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Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 11 min

Tuga: Alianças serão imprescindíveis

Tuga: Alianças serão imprescindíveis

Texto: Josefa Cunha

As alianças já estariam sendo costuradas, embora o partido ainda não tenha definido internamente se vai ou não caminhar sozinho

O ex-deputado federal Tuga Angerami, manifesto pré-candidato a prefeito pelo PSDB, defende incondicionalmente composições com outros partidos para o processo de sucessão municipal do ano que vem. As alianças já estariam sendo costuradas com o PDT, PV e PSB, embora o partido ainda não tenha definido internamente se vai ou não caminhar sozinho. Para Tuga, o PSDB não terá êxito no processo e nem condições de governar sem coalizões, razão pela qual já

"liberou" a executiva do partido a aceitar nomes de outros partidos ou do próprio PSDB na disputa da vaga à Prefeitura. O ex-deputado diz estar disposto a abrir mão da candidatura em favor de eventual nome com maior poder de aglutinação. Também disse que os futuros candidatos serão obrigados a apresentar discursos francos em suas campanhas, sob pena de cair no descrédito com a tradicional retórica das promessas. A seguir, acompanhe as opiniões do tucano.

Jornal da Cidade - O senhor já se manifestou há alguns meses a respeito, mas continua sendo candidato a prefeito?

Tuga Angerami - Eu continuo disposto a me candidatar e continuo desejando muito o privilégio de voltar a ser prefeito,

é claro. Mas, existem algumas condicionantes. Eu estou num partido que tem vários candidatos e eu não sou o único. Temos o Rubens (vereador Rubens Spíndola), mas eu acho que qualquer um dos três vereadores do PSDB tem legitimidade, representatividade e votos para tanto. Tem também o Caio Coube, que já manifestou interesse e, embora não tenha passado ainda pela prova das urnas, não significa que não possa obter sucesso. Ao longo da história do PSDB em Bauru, têm ocorrido convenções e disputas, e tudo isso é muito natural. Quando eu digo que existem condicionantes, quero dizer que eu estou disposto, mas que tenho de ser escolhido pelo partido. Reconheço que os demais têm todas as condições para serem bons candidatos.

Jornal da Cidade - O PSDB vem conversando com PDT para uma possível aliança. O senhor apóia a parceria?

Tuga - Veja bem, a disputa no próximo ano não poderá ser solitária e o PSDB não deve sair achando que tem condições de vencer sozinho. O desafio que se coloca hoje para a executiva, capitaneada pelo Ladeira,

é a abertura de conversação com outros partidos, o que já vem acontecendo, principalmente com o PDT, PSB e PV, sem que com isso se excluam outras alternativas. Não basta imaginar que vamos escolher alguém na convenção e chegarmos sozinhos. Eu acho que nessa eleição a formação de uma frente ampla de forças não será importante apenas para garantir o bom desempenho eleitoral, mas para garantir condições posteriores de se governar a cidade.

Jornal da Cidade - Uma composição com o PDT, que se apresenta muito forte hoje, significaria uma aliança imbatível...

Tuga - Esses quatro partidos, o PDT, PSDB, PV e PSB, partindo das dificuldades administrativas e econômicas que existem e se vislumbram também adiante, poderão compor a força necessária. Eu já conversei com a executiva e sinalizei para a importância dessa coalizão, e na medida em que se reconhece a necessidade de uma aliança, fica complicado o PSDB assumir de cara a condição de que teremos o nosso representante como o candidato. Não tem sentido buscar aliados e impor que eles nos sigam. Em que pese o desejo de voltar a ser prefeito, tenho que estar aberto para uma composição, mesma que ela acabe não me privilegiando. Acho que os demais candidatos do partido devem conversar e liberar um pouco a direção municipal. Eu já deixei à vontade por entender que nenhuma força política isolada de Bauru terá condições de administrar a cidade depois. Toda eleição é um enorme desafio, principalmente quando os recursos são parcos e cada vez mais se monetariza as campanhas. Ganhar as eleições em Bauru no ano que vem vai ser difícil, mas governar a cidade será mais difícil ainda.

Jornal da Cidade - O senhor, então, abriria mão da pré-candidatura diante da composição de uma aliança? Até para o Pedro Tobias?

