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Livros infantis

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Era uma vez...

Era uma vez...

Texto: Gustavo Cândido

Esta frase, segundo a ex-professora primária bauruense e escritora de livros infantis Marina Monteiro Cardoso, tem um poder mágico sobre as crianças. Mágica que está presente em muitos dos seus livros, que são um sucesso por escolas em todo o Brasil. Foi pensando na educação das crianças que ela também desenvolveu, no final dos anos 80, um kit pedagógico básico para ser usado antes e durante a pré-escola, o "Pequeno Aprendiz", outro grande sucesso, usado por muitas escolas. Capaz de deixar qualquer um a vontade, a ponto de quase chamá-la de tia Marina como fazem as crianças mais novas com suas professoras, foi com toda doçura que só uma professora de primário com mais de 20 anos de experiência ("dei aula para a maioria dos médicos e advogados da cidade", diz, mostrando o álbum dos alunos com fotos que vem desde a década de 50), pode ter, que Marina Monteiro recebeu o Jornal da Cidade para falar sobre a sua obra. Um fato raro, já que quase nunca está em Bauru devido aos compromissos com os livros e com as editoras. Era uma vez...

Jornal da Cidade - Onde a senhora começou a dar aulas?

Marina Monteiro Cardoso - Foi em uma fazenda de Duartina onde eu lecionava para a primeira, segunda e terceira séries e depois, à noite, para adultos. Na época em que me tornei professora a gente não podia escolher, tinha que passar primeiro pela zona rural, era obrigatório, só depois de dois anos a gente podia vir para a cidade. De lá fui para Quilombo, depois fiz especialização e vim transferida para o Ernesto Monte, onde fiquei 25 anos.

JC - Sempre dando aula no pré?

Marina - Sempre. Eu sempre gostei de criança e criança pequena. Junto com o pré eu tive em casa a Gurilândia que era maternal , jardim e pré. Depois que eu me aposentei eu fiz o "Pequeno Aprendiz".

JC - O que é exatamente o "Pequeno Aprendiz"?

Marina - É uma coleção didática de três volumes que serve para crianças de 4, 5 e 6 anos, que eu fiz em 1988, para o Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas (IBEP), com livros de caligrafia, matemática, linguagem, tudo que a criança precisa antes de ser alfabetizada. Cada uma das três pastas com todo material serve para um ano inteiro de escola da criança. Esse material foi muito vendido durante três anos, agora vou mudar de editora para que ele possa ser reeditado. Essa coleção fez muito sucesso na região Sul do Brasil.

JC - Hoje em dia as crianças estão sendo alfabetizadas mais cedo. A senhora concorda com isso?

Marina - Não. O papel da pré-escola não

é alfabetizar e sim preparar a criança e a deixar familiarizada com a escola, com um trabalho de preparação e entrosamento.

JC - E depois?

Marina - Eu fiz, em 1990, a "Caligrafia Instrutiva", ainda no IBEP, que aborda oito assuntos, como gramáticas, estados e capitais, animais, etc. A criança vai escrevendo, melhorando a letra e aprendendo ao mesmo tempo.

JC - Quando a senhora começou a escrever histórias infantis?

Marina - Em 1992, quando eu fiz "No Mundo do Faz de Conta". Depois eu fiz "Rabito e Rabão" e

"O Segredo do Saci", todas na Editora Paulus. Na FTD, eu fiz "A Bruxa que Roubou o Sol". Agora estou na Editora Esfera onde foi o lançamento da "Bruxa Atrapalhada" e acabei de lançar "A Princesinha Dorminhoca".

JC - Seus livros agora são interativos?

Marina - Sim, a criança interfere na história e cria o seu final. Eu dou o meu final mas deixo um espaço para elas poderem dizer o que quiserem. Os últimos livros também têm um encarte com desenhos e exercícios para as crianças.

JC - Qual a faixa estaria dos leitores dos seus livros?

Marina - Crianças até nove anos, mas as mais novas também podem gostar se o professor contar, Depois ela faz o trabalho com os desenhos que vêm nos encartes.

JC - Como é o mercado brasileiro de livros infantis?

Marina - Foi muito melhor, deu uma parada e agora o que se encontra muito são livros da Disney, a gente concorre com Mickey, Rei Leão, Pocahontas. Uma mãe quando vai comprar um livro acaba indo pela beleza da capa e leva os da Disney que são lindos. O mercado já foi melhor.

JC - Mas os nossos livros são melhores em conteúdo?

Marina - Sim, ai não tem comparação.

JC - Por que?

Marina - Minhas histórias, por exemplo, elas nunca têm uma moral imposta e fazem a criança pensar, criar.

JC - A senhora recebe cartas de crianças de todo o Brasil?

Marina - Recebo, principalmente do Nordeste, de lugares que eu nem conheço e são todas cartas com muito carinho, de crianças que nem sequer me viram! Isso é o meu tesouro, isso o que vale para mim. Não faço livros por dinheiro, até porque o escritor fica com 10% dos lucros apenas, às vezes 5%.

JC - A senhora responde todas as cartas?

Marina - Todas e bem bonitinho, com cartinhas com desenho... Respondo todas e de maneiras diferentes porque uma criança que escreve lá do Recife, sem me conhecer, pedindo para eu ir até lá porque gostou do meu livro merece uma resposta. Isso vale mais do que todo dinheiro do mundo.

JC - Seus próximos livros já estão prontos?

Marina - Sim, só estão faltando ir para a gráfica. O próximo se chamará "A Sereia de Pedra". Também tenho um livro escrito que se chama

"Viuvez, Como Enfrentá-la", que saiu um pouco da minha linha, mas é um livro de auto-ajuda onde eu conto o como passei a viver depois que fiquei viúva, sem sofrimento.

JC - Mas a senhora vai continuar a escrever para as crianças?

Marina - Sempre. Já me pediram para escrever para adolescentes mas eles pensam diferente e muitos não gostam de ler, preferem o computador, onde jogam, fazem os trabalhos, se divertem. Argumentei isso com o meu neto e acabei escrevendo um livro sobre essa relação do livro e do computador.

JC - Se livros como os seus forem difundidos para as crianças ainda bem pequenas elas vão gostar mais de ler quando crescerem não vão?

Marina - Essa mentalidade já está sendo adotada e introduzida em algumas escolas, isso é fundamental. Mas eu sou contra o "tem que", o aluno deve ser livre para escolher o que lê e quando, deve ser estimulado e não obrigado, sou contra isso. As coisa têm que ser espontâneas com as crianças. Eu chego em uma classe onde as crianças estão endiabradas, pulando, gritando, sento e digo: "Era uma vez..." Começo a contar uma história e todas elas param e prestam atenção.

JC - O que elas gostam nas histórias?

Marina - Apesar de dizerem que isso já está ultrapassado, elas gostam de magia, de fadas e bruxas. De tudo o que é fantasia, que a criança adora mas a gente vai perdendo quando fica adulto. É preciso imaginação para agradá-las e eles também gostam de situações onde os problemas estão nas mãos delas, para elas resolverem. Por isso meus livros são interativos.

JC - O lançamento do seu próximo livro vai ser aqui em Bauru?

Marina - Sim, vai ser aqui, como foi o do primeiro livro.

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