165 trocam sábado pela Política
165 trocam sábados pela Política
Texto: Adriana Rota
Trocar o lazer e o descanso de cinco sábados seguidos, das 8h45 até o meio-dia, para ouvir sobre Política, deve ser considerado uma espécie de insanidade? O leitor pode julgar como quiser. O fato é que pelo menos 165 pessoas que participaram do Curso Intensivo de Administração Pública e Política - formação de vereador
- promovido pelas Faculdades Integradas de Bauru (FIB) e pelo Partido da Frente Liberal (PFL) consideraram a empreitada muito produtiva.
Eram homens e mulheres, de 15 a 71 anos, bauruenses, "afilhados" da cidade ou moradores da região, anônimos e velhos conhecidos, de diversos graus de escolaridade e profissões, antigos candidatos, "marinheiros de primeira viagem" ou, simplesmente, curiosos, filiados e não-filiados a partidos políticos, muitos ligados a associações amigos de bairro, que ouviram atentamente às nove palestras ministradas por especialistas de áreas diferentes ligadas à Administração Municipal e participaram questionando e sugerindo.
O curso foi ministrado, gratuitamente, no prédio do Liceu Universitário e seu idealizador, Dudu Ranieri, 58 anos, considerou o número de inscritos surpreendente: 197, dos quais 165 participaram de todas as palestras, sem contar os "curiosos" que esporadicamente visitavam o local. Esperava-se preencher apenas as 80 vagas oferecidas, mas até o espaço escolhido teve de ser mudado para comportar a demanda.
Ele afirmou que não tinha a pretensão de organizar um curso aprofundado, "nem de ensinar nada a ninguém, porque muita gente pode conhecer mais do que for dito aqui", mas que desse uma noção do que é a administração pública. "Já participei de muitas eleições, como candidato ou não, ao longo de 26 anos e os eleitores sempre cobravam um curso desse tipo. Procurei o Irineu Bastos e, numa troca de idéias, chegamos à conclusão sobre os assuntos a serem tratados e sua seqüência lógica. Os palestrantes foram escolhidos a dedo e, que fique claro, nenhum deles é, sequer, filiado do PFL", salientou. Dudu afirmou, ainda, que embora a intenção não fosse conseguir filiados, muitas pessoas o procuraram para saber mais sobre o partido. No último sábado, inclusive, 15 efetivaram suas filiações. "O que estamos fazendo é parte de nossa personalidade. O importante na Democracia é, justamente, a divergência de idéias", disse, no dia da abertura.
O presidente municipal do PFL afirmou não ter conhecimento de outros cursos como esse que tenham sido realizados em Bauru ou qualquer outro município. Por aqui não devem ocorrer tão cedo, pelo menos com o PFL e a FIB à frente, porque, segundo ele, é um compromisso que exige demais dos organizadores - foram apenas sete pessoas, incluindo, sua família e o coordenador Expedito Bonetti, para cuidar de tudo. "Não quero transformar o curso numa escola para políticos. Quero ser um colaborador, alguém que contribua com o município, o Estado e o País".
Apesar do cansaço, o saldo foi positivo. "Os participantes foram educados, espontâneos, responsáveis", elogiou. As honrarias foram recíprocas. Numa pesquisa entregue aos presentes para avaliação do evento, não houve críticas de espécie alguma e dois dos itens mais lembrados foram a isenção de idéias partidárias e a harmonia, num ambiente que congregava pessoas de tendências distintas.
A distribuição dos certificados de participação no curso ocorreu no último sábado. Todos os que tiveram pelo menos 75% de presença, ou seja, compareceram em três dos quatro sábados de junho, conquistaram o direito de recebê-lo, ao som dos aplausos dos colegas, desde o A até o Z. O encerramento contou com a entrega de um texto sobre a vida do ex-presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, que enfrentou uma seqüência de fracassos antes de chegar ao posto que ocupou e com a apresentação de um documentário sobre a história de Bauru, produzido pelo jornalista Luciano Dias Pires, 72 anos, que finalizou sugerindo uma visita dos presentes ao Instituto Antônio Eufrásio de Toledo, o qual dirige.
