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Adriana Rota
| Tempo de leitura: 6 min

MST fala sobre Val de Palmas e as estratégias para o futuro

MST fala sobre Val de Palmas e as estratégias para o futuro

Texto: Adriana Rota

Adailton Manoel da Silva, 24 anos, membro de um dos acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Bauru, concedeu uma reportagem para o JC onde rebate as acusações feitas pelos proprietários da Fazenda Val de Palmas. Além disso, fala da permanência na fazenda, da possibilidade de ocorrerem saques e novos bloqueios como o feito na última quinta-feira na rodovia Bauru/Jaú. Veja os principais trechos da entrevista.

JC - O que você achou das declarações da família?

Silva - Nós queríamos esclarecer algumas coisas. Por exemplo, com relação ao gado. Nós matamos, na verdade, dez cabeças, mais ou menos uma semana e meia depois que chegamos na fazenda, porque o Incra não mandou as cestas básicas e nosso almoxarifado já estava quase totalmente vazio. Não podíamos morrer de fome. A família pediu para a gente não mexer em nada, nós falamos dessa situação e combinamos de voltar a conversar, mas eles não apareceram no dia marcado, uma quinta-feira. Ligamos para o Incra, e nada aconteceu. No outro dia veio a liminar de despejo.

JC - E a carne, foi armazenada? As pessoas que foram autuadas por furto e formação de quadrilha eram do MST?

Silva - Foi. Nós estocamos carne, inclusive no freezer do pessoal. Agora há pouco recebi um telefonema de Promissão em que o Governo falou que não vai dar cesta básica. Nós estamos vendo uma outra ação em Bauru. Dos que foram pegos, tem um pessoal que não é do MST, só tem parentes. Quatro ou cinco são. Eles não assumiram porque ficaram com medo de ir preso por falar que eram do acampamento.

JC - O que você diz sobre as denúncias de venda de carne para açougues?

Silva - Eu não acredito nessa história. É querer jogar a opinião pública contra a gente.

JC - Por falar nisso, você acha que ela é favorável ao que ocorreu?

Silva - Tem muita gente vindo aqui para saber o que realmente ocorreu. Se tiver algum lugar grande onde o MST possa contar o que aconteceu, a gente vai.

JC - Podem ocorrer saques?

Silva - Os sete acampamentos da região estão sem alimentos há quase dois meses e nós não descartamos a possibilidade. Ou serão saques na rodovia, ou na Conab ou em supermercados. Nós chamaremos também o pessoal dos bairros para se juntarem a nós.

JC - A família está sendo ameaçada?

Silva - Nunca houve ameaças, eles tinham livre acesso todo o tempo, conversavam com todo mundo. Agora, eles alegaram que sumiram peças valiosas. Como a imprensa está dando espaço, eles estão aproveitando para desmoralizar o movimento. Ela (Adriane) disse que matamos 150 cabeças de gado, não tem como. Os caseiros também tinham liberdade para fazer o que quisessem, as crianças continuaram indo para a escola. Participaram de festa com a gente, brincaram na quadrilha, comiam com a gente e chegamos até a dividir um pouco quando a gente ainda tinha. Quanto ao número do celular, por onde estaríamos fazendo ameaças, foi ela mesma (Adriane) que deu no dia 19 de junho. Nós nunca ameaçamos ninguém. Nossa luta é pela terra, não pela morte.

JC - Vocês chegaram a utilizar cômodos ou objetos da fazenda?

Silva - Usamos os quartos, mesas e cadeiras para fazermos a escola. Mas aquela casa estava "abandonadinha", nem lâmpada tinha. Falam que ela é histórica:

é histórica pelo ano mas, por que o município não toma conta se é mesmo patrimônio? Só virou histórico porque nós ocupamos e o povo ameaçou queimar. Pessoas do Fortunato Rocha Lima já iam lá para tirar madeiras e construir barracos no núcleo.

JC - Por que a Val de Palmas?

