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Comportamento

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Serviço sagrado

Serviço sagrado

Texto: Gustavo Cândido

Elas vivem para a oração e para a caridade, levando uma vida privada de luxos e regalias da qual muito poucas pessoas são capazes. Detalhe: vivem esta vida e são muito felizes assim. Para muita gente é difícil entender como as religiosas podem abdicar de tudo para seguirem apenas a fé, no que chamam de casamento com Cristo. Mas para elas não é sofrimento algum. O tema tem estado em destaque ultimamente, devido à personagem da atriz Mariana Ximenes na novela das sete, uma candidata a noviça que vive em dúvida entre abraçar a religião ou se render

à paixão por um jovem apaixonado.

Na ficção a jovem Celi (Ximenes), resolve entrar para a vida religiosa por causa do pai (Marco Nanini), que entrou em coma e ficou muitos anos dormindo em um hospital. A garota promete se tornar uma freira caso o pai melhore, o que acontece. Ela só não contava com o fato de se apaixonar por um jovem da escola que passa a freqüentar.

Casos como este não são raros na vida real, onde muitas jovens ainda se comprometem a viver somente para a religião, em troca de alguma graça. O fato é nem todas conseguem porque não têm vocação para isso, como explica a Irmã Maura de Oliveira: "a jovem que decide optar pela vida religiosa vai entrar em contato com o que vai a sua vida no futuro aos poucos, numa etapa de formação em que ela vai estudar a sua vocação mais de perto, para ter certeza de que é isso o que realmente quer". De acordo com a Irmã existe sempre uma religiosa mais experiente para acompanhar esse descobrir de perto, "mas a decisão

é a jovem quem faz. É preciso que seja uma decisão consciente, pois exige muita responsabilidade", afirma.

O processo para se tornar uma noviça e posteriormente uma irmã de votos perpétuos, não é simples e possui várias fases nas quais a aspirante vai se aprofundando cada vez mais na doutrina e ao mesmo tempo se afirmando, caso seja essa mesma a sua vocação. "Quando a menina descobre que aquela não é a sua vocação não há problema algum, ela volta a ter uma vida normal e com certeza vai fazer de tudo para ter um bom casamento e constituir uma família. O período de aprendizado ela leva para sempre, não perde nada", diz a Irmã Geralda Maria Gonçalves, que nesta semana acompanhou com outras Irmãs, um grupo de trinta jovens candidatas à noviça.

Quando decide entrar para a vida religiosa a jovem (que geralmente está na faixa do 15 anos) passa a ser uma aspirante e freqüenta eventos e reuniões, sem compromisso, sempre com o intuito de aprender mais e testar a sua vocação. Os próximos passos do processo, que só podem ser seguidos após a jovem ter terminado o segundo grau, são o propedêutico, em seguida o postulado, o noviciado canônico (quando a noviça ainda não realiza nenhum serviço externo), o noviciado prático (que dura dois anos) e o juniorato (que dura, no mínimo 5 anos). No período do juniorato as freiras

(ou irmãs, o termo tem o mesmo significado) devem estar prontas para fazer os votos perpétuos, até então estão sob votos temporários.

Momento de decisão

As Irmãs Márcia Lopes Assis e Maria Rizeuda, ambas junioras, já passaram por todas as fases iniciais e agora aguardam para fazer os votos perpétuos ou o "casamento definitivo". Elas contam que por causa da novela tem aumentado muito no número de pessoas que perguntam sobre a opção pela vida religiosa, "elas questionam se a gente não sente vontade de namorar ou se divertir como todo mundo", conta a Irmã Márcia que tem apenas 22 anos, "muita gente pensa que nós estamos sofrendo por termos escolhido essa opção, quando é justamente o contrário, estamos felizes, nós somos normais como todo mundo e jovens, mas somos ao mesmo tempo diferentes", conclui.

As duas revelam que enfrentaram a oposição da família quando decidiram optar pela vida religiosa, o que, segundo elas, acontece muito, ao contrário, mais uma vez, do que pensa a maioria das pessoas, que acreditam que muitas vezes a escolha

é forçada pela família.

"Decidi que queria ser Irmã com 12 anos, minha mãe aceitou mas meu pai, não, achava que era invenção minha. Ele só cedeu quando percebeu que eu tinha realmente a vocação. Hoje todo mundo aceita e está muito feliz com a minha escolha", conta Irmã Rizeuda, natural do Pará.

No caso da Irmã Márcia a negativa veio da mãe, que achava que ia perder a filha, já que pelo regime das congregações as Irmãs possuem apenas 10 dias em um ano para passarem com a família. "Minha mãe não queria de jeito nenhum, eu sou a filha mais nova e ela sofreu muito com a minha decisão. Para o meu pai foi o céu. Sofri muito para deixa-los mas eles sempre deixaram bem claro que quando quisesse poderia voltar". Muitas vezes a família também não entende que além da distância, as Irmãs também não têm um endereço fixo, uma hora estão trabalhando em um lugar, depois em outro, onde houver necessidade. "Nós fizemos um voto de obediência e devemos obedecer as necessidades que existem em outros lugares", diz a Irmã Márcia.

Mudança de hábitos

Passar a juventude, uma fase movimentada e de novas experiências, em busca do aprofundamento na religião causa dúvidas como a da personagem da novela, que são consideradas normais pelas duas junioras: "a juventude é um momento de descoberta, por isso gera dúvidas, que têm o seu ponto positivo pois muitas vezes a pessoa descobre a verdadeira vocação quando é provada numa questão como a da novela que é a parte afetiva", diz a Irmã Márcia, "vivemos em contato com várias pessoas no dia-a-dia e corremos o risco de ter alguém gostando da gente ou gostarmos de uma pessoa, aí é que o desafio é maior e é a hora de provar a fé e a vocação, Se tudo fosse fácil ninguém ia ter a certeza moral da sua vocação. Quando acontece uma situação dessa você até pode pensar

'humanamente eu faria', mas como você faz a opção não há como ceder. É como num casamento onde

às vezes há a tentação para o adultério, se a pessoa está comprometida com o matrimônio e consciente da opção que fez pelo parceiro, diz não. O sentimento existe mas existe o divino também, que concede a graça para deixar o ter, o poder e o prazer, aquilo que a mente prega como importante hoje em dia", conclui.

Recém saídas do aspirantado inicial as jovens Balbina Siqueira, Frances Saleme, Cecília Santos e Roseli dos Santos que participaram esta semana da Convivência Vocacional das Jovens Candidatas ao Propedêutico, na Chácara São José, optaram pela vida religiosa e estão, embora ainda passem por um estágio inicial, certas do que querem, sem temer as tentações como a menina da novela.

"A gente estar aqui não é uma fuga da realidade, no momento estou com o desejo de ser uma esposa de Cristo, se um dia não quiser faço outra opção", diz Balbina Siqueira. Embora tenha ido para a religião pela mesma causa da Celi da novela, Roseli dos Santos hoje descobriu que a verdadeira vontade era realmente essa: "descobri que a doença do meu pai tinha sido uma forma que Deus usou para despertar a minha vocação", conta. "Muitas pessoas acham que estamos aqui para trabalhar, que sofremos, dormimos no chão ou estamos aqui porque ficamos desiludidas com algo", diz Frances Saleme, "quando não é nada disso, é vocação mesmo".

"A Celi da novela não tem vocação, se tivesse não teria recaídas todas vezes que vê o menino. Ela acaba voltando para a Igreja só quando o pai fica doente de novo. Acha que está quebrando a promessa que fez", diz Cecília Santos.

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