Tuga - Se houver uma costura de força que acabe viabilizando o nome do Pedro, do Marcelo Borges, do Cláudio Turtelli ou de alguém do PSB, terei disposição de recuar na candidatura, mas esse recuo viria com alguém com condições de aglutinar. Eu não posso personalizar e dizer em nomes. Posso abrir até para alguém do próprio PSDB. Se a executiva chegar à conclusão de que a aglutinação seria viável em cima do nome de outro tucano, não terei dificuldade nenhuma em retirar minha candidatura.

Jornal da Cidade - Nessa composição que o senhor tanto defende, a vaga para vice seria bem-vinda?

Tuga - Olha, eu me coloco como pré-candidato a prefeito e dou liberdade à executiva de avaliar a viabilidade do meu nome. Deixo, inclusive, a brecha para me excluir do processo se assim julgarem melhor. Agora, não penso na vaga de vice, embora ache cedo demais para avançar ou admitir esse tipo de alternativa.

Jornal da Cidade - O senhor está me dizendo isso, mas sabemos que os vereadores têm uma nítida resistência ao seu nome. Até que ponto isso é real e te preocupa?

Tuga - Eu acho que cada um deles tem um projeto e se empenha para viabilizá-lo. Para alcançarem o intento, no entanto, eles podem me enxergar como um obstáculo. Acho isso legítimo. Fazer política somando pessoas contra alguma coisa não é bom. Eu defendo a somatória de forças em favor de alguma coisa, de algum projeto. No caso, seria em favor de um projeto hegemônico em prol de Bauru, que permita o próximo governo municipal dar uma arrancada no município. Eu quero crer que todos os pré-candidatos do PSDB também tenham essa visão de soma pró alguma coisa.

Jornal da Cidade - Pelo menos aparentemente, os seus concorrentes internos não falam ou não defendem abertamente essa aliança para 2000...

Tuga - Quem tem que fazer essa costura é a executiva do partido. Eu estou fazendo a minha parte, que foi deixar a direção

à vontade e não colocá-la contra a parede. Não existe imposição de candidatura; ou ela surge pela vontade do partido e da aliança ou então não existe. O caminho é liberar a executiva para fecharmos as composições, que, ao meu ver, são fundamentais. Se não fecharem no meu nome, tranqüilo, mas eu não posso responder aqui pelos outros.

Jornal da Cidade - Defender inflexivelmente um nome próprio para 2000, portanto, seria uma grande besteira?

Tuga - Eu não vou adjetivar, mas eu colocaria como uma análise política equivocada. Não sei o que eles (bancada de vereadores) pensam a respeito, mas como todos conhecem bem a cidade, estão acompanhando os problemas e sabem do tamanho do desafio, tenho certeza que cada um deles gostaria de ser prefeito com o respaldo bem mais amplo do que estritamente o PSDB. O diálogo da executiva tem que ocorrer dentro do espectro partidário e com os partidos que eu já citei. Eu falei desses partidos, particularmente, sem a intenção de restringir, mas eu sei que entre o PV, PDT, PSB e PSDB tem havido muita conversa institucional e informal. Também é preciso conversar com a sociedade. Não adianta somente a costura partidária visando a campanha e o tempo na TV. A grande maioria da sociedade não

é partidarizada e sabemos que a tendência do voto recai sobre nomes e não sobre partidos.

Jornal da Cidade - Além das costuras visando as eleições, existiriam outras arestas a serem aparadas no ninho tucano, não

é?

Tuga - Eu não tenho problema pessoal com ninguém. O que ocorrem são divergências de opiniões. Ao longo desse tempo, muitas idéias minhas não foram compartilhadas, mas, do ponto de vista pessoal, não tenho problemas com ninguém e converso com todo mundo. A questão aí é política e quem tem que costurar o que não está unido é a executiva. Mas a conversa política não pode ficar restrita ao partido; tem que dialogar com associações de bairros, sindicatos, clubes de serviço, porque o grande desafio, insisto, será depois das urnas. Ficar mais quatro anos com um governo capenga por falta de sustentação política e social será um desastre para Bauru.

Jornal da Cidade - Sobre essa crise interna do PSDB que estamos assistindo. Como o senhor avalia a situação?