Silva - O Itesp foi um dos órgãos que apontou, dizendo que na região tinha área do Estado.

JC - E os cartórios? O serviço é pago?

Silva - Nós temos pessoas, simpatizantes do movimento, tanto em Bauru quanto em qualquer outro lugar, que têm facilidade de obter informações nos cartórios. Teve cartório que para soltar todo o aparato, ia custar um x de dinheiro que para nós não compensava. Algumas pessoas cobram quando entra em detalhes mais profundos. Mas na Val de Palmas foi mais fácil, porque todo mundo conhece e o Incra já tinha todos os dados nas mãos.

JC - O que caracteriza uma terra improdutiva? A Val de Palmas poderia ser enquadrada como tal?

Silva - Uma fazenda abandonada, sem fim social, sem reserva florestal, quantidade de bois incompatível com a área. O que tem ali é mais ou menos 50 metros por 20 onde está plantado feijão. Nem horta tem. A fazenda se enquadra nisso.

JC - E o acampamento do Horto Florestal de Aimorés? Vocês vão juntar-se a eles?

Silva - A idéia é trabalhar sempre com dois acampamentos na região. A ordem de reintegração foi dada para eles antes da nossa. A desocupação pode ocorrer a qualquer hora. A idéia era descer para a Val de Palmas e pressionar para conseguir o Horto. Ele sempre vai ser a "menina dos olhos" do movimennto, foi a primeira promessa. A gente tem idéia de ficar por dez a 15 dias e ir vistoriando algumas áreas na região, além de aguardar as vistorias da Santo Antônio e da Val de Palmas. O que a gente vai fazer depende do que o Incra vai passar para nós. Essa história de que vamos ocupar uma fazenda em Jaú é mentira. Nossa área é próxima a Bauru, tem 3,5 alqueires, a Val de Palmas é uma área próxima daqui, onde tem uma briga entre a Prefeitura e o Governo.

JC - Os incêndios foram estratégias do movimento?

Silva - Não era nossa idéia queimar os barracões. Isso ocorreu enquanto estávamos na reunião. Eu avalio como uma perda de controle, uma pane geral. A gente pretendia resistir na base do diálogo. A massa enraivecida, não tem quem segure.

JC - Isso significa que os responsáveis serão punidos?

Silva - Eu ainda não sei quem fez aquilo. Mas a gente vai fazer uma reunião para "colocar os pingos nos is". Dependendo da reação deles, poderão até ser expulsos. Eu não fujo da responsabilidade do que aconteceu, mas os culpados terão de assumir. Se pudesse, teria evitado, com certeza. Na maneira deles, isso não

é visto como ato de vandalismo, mas um meio de ajuda na negociação que estávamos fazendo.

JC - A família, você considera inocente ou culpada? E o movimento?

Silva - A família é as duas coisas ao mesmo tempo: vítima do Governo e culpada por não ter aparecido para conversar com a gente no dia combinado. O MST entrou como vítima, e forte. Eu acho que não temos culpa. Na verdade, foi tudo fruto da incompetência das pessoas que assumiram compromisso e não estão cumprindo. Tem outra coisa: se as lonas que foram prometidas não chegarem até domingo, vamos ocupar a rodovia outra vez.

Quem é o responsável pelos fatos que têm ocorrido?

Silva - Eu jogo a culpa de tudo isso no Governo, no Incra e no Itesp. O Governo está brincando de fazer reforma agrária. Há dois anos estamos sendo enganados. Mas não precisamos queimar para aparecermos na mídia. Para quem considera isso radical, eu digo que radical é o que estão fazendo com a gente. Tudo o que conseguimos foi na base da pressão. Se não fosse a morte de Lafaiete, não fosse a resistência na fazenda Santo Antônio, o Incra não ia fazer vistoria como prometeu 30 dias atrás. Se não fosse o fogo na Val de Palmas, não haveria compromisso para vistoria semana que vem.

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