Comida na rua é maior preocupação da Saúde
Comida na rua é maior preocupação da Saúde
Texto: Adriana Amorim
O comércio de produtos alimentícios mantido por vendedores ambulantes é o segmento do setor que mais preocupa a Divisão de Vigilância Sanitária do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) de Bauru. O órgão estima que cerca de 400 pessoas vendam comida no mercado informal, número que inclui os feirantes. Desse total, aproximadamente 200 comercializem alimentos fora das feiras, vendendo lanches, doces e churrasquinhos nas ruas da cidade.
Um dos motivos de tanta preocupação é o crescente aumento de ambulantes aderindo ao comércio de alimentos, reflexo da crise econômica enfrentada pelo País e fruto do desemprego. O órgão, responsável pela vigilância sanitária, sabe do agravante, mas diz que não pode ser tolerante com algumas pessoas quando a questão é saúde pública.
"Nós temos que zelar pela saúde pública", frisa a médica. "Depois, nada do que exigimos é impossível de ser feito, não há rigidez excessiva", garante a diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC). As normas para os ambulantes possuem aspectos básicos: a pessoa que lida com alimentos não pode ao mesmo tempo manusear dinheiro; e os recipientes com lixo devem sempre estar tampados e depois do turno de trabalho ser retirados da rua ou calçada. A instrução também é para que sempre haja água para lavar as mãos e os alimentos fiquem protegidos da poeira, sol e chuva.
Meio propenso
As dificuldades aumentam porque o ambiente de trabalho dos ambulantes
é alvo em potencial das contaminações, o que faz que nem sempre o padrão de qualidade ideal seja atingido. "Eles estão vendendo e preparando os alimentos em locais potencialmente contaminados, que é a rua", diz o diretor da Divisão de Vigilância Sanitária, Mário Ramos de Paula e Silva.
O maior problema no comércio de alimentos ambulante são os churrasquinhos de carne, que assim como bebidas alcoólicas e refeições, é proibido de ser comercializado. Uma recente coleta de amostras feita pela Vigilância Sanitária constatou presença de coliformes fecais em todas os casos analisados. No entanto, o produto continua sendo vendido.
O DSC argumenta que há brechas na lei que dificultam a atuação e outras duas secretarias municipais são envolvidas na mesma questão, a Secretaria de Planejamento e do Meio Ambiente. "Na prática está complicado e por isso o assunto está sendo discutido entre as secretarias", afirma Maria Helena. Ela diz que uma minuta pedindo alteração na lei municipal deve ser concluída este mês, estipulando normas de higiene e as atribuições de cada secretaria. Prevê ainda o mapeamento dos ambulantes e a intensificação da fiscalização.
Outro lado
O ambulante Renê Eduardo Borges, 27 anos, vende churrasquinho na saída de um supermercado há 1 anos, mas garante que mantém a higiene. A carne, já temperada, é mantida em uma caixa de isopor. Ele diz que leva à rua uma quantidade pequena do produto para evitar que fique velho. Borges entrou nesse tipo de comércio depois que ficou desempregado, situação de grande parte dos ambulantes.
"Nós fomos os primeiros a chegar na praça, mas por causa do desemprego, muita gente veio depois", diz Ana Cláudia Bonfim, 17, que há 8 anos mantém um carrinho de cachorro-quente na Praça Rui Barbosa. Ela diz que todos os produtos ficam tapados e os lanches são feitos na hora do pedido.
A Vigilância diz que os ambulantes podem agir em parceria com o órgão, retirando o alvará sanitário e realizando análises nos produtos. No caso de irregularidades, são aplicadas multas que variam de R$ 40,00 a R$ 2.000,00, chegando à interdição ou recolhimento do carrinho. Informações podem ser obtidas pelo telefone 235-1458.
Procon atua em caso de urgência
A falta de estrutura do Procon de Bauru impede que o órgão mantenha um trabalho constante e rotineiro na fiscalização de estabelecimentos que comercializam produtos alimentícios. A vistoria para verificação da data de validade dos alimentos é uma das tarefas do órgão.
O advogado do Procon em Bauru, Luiz Alan Barbosa Moreira, explica que não há fiscais suficientes para que seja realizado esse tipo de serviço. Diante da situação, o órgão atua apenas mediante denúncias. "Não
é apenas atender a denúncia e fazer a multa, é preciso pessoal especializado para fazer a fundamentação do auto de infração", argumenta.
Mesmo no caso de denúncias, o Procon local não fica encarregado pelo caso, uma vez que nem mesmo os formulários estão disponíveis. Barbosa Moreira explica que são enviados relatórios ao Procon de São Paulo, que faz a autuação da empresa.
Segundo o advogado, as reclamações de consumidores sobre problemas envolvendo alimentos raramente chegam ao Procon em Bauru. Para evitar transtornos, a dica é redobrar a atenção na hora da compra para evitar a aquisição de produtos com data de validade vencida.
Caso o consumidor leve o alimento para casa sem perceber o vencimento, a orientação do Procon é para volte ao estabelecimento para fazer a troca, se possível apresentando a nota da compra, e procure o atendimento do gerente. "Algumas vezes a situação passa despercebida", diz. "O estabelecimento tem que trocar, mesmo porque essa é a melhor medida para satisfazer o consumidor e evitar outros problemas".