As palestras
A abertura do curso ficou a cargo da professora de Sociologia da FIB e doutoranda em Sociologia, Fabíola Pereira Soares, com o tema "Neoliberalismo e Globalização", que procurou inteirar os presentes sobre as rápidas modificações atravessadas pelo País e pelo mundo.
O advogado e professor do Liceu Noroeste e da FIB, ex-preso político cassado pelo Ato Institucional Cinco, Carlos Roberto Pitolli, falou sobre a "Revolução de 64 e o Socialismo". Já começou esclarecendo que, na sua opinião,
"o que ocorreu em 31 de março de 1964 não foi revolução e sim golpe, porque quem derruba presidente eleito democraticamente é golpista", referindo-se
à derrubada de João Goulart (Jango) presidente que assumiu após a renúncia de Jânio Quadros. Com relação ao Socialismo, Pitolli foi "curto e grosso": "Socialismo é a população ter acesso a núcleo de saúde o dia todo, os jovens na escola...", opinou.
Na semana seguinte, foi a vez de Roberto Purini, político conhecido por suas atuações como vereador e deputado estadual eleito em várias gestões. Seu tema foi
"Ética Política e Fidelidade Partidária", para o qual se sentiu "credenciado", devido à sua vivência e experiência. Repetidas vezes ele salientou a importância da persistência e da fé que, unidas à força do trabalho, considera imbatíveis. Diferenciou a política que praticamos todos os dias, pelo simples fato de vivermos em sociedade, da política partidária, a qual chama de "ciência, arte, técnica, estratégia e virtude do bem comum", cuja "busca do bem" é sua essência. O respeito ao eleitor e ao partido que elegeu o candidato também foram pontos fortes da palestra.
Paulo Lauris, advogado e consultor jurídico da Câmara Municipal, explicou sobre "A competência do vereador para apresentar projetos de lei", ou seja, o que o candidato eleito pode ou não fazer, sem "invadir" a esfera dos deputados estaduais ou federais. O vereador tem de analisar se aquilo que propõe é de interesse do município, do Estado ou do País. Além disso, não pode
"atravessar" outros poderes que não o Legislativo municipal, querendo atuar, por exemplo, em matérias específicas do prefeito (Poder Executivo). A atuação de Lauris na Câmara é orientá-lo nesse sentido, caso seja procurado para tal. Pode ocorrer de ser apresentado um projeto considerado inconstitucional, mas, segundo ele, é um direito do vereador tentar aprová-lo.
O organizador do curso, Dudu Ranieri, falou sobre o "Corpo a corpo na campanha política", assunto no qual tem experiência pelos seus 24 anos de atuação, seja como candidato ou "nos bastidores". Contou um pouco sobre os "casuísmos" que já presenciou na vida política, como prorrogação de mandatos para benefício dos que estavam no poder na ocasião. Explicou as diferenças entre as eleições majoritária e proporcional, relativas aos cargos de prefeitos, governadores, senadores e presidente, no primeiro caso, e aos deputados estaduais, federais e vereadores, no segundo. Salientou, ainda, a importância na escolha do partido, não só de acordo com os ideais, mas também com as possibilidades de eleger-se, coisa que depende, por exemplo, do número de vereadores já inscritos no partido. "Gastar sola de sapato" e contatar as pessoas próximas também são táticas eficientes nessa época em que
"ninguém mais sai de casa para ver comício". Angariar fundos para a campanha independentemente do partido é uma boa iniciativa, sem correr o risco de perder todo o patrimônio construído durante a vida e arriscar nela.
