista e destilaria Grizzo) já confirmaram presença de seus funcionários no evento.

Em Barra Bonita, o comércio fecha em sinal de protesto com faixas pretas nas portas. Em Guariba será ponto facultativo.

Este evento deve ser a prova de que mudou a relação na cadeia produtiva do setor canavieiro, pelo menos neste momento de crise. Antes setores estanques, trabalhadores, produtores e usineiros se unem e empunham bandeiras e faixas com o mesmo propósito. As reivindicações atendem interesses dos três segmentos. Os usineiros pedem, entre outras coisas, o aumento no preço do litro do álcool e um valor de referência. Os produtores cobram regulamentações na relação fornecedor x usina. Os trabalhadores pedem a manutenção da queima da cana e o corte manual para manter empregos (uma máquina faz o serviço de 100 cortadores).

Esta união decorre também da dependência econômica que as cidades têm em relação ao setor sucroalcoleiro. Em Jaú, cerca de 65% da economia local gira em torno da cana e seus produtos e empregos diretos e indiretos. Em Barra Bonita o percentual é de 80% e em Bocaina 90%.

Da região também partirão caravanas até Brasília. De São Paulo são esperados cerca de 6 mil trabalhadores e 2 mil produtores. De Goiás, as estimativas dizem que por volta de mil trabalhadores irão para a capital federal protestar contra a política sucroalcoleira.

Serviço

O megaprotesto ocorre nesta terça-feira, dia 1 de junho em frente ao Kartódromo de Jaú. A área dispõe de amplo estacionamento. A concentração está marcada para 10 horas.

Em Brasília

O Dia Nacional de Luta pelo Emprego e pela Produção deverá contar com manifestações espalhadas pelos municípios canavieiros e terá seu ponto alto numa passeata pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, onde está prevista a participação de 10 mil trabalhadores com tratores, máquinas e caminhões usados na indústria de cana.

Segundo os organizadores - Federações dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação, Químicas e Rurais de São Paulo o objetivo é sensibilizar o governo. Para isso, no início da tarde acontecerá, no Congresso Nacional, o Grito pelo Emprego, com a participação dos trabalhadores, sindicalistas, autoridades e parlamentares da Frente Pró-Álcool.

As medidas reivindicadas pelos trabalhadores já foram, em grande parte, anunciadas pelo governo através das decisões do Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool

(CIMA). "O problema é que essas medidas ficaram só na agenda positiva do governo", avalia o consultor do setor sucroalcooleiro, Pedro Robério. Apenas a decisão de compra do álcool excedente através de leilões eletrônicos do Banco do Brasil vem se concretizando, na prática, mesmo assim, com críticas dos setores pelo ritmo estabelecido pelo governo, de uma oferta de 100 milhões de litros a cada semana.

Para o secretário-geral da Federação dos Trabalhadores Químicos de São Paulo, Sérgio Luiz Leite, a velocidade do volume que o governo está comprando

é muito pequena comparada à rapidez com que os trabalhadores estão perdendo o emprego. Segundo ele, mais de 30 mil trabalhadores do setor já foram demitidos em São Paulo. "Para comprar dois bilhões de litros de álcool excedente o governo gastaria R$ 600 milhões, o que é pouco se comparado à ajuda de US$ 1,6 bilhão concedida ao Banco Marka", destaca.

Na visão dos trabalhadores, há um "verdadeiro boicote" das montadoras de veículos instaladas no Brasil contra o carro a álcool, o que dificulta a retomada do Proálcool, já que não há veículos disponíveis para entrega. "Cada carro a álcool gera 28 empregos na cadeia de combustíveis enquanto o veículo a gasolina gera apenas sete empregos", afirma.

Logo no início de seu primeiro mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou a retomada do Proálcool como uma das prioridades do governo. Em outubro do ano passado, o Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool (CIMA) decidiu autorizar a mistura de 3% de álcool ao diesel e a criação da frota verde para enxugar os excedentes do mercado, mas até agora essas medidas não aconteceram na prática. Novos anúncios foram sendo feitos ao longo do tempo, todos em nome da reativação do Proálcool, como a decisão do governo de só manter o benefício da isenção do IPI para os carros a álcool. Para que isso aconteça, no entanto, é preciso uma alteração na lei, e até agora não foi dado nenhum sinal neste sentido, embora a frota de táxis continue sendo renovada.

Outra medida anunciada foi o aumento da adição de

álcool à gasolina de 24% para 26%, também não concretizada ainda. "O governo tem a intenção, mas não a resolução", diz o consultor Pedro Robério. Enquanto isso, a tonelada de cana-de-açúcar está sendo paga a até R$ 8 no mercado, "preço mais barato que qualquer coisa no mundo", segundo a própria diretora do Departamento de Açúcar e do Álcool do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Elizabeth Seródio. O litro do álcool hidratado comprado pelo governo no leilão da última sexta-feira ficou em R$ 0,25, em média, abaixo dos custos de produção.(AE)

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