(AA)
Higiene e origem dos produtos são aspectos mais problemáticos
A falta de higiene e a comercialização de produtos não inspecionados pelos órgãos de saúde são as principais irregularidades cometidas por restaurantes, lanchonetes e supermercados da cidade. Segundo a Divisão de Vigilância Sanitária, a maioria dos estabelecimentos visitados descumpre algum tipo de norma e são autuados mesmo que os problemas sejam mínimos. A multa varia de R$ 50,00 a R$ 2.000,00.
Nos restaurantes e lanchonetes que apresentam problemas, as irregularidades estão principalmente nas cozinhas e sanitários. Os descumprimentos das regras sanitárias são de todo tipo, de alimentos mal acondicionados e expostos a produtos com procedência duvidosa, como carne e leite clandestinos.
Nesses locais, a vistoria da Vigilância Sanitária
é feita obrigatoriamente pelo menos uma vez ao ano para que seja renovado o alvará sanitário. São verificadas as instalações físicas, acondicionamento e origem de alimentos, higiene e a carteira de saúde. O documento é obrigatório para todo funcionário que trabalha no ramo de alimentos e é retirado mediante exames médicos.
"O estabelecimento precisa afixar o alvará sanitário. Com ele, o consumidor pelo menos tem garantida a carteira de saúde dos funcionários, estrutura física e regras sanitárias mínimas", explica o diretor da divisão de Vigilância Sanitária, Mário Ramos de Paula e Silva.
A vistoria é realizada em um período menor que 12 meses caso haja alguma denúncia. Em caso de irregularidade,
é feito o auto de infração. O dono do estabelecimento entra com recurso para pedir um prazo para a adequação, período definido pela Vigilância de acordo com o problema constatado. A multa só é aplicada quando não são tomadas todas as medidas necessárias.
Mercados
As mercearias e supermercados também não ficam livres das irregularidades. Segundo Paula e Silva, os problemas de higiene,
áreas físicas e de depósitos inapropriados são os principais pontos descumpridos pelos donos desses estabelecimentos.
O problema está também no prazo de validade dos alimentos, geralmente nas promoções feitas por supermercados de periferia. "O dono coloca em promoção hoje, por exemplo, e a validade vai até amanhã. Nesses casos não podemos autuar, mas recomendamos que o cliente não compre", diz.
Para evitar as irregularidades, a Vigilância Sanitária irá fazer uma ficha de inspeção dos estabelecimentos da cidade, atribuindo uma pontuação que irá determinar a frequência das vistorias. A modificação está sendo adotada com base em uma nova portaria do Centro de Vigilância Sanitária do Estado e estipula ainda a parceria entre o órgão municipal e responsáveis técnicos que devem ser contratados pelos estabelecimentos.
Tanto nos restaurantes como nos supermercados, uma das maiores preocupações são os palmitos, que em caso de contaminação transimitem o botulismo. Ontem, a Vigilância Sanitária fez a desinterdição de um lote do produto importado, que havia sido retirado de circulação para análises. Como não foi encontrada anormalidade, o lote foi autorizado a voltar às prateleiras.
Alimento estragado provoca intoxicação
A intoxicação alimentar é a consequência mais comum da ingestão de comidas estragadas ou contaminadas. As bactérias provocam distúrbios gastrointestinais que variam do vômito à alteração do metabolismo.
A maionese é o alimento responsável pelo maior número de intoxicações. Muitas vezes, é preparada em casa, o que facilita a contaminação com a bactéria Salmonela, presente no ovo. O médico Álvaro Bien explica que os primeiros e mais corriqueiros sintomas da intoxicação são vômito e diarréia.
Depedendo do tipo de contaminação do alimento, o quadro pode evoluir, apresentando febre, mal-estar e dores abdominais, podendo ocasionar desidratação e alteração do metabolismo. Segundo ele, os casos mais simples podem ser tratados através da ingestão de muita água, soro caseiro e comida leve. Quando os sintomas se agravam é necessária a hospitalização.
Na lista dos alimentos que mais preocupam as autoridades sanitárias estão também os palmitos. Contaminados, podem transmitir o botulismo através de uma toxina que causa paralisia muscular. Os primeiros sintomas, que podem aparecer entre 18 e 36 horas, são boca seca, visão dupla, náuseas, vômitos, cólicas e diarréias. Posteriormente, surgem problemas neurológicos, como paralisia facial.
A carne, quando mal cozida, também é fonte de doenças. Uma das mais comuns é a teníase. Presentes na carne boi, mas principalmente em porcos, as tênias permanecem vivas nos produtos consumidos crus ou mal passados. Conhecida como solitária, a tênia se aloja nas paredes do intestino, provocando desconforto abdominal. Por ser hermafrodita (possui os dois sexos), se reproduz rapidamente, podendo chegar na corrente sanguínea.
O médico explica que a tênia pode alcançar o pulmão, músculos ou cérebro. No cérebro, pode ficar calcificada ou se reproduzir, causando dor de cabeça, convulsão ou afetando todo o organismo e causando a morte.
(AA)