Bauru terá Instituto de Biotecnologia
Bauru terá Instituto de Biotecnologia
Texto: Luciano Augusto
Bauru terá oficialmente, nos próximos dias, a instalação do Instituto de Biotecnologia Aplicada. O organismo de pesquisa irá atuar junto à empresas farmacêuticas e de produtos médicos correlatos, oferecendo certificações para produtos e também no desenvolvimento de novas tecnologias, representando o "embrião" de uma indústria tecnológica para o terceiro milênio.
O Instituto é uma iniciativa do setor privado, em especial, de empresas associadas à Associação das Indústrias Brasileiras Médico-hospitalares, Odontológica e de Laboratório (Abimo). Os recursos iniciais para a implantação do Instituto de Biotecnologia Aplicada serão provenientes do setor privado e a fonte de renda virá da oferta de serviços
à indústria nacional, organismos internacionais e ao setor terciário. O investimento total previsto para os próximos cinco anos é de R$ 4 milhões e, daqui a 24 meses iniciam-se as atividades laboratoriais, numa clínica de pesquisa e desenvolvimento de produtos e as certificações para as indústrias.
De imediato, o Instituto estará inaugurando, já nos próximos dias, um Centro de Excelência em Implantes, oferecendo tratamento à grupos selecionados com necessidades de implantes odontológicos com soluções de
última geração.
"É uma organização não governamental, sem fins lucrativos, dedicada à melhoria da qualidade dos produtos da área médica, que é dividida em duas partes, que são os medicamentos e os correlatos (tudo que não é medicamento)", define o presidente do Conselho Administrativo do instituto, Aguinaldo Campos Jr, 41 anos.
Justificando a implantação do instituto, o pesquisador afirma que a indústria nacional, especificamente a indústria médica, passou muito tempo protegida, longe do acesso à tecnologia de outros países. Com isso, diz, "não houve um avanço tecnológico muito claro".
Com a abertura econômica aos produtos importados, iniciada no Governo Collor e ampliada a partir do Governo Fernando Henrique Cardoso, o País passou a ter acesso maior à estas novas tecnologias e, atualmente, precisa "desesperadamente de tecnologia, em qualquer área", para poder concorrer e exportar. Como aponta o idealizador do projeto, o mercado nacional
é muito limitado em alguns segmentos, principalmente na
área médica, e carente de recursos e investimentos. Ele aponta o que classifica de "alguns absurdos", como por exemplo, a falta de tecnologia nacional na fabricação de marcapasso, que já existe e é aplicada desde a década de 50. "Tudo que se usa (de marcapasso) é importado", reclama.
Por outro lado, para poder sobreviver, a indústria tecnológica nacional precisa estar habilitada para exportar esta tecnologia. Esta habilitação para comercializar os produtos no exterior é conseguida através das certificações fornecidas por organismos gabaritados para tanto. É importante ressaltar que estas certificações não são obrigatórias, mas fazem diferença nas concorrências mercadológicas.
De acordo com Campos Jr., os países ricos e avançados não limitam suas importações através de barreiras comerciais, exceto os Estados Unidos. Estes países coíbem as importações com a instituição de barreiras técnicas, onde se pode importar determinado produto, desde que ele atenda à determinadas normas internacionais e também qualifique o seu produto para ultrapassar estas barreiras técnicas dos outros países.
Para poder viabilizar estas certificações, Campos Jr. adianta que nos próximos 12 meses, o Instituto estará sendo avaliado e credenciado pelo Inmetro (que é o organismo oficial de certificação do Brasil) para tornar-se um Organismo de Certificação Credenciado (OCC).
"Para se tornar um OCC é fundamental que se tenha uma estrutura totalmente independente", esclarece.
Uma outra frente de atuação do Instituto será fazer a ponte entre tecnologia e empresas. "Pretendemos pegar tecnologias dentro e fora do País e apresentar às indústrias e também o contrário, ouvir a demanda das indústrias e ir atrás de tecnologia", avalia o pesquisador. As indústrias serão os maiores clientes do Instituto, que nasceu por vontade das empresas, analisa Campos Jr., com a intervenção da ABIMO. Segundo o estudioso da biotecnologia, há linhas de fomento que são oferecidas para as indústrias e que são desconhecidas pelos empresários nacionais e "esta interface é o papel do instituto". Segundo ele, a demanda já é bastante expressiva.
O principal aspecto econômico destacado pelo pesquisador
é que com a criação do Instituto de Biotecnologia Aplicada está sendo criado "um embrião de uma indústria de engenharia tecidual, que é um mercado fantástico para o próximo milênio". E aí, segundo Campos Jr., cabe destacar algumas considerações de ordem econômica.
O Instituto, por exemplo, está sendo criado fora de uma universidade (tanto pública quanto privada) porque o modelo universitário de transferência de tecnologia "está desacreditado". "O modelo brasileiro de formação em tecnologia, neste ponto, vai mal", complementa o estudioso deste novo campo científico.
De um modo geral, alerta Campos Jr., todas as agências de fomento estão com esta preocupação e perceberam que o modelo se esgotou. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por exemplo, criou mecanismos para trabalhar especificamente junto à empresas. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), está vinculando 60% de suas bolsas a projetos com empresas.
Partindo para área de desenvolvimento de projetos próprios, com o apoio de agências nacionais e internacionais, a intenção
é atuar no segmento da novíssima área de técnicas regenerativas com a pesquisa direcionada para o campo da engenharia tecidual. "Já fizemos a engenharia molecular (pegar um fragmento do DNA e produzir substâncias iguais às produzidas pelo corpo humano) no Brasil, como por exemplo, a produção de insulina, hormônio do crescimento e calcitonina", destaca o pesquisador.
A engenharia tecidual são os métodos e processos pelo qual se formam órgãos ou parte de órgãos fora do corpo humano em substituição aos transplantes. O custo do processo, segundo Campos Jr., é infinitamente inferior ao custo de um transplante, além da drástica diminuição dos riscos de rejeição do órgão pelo organismo do paciente, um dos principais fatores complicadores nos transplantes. Pele humana, por exemplo, igual à produzida normalmente pelo corpo humano, já pode ser comprada nos Estados Unidos.
Pesquisas desenvolvidas pela Agência Espacial Norte Americana
(Nasa) possibilitou o domínio sobre a "fabricação" e produção de tecidos e órgãos iguais aos produzidos no corpo, como pâncreas e próstata, por exemplo, num ambiente sem gravidade. Em um ambiente que sofre a ação da força da gravidade também
é possível reproduzir este mesmo órgão, só que o seu formato "fica achatado". Estas pesquisas foram desenvolvidas pela Nasa, na estação espacial russa Mir.
Como a agência espacial americana possui um programa de transferência de tecnologia para o setor privado, o Instituto está licenciando esta tecnologia para o Brasil, para produzir alguns tipos celulares, especialmente ossos da boca.
De acordo com o pesquisador bauruense, a cidade foi escolhida como sede do instituto por causa, além de outros fatores, da grande oferta de mão-de-obra qualificada na área biológica, tanto aqui como também na região. Como afirma Campos Jr. é preciso usar as facilidades existentes e impulsionar Bauru para uma vocação determinada, facilitando a captação de recursos. "Nós queremos criar um centro de germinação de novas indústrias nesta área, porque a grande jogada da biotecnologia é que o seu modelo é o de uma indústria pequena", revela. No momento em que se agrega recursos e existem empresas com capacitação, cria-se uma rede onde existe a troca de recursos, tecnologias e informações. Nos EUA, toda a reunião da área de biotecnologia está na Califórnia.