Família vai de bicicleta para a estrada à procura de emprego
Família vai de bicicleta para a estrada
à procura de emprego
Texto: Adriana Rota
Quem estiver passando pela rodovia Marechal Rondon em direção ao Mato Grosso e vir um homem, uma mulher e um bebê sobre bicicletas, acompanhados por um cão amarrado em uma delas, não deve achar que eles ficaram malucos. À beira do desespero talvez, causado por três anos de desemprego.
A família partiu de Agudos na última segunda-feira
às 15 horas, após uma refeição composta por arroz e feijão. Eles só viriam a comer novamente ontem, aproximadamente no mesmo horário, recebendo o suprimento de uma viatura, contatada por uma senhora que passava pelo local e parou para conversar. A garotinha ainda mama no peito.
Eles moravam com mais sete pessoas numa casa do bairro Professor Simão, mantendo-se apenas com a aposentadoria da tia que criou Daniel Batista dos Santos, 32 anos, o pai. "Já estávamos quase passando fome. Pensamos: se é para ficar aqui, melhor ir para a estrada, porque a chance de conseguir alguma coisa no caminho é maior".
A idéia de tentar uma nova vida surgiu e foi amadurecida num período de apenas cinco dias, tempo suficiente para fazer adaptações nas bicicletas com madeiras, ferro e uma cadeirinha, de modo a acomodar as poucas roupas e cobertores que têm e propiciar um pouco de conforto à pequena Meire Elen, de 1 ano e cinco meses.
O Estado do Mato Grosso foi definido como destino porque Santos tem parentes por lá. Além disso, acredita que "tem muito serviço, mais fazenda que aqui". Além de lidar com gado, Santos já trabalhou como cortador de cana e operador de máquina (trator) no seu último emprego, na usina Zilo Lorenzetti. Tem um pequeno problema na mão direita, causado pela perda da primeira falange do dedo indicador (cortado pela hélice de um trator), o que não chega a prejudicar suas atividades.
Nesses últimos três anos sem trabalho, fazia "bicos" como servente de pedreiro, catador de papelão e de latinhas. Mas ele garante que pode fazer qualquer coisa: "O primeiro serviço que aparecer, sendo limpo, a gente pega".
Zilda Machado Couto, 20 anos, a mãe, falava pouco e carregava nas mãos uma bolinha e um ursinho do tamanho de sua mão,
únicos brinquedos da garota. Teve de abandonar os estudos na sexta série para trabalhar na roça e está disposta a "colocar a mão na massa", desde que tenha uma creche para deixar a filha.
O casal, que planejava dormir no próximo posto de gasolina do caminho - eles foram entrevistados na altura do quilômetro 357 da Marechal Rondon - tinha um brilho nos olhos e demonstrava muita garra, força de vontade e calma. "Nós estamos procurando manter a cabeça fria. Muita gente se desespera e acaba fazendo burrada. Eu não estou com um pingo de medo e só paro quando arrumar um emprego. Trabalhar
é a única coisa que eu quero na minha vida", garantiu Santos.
Apesar da baixa temperatura da noite passada, durante a qual eles se abrigaram embaixo de um viaduto na altura do bairro Santa Luzia, Santos e Zilda disseram que "graças a Deus" não passaram frio e tinham agasalhos e cobertores suficientes. O que vão precisar no caminho, caso não consigam emprego,
é de comida, porque não têm como carregar nem cozinhar.
Questionados se seguiam alguma religião, o pai não hesitou: "A única religião que carrego é Deus no coração". A mãe manteve-se calada, em sinal de que concordava. A garotinha continuava brincando na terra à beira da estrada, inocente, sem ter idéia do que está ocorrendo com sua família.