Antibióticos
Antibióticos
Texto: Sabrina Magalhães
Uso indiscriminado gera super bactérias e a Medicina começa a ficar sem remédios contra elas
A lei determina que antibióticos só podem ser vendidos mediante a apresentação de receita médica. Todos sabem disso, mas a automedicação é rotina entre as famÃlias. Além dos efeitos colaterais a que o doente fica sujeito - lembrando que remédios são drogas -, o consumo inadvertido destas substâncias quÃmicas está criando uma geração de "super bactérias": micróbios para os quais boa parte dos antibióticos não faz qualquer efeito. Eles são agressivos, causam doenças graves (e fatais) e só morrem depois do paciente ingerir remédios extremamente fortes, com sérios prejuÃzos para o organismo.
A primeira coisa que é preciso esclarecer é que antibióticos não combatem vÃrus. Portanto, para gripes e resfriados não existem remédios. "Se você fizer repouso, se alimentar bem e tomar bastante lÃquido, se você agÃentar as dores da gripe, você vai se curar sozinho em três a sete dias", explica a infectologista Denise Arakaki. Segundo ela, os únicos remédios permitidos para tratar a gripe são os antitérmicos, para cortar a febre; os analgésicos, para aliviar as dores de cabeça e musculares; o rinossoro, para desobstruir o nariz; um xarope, contra a tosse; e se houver uma inflamação na garganta, com secreção, um antiinflamatório também é permitido. Mas antibióticos, não.
Para os especialistas, a confusão que as pessoas fazem
é porque os primeiros sintomas de qualquer infecção são muito semelhantes: o alarme do corpo diante de uma
"invasão" se dá através de febres, dores de cabeça, ânsias de vÃmito, diarréias, dores musculares, desânimo, perda de apetite. Se em um desses episódios o médico indicar um antibiótico, no próximo, o indivÃduo tende a julgar que aquele remédio vai resolver de novo. Ledo engano. As reações orgânicas são as mesmas, mas os agentes causadores das doenças são muito diferentes e só um médico, com o auxÃlio de exames de laboratório, pode reconhecê-los e prescrever o melhor "veneno" contra ele.
Sob pressão
A associação que as pessoas fazem entre doença e remédio é um dos fatores de induzem os profissionais a prescrever antibióticos. Quem vai ao médico vai em busca da "poção mágica" e não admite ouvir que tem que suportar os sintomas, enquanto o corpo reage. Mas este é o processo natural.
O organismo é dotado de um complexo sistema de defesa, que é ativado sempre que um corpo estranho o invade. O mal-estar nada mais é do que a manifestação deste sistema: a temperatura sobe (febre) para matar o germe; as náuseas visam à eliminação do intruso; o desânimo é porque todas as energias do corpo estão sendo direcionadas ao combate.
Para Arakaki, no entanto, o sofrimento da doença aflige as pessoas, principalmente as mães: "Ela leva o filhinho doente ao pediatra. Depois de examinar a criança, o profissional diz que é uma doença viral, que não precisa de antibiótico, que ela vai sarar sozinha. Três dias depois, a criança ainda está com febre, o que é normal numa virose. A mãe fica aflita de novo e muda de médico. O segundo pediatra, mesmo fazendo o mesmo diagnóstico, percebe a angústia da mãe e, para acalmá-la, indica um antibiótico. Aquela criança, que já estava na fase mediana da infecção, vai sarar no segundo dia (quinto dia da virose). AÃ, o bom é aquele médico que receitou o antibiótico. Então, muitas vezes, o uso do remédio é feito por pressão do próprio paciente."
Só que, para matar o germe, o antibiótico acaba atacando outros componentes vivos do organismo, causando o que se chama efeito colateral. Estes efeitos podem variar desde uma gastrite, uma irritação na pele, até uma insuficiência renal ou uma inflamação no fÃgado
(hepatite medicamentosa).
Mascarar a doença
Outra implicação do uso indevido de antibióticos
é que eles podem mascarar doenças graves. Neste sentido, o exemplo mais conhecido é o da meningite, que começa com um quadro semelhante do da gripe. A mãe fica aflita e começa a dar o antibiótico que o filho já tomou outras vezes.
O remédio vai atacar a bactéria, mas só inibindo seus efeitos (ela se esconde, mas não morre). Com isso, os sintomas ficam mais brandos, mas não desaparecem. A mãe procura o médico e encontra o paciente com um quadro muito mal definido, não consegue fazer o diagnóstico. Quando identifica a doença, ela já está em estágio muito avançado e pode deixar seqÃelas bastante graves na criança, de acordo com a infectologista.
Em geral, a orientação médica é que, diante destes sintomas, o paciente aguarde três dias, usando os remedinhos convencionais contra esses sintomas. Se não houver melhora, deve-se procurar pelo especialista e nunca optar pela auto-medicação.