O publicitário Lupércio Zampieri orientou os presentes sobre a importância do marketing político numa campanha,
"ferramenta científica para conquistar maior eficiência de produto político daquele eleitorado". Segundo ele,
é preciso investigar o mercado em que vai atuar, a economia desse mercado, as forças políticas que atuam ali, utilizar todos os meios de comunicação possíveis
(inclusive internet), conhecer o perfil do eleitor, o que ele quer, explorar os próprios pontos fortes e esconder os fracos, investir nas cores, símbolos trejeitos, pensar estratégias de corpo-a-corpo, dentre outros. E o principal: estar sempre medindo os resultados, mesmo depois de eleito, para continuar agradando.
Para finalizar, no dia 26, a economista e funcionária administrativa da Prefeitura, Maria Inês Bergamaschi, explanou e apresentou transparências sobre "Impostos municipais e repartição tributária entre governos/Direito tributário e financeiro/Iniciativa Legislativa, autarquias, empresas públicas e fundações". Em linhas gerais, falou sobre todos os recursos que o município dispõe e sua destinação, muitos deles repassados parcialmente para o Estado ou a União.
A segunda palestra do dia ficou por conta de Irineu Bastos, advogado, doutor em administração e consultor administrativo financeiro da Câmara. "Orçamento Municipal de Bauru" foi o assunto. Um dos pontos altos foi o momento em que explicou a diferença entre dinheiro e dotação orçamentária: essa, é a possibilidade de gastar, acompanhada da correspondência financeira, ou seja, não é porque está no orçamento que deve ser gasto. Esse orçamento é feito anualmente e deve ser entregue à Câmara até setembro para aprovação ou não até novembro. De acordo com ele, "a Câmara tem sido sensata", porque representa um gasto de 4,86% para o município, sendo que, apenas para os salários dos vereadores, esse número poderia chegar a 5%.
Quem participou do curso?
Cento e catorze pessoas do curso responderam a uma enquete feita pela reportagem do JC para avaliar o perfil participantes. Desse total, apenas 19 eram mulheres, a maior parte delas na casa dos 40 anos. Os homens também estavam nessa faixa, em sua maioria, acompanhados de perto pelos jovens de 20 a 30.
O grau de escolaridade foi, predominantemente, o antigo segundo grau (atual ensino médio): 41 pessoas nessa situação. Em seguida vieram os cursos superiores completos (26). Do primeiro grau incompleto foram apenas dois e, concluído, nove (incluindo antigo ginasial). Os demais estavam entre superior e segundo grau incompleto ou cursando (nesse caso, ensino fundamental).
Dentre as profissões, os comerciantes ficaram à frente (15), seguidos pelos funcionários públicos e aposentados (14 cada um). Advogados, autônomos, professores e microempresários perfaziam metade desse número e nove não trabalham, mas são estudantes do ensino médio. Compareceram, também, um bancário, um assistente administrativo, um segurança, um perito criminal, um enfermeiro, um psicólogo, uma dona-de-casa, um historiador, um administrador de empresas, um médico, um gerente comercial, um propagandista, um cabeleireiro, um policial civil, dois auxiliares de enfermagem, três radialistas, dois escriturários, dois fotógrafos e dois jornalistas, dentre outros profissionais.
De todos os participantes, 89 nunca foram candidatos. Dezessete deles não pretendem ser, 19 cogitam a possibilidade para o futuro, 53 serão, com certeza, sendo que 20 já têm partido e a maioria, 33, ainda está em dúvida sobre a legenda. Dos 25 que já concorreram em eleições pelo PMDB, PFL, PL, PC do B, PSD, PSDB, PTB, PSL e PRN, apenas quatro vão sair por esses mesmos partidos, 14 estão indecisos e os demais não tentarão novamente.
Serviço
Quem não pôde buscar o certificado no sábado passado deve ir até a diretoria do Liceu Noroeste, que fica na avenida Rodrigues Alves, 8-35. O telefone para informações
é 224-1800.
Os interessados em sair candidatos nas próximas eleições devem procurar um partido até 30 de setembro, prazo máximo para filiação.