Tuga - O partido que tem dono, coronel ou é financiado não tem discordância. Partido democrático, sem dono e que aceita em seu seio pessoas com visões diferentes e pluralistas acaba vivendo efervescências. O PSDB é um partido de efervescência, a começar de sua própria origem, vinda da aglutinação de socialistas, comunistas, sociais-democratas, democratas-cristãos e liberais. Na realidade, o PSDB é a união de várias vertentes que têm em comum a necessidade de implementar uma política social, aliada à abertura. Não é porque A não gosta de B, é porque A e B pensam diferente. Não tenho dúvidas de que minha posição de crítico ao governo FHC me causou desconforto em setores que respaldavam a política federal. É muito natural que essas discordâncias venham à tona nesse período pré-eleitoral, principalmente quando você se coloca como candidato.

Jornal da Cidade - Como o senhor vem avaliando o desenho do quadro político para 2000 em Bauru?

Tuga - Eu resumo assim: este é o momento em que todos estão conversando com todos. Ainda estamos a 15 meses das eleições e é muito cedo para avaliações mais amplas. Em Bauru, o processo de sucessão acabou se antecipando em virtude dos consecutivos traumas.

Jornal da Cidade - O município pode vislumbrar dias melhores a partir das próximas eleições?

Tuga - Nós todos passamos por um processo de aprendizado muito doloroso. Na medida em que todos temos capacidade de aprender,

é óbvio que podemos esperar do conjunto da cidade uma decisão mais sábia nas urnas. Eu acho que a questão não é se a cidade pode esperar dias melhores. Os últimos pleitos apresentaram boas alternativas; o PSDB, por exemplo, foi bastante generoso e ofereceu à cidade o Ricardo Carrijo, uma pessoa excelente quanto à capacidade e honestidade, competência e experiência. Você me desculpe, mas foram oferecidas ao município boas opções. Mesmo se o PSDB tivesse escolhido o Rubens, digo que também teríamos oferecido uma ótima pessoa. A questão não é os partidos oferecerem seus melhores quadros, mas existem fatores alheios. O Mário Covas sempre disse que o povo sempre acerta nas eleições, escolhendo aquele que julga ser o melhor. Depois do episódio do Collor, eu fui até ele e discordei, dizendo que o povo havia errado. Ele me contrariou, mantendo a teoria, e argumentou:

"O povo acertou na medida em que decidiu em cima de um volume de informações que a imprensa veiculou". Eu fui obrigado a admitir e recordar que quem embrulhou o Collor em papel de bombom e vendeu o produto foi a grande mídia. Em Bauru, há dois anos e meio, as pessoas também decidiram em cima de informações que chegaram até elas. Talvez, a mídia local, com aquele cuidado de tratar todos igualmente, tenha passado uma visão diferente. Perante o Direito, todos os candidatos eram iguais, mas a história de cada um era diferente.

Jornal da Cidade - Como o senhor avalia os prováveis adversários das eleições, como o ex-prefeito Tidei de Lima, Nilson Costa e o potencial do PPB do deputado Carlos Braga?

Tuga - Eu não tenho a presunção de avaliá-los. Quem avalia candidatos é a população, nas urnas. Seria, no mínimo, deselegante falar deles na condição de pré-candidato.

Jornal da Cidade - Os izzistas já falam em lançar a mulher do prefeito cassado, Rosa Izzo, como candidato. O que o senhor acha disso?

Tuga - Que eu saiba, ela tem os direitos políticos mantidos. Todo o candidato deve ter claro que irá passar pelo crivo do povo. A avaliação pode ser positiva ou negativa e a opção é exclusiva do candidato. A conveniência de sair ou não cabe somente a ela ponderar.

Jornal da Cidade - Qual deverá ser o grande debate nas eleições municipais do ano que vem?

Tuga - Toda eleição é única e os debates acabam polarizando questões estaduais, nacionais. O pleito de 2000, entretanto, incidirá sobre questões concretas em nível local. Cada força política terá que apresentar para a sociedade, através de seus candidatos, a visão que ela tem dos problemas que afligem a cidade, como o transporte urbano, o sistema viário, a crise financeira, o tratamento do esgoto e os clássicos pontos sobre saúde e educação. A cidade sabe dos problemas e os candidatos que se aventurarem a ficar prometendo acabarão caindo no descrédito. Todos terão que ser realistas e francos em seus discursos. Bauru não aceita mais ser ludibriada e qualquer promessa milagrosa de acertar o município em quatro anos não será bem-vista.

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