Herrmann: PPS é a nova esquerda
Hermann: PPS é a nova esquerda
Texto: Josefa Cunha
A consolidação do Partido Popular Socialista em Bauru, advinda com a filiação do prefeito Nilson Costa e de membros do primeiro escalão municipal, surge como a terceira via no processo de sucessão do ano 2000. A análise é do deputado federal e presidente estadual do PPS, João Herrmann, que vê a recente composição local como a alternativa de esquerda para as próximas eleições. Para Herrmann, o ingresso de Nilson e equipe no partido em franca ascensão foi sentido pelos adversários como um vendaval. Em sua opinião, os cotadíssimos PDT e PSDB estavam até então acomodados e convictos da vitória em 2000, mas "já têm com quem se preocupar a partir de agora". A seguir, confira as impressões do deputado sobre o tema.
Jornal da Cidade - Diante das vias partidárias que já estão se apresentando para as eleições de 2000 em Bauru, como o senhor avalia o ingresso do prefeito Nilson Costa ao PPS no processo de sucessão municipal?
João Herrmann - Antes de responder, me permita fazer uma ilação da repercussão estadual e nacional a partir deste fato local. Cuidar do quintal de Bauru pode parecer a limpeza na casa, mas não é verdade. O processo de saneamento que começa agora em Bauru repercute no Estado e no país, porque nós encontramos aqui o caldo de cultura para a política que desejamos para o PPS. A filiação do Nilson e dos outros membros da administração foi como um vendaval que passou pela política local. Até então, a sensação que todos tinham é que na Prefeitura estava um sujeito tranqüilo, que assumiu em meio à turbulência, mas que não iria incomodar. A esquerda "aspada" (leia-se PDT e PSDB) estava tranqüila e convicta de que o poder já estava em suas mãos, mas eu creio que esse vento mudou por completo essa visão. Entendemos que Bauru passou agora a ter uma esquerda séria e conseqüente, a qual discorda profundamente do procedimento daquela que se dizia esquerda até então.
Jornal da Cidade - Onde se encontra a diferença entre a "esquerda aspada", como o senhor definiu, e o PPS?
Herrmann - Está no juntar das forças, que unirão jovens, empresários, intelectuais, em torno do resgate da proposta de centro-esquerda, trabalhando em cima do patrimônio moral e ético do município. Queremos melhoras, mas primamos pelo respeito à legalidade constitucional. Coletar assinaturas na tentativa de derrubar o presidente é golpismo da esquerda e nós não concordamos com isso. Como achar que as coisas serão melhores sem Fernando Henrique? Como pensar que o vice Marco Maciel pode ser melhor que FHC? A sociedade está descontente com a política federal, mas daí a forçar um impeachment
é um grande golpe. Por tudo isso, é que a sociedade que se opõe ao governo não se sente confortável na esquerda que se apresenta.
Jornal da Cidade - Ninguém admite, mas tudo leva a crer que o prefeito Nilson Costa será candidato à reeleição. Como o partido vai trabalhar essa imagem de esquerda após a passagem dele pelo PL e pelo palanque de Izzo Filho?
Herrmann - Bem, o Ciro Gomes não foi às ruas para combater a ditadura, nunca foi guerrilheiro ou comunista, mas é uma pessoa do novo tempo, inconformada com a política que se apresenta hoje. O Nilson, por sua vez, foi um sindicalista cassado, advogado dos trabalhadores, jornalista respeitado e combativo e foi perseguido pelo golpe. A democracia não algema, traz liberdade, e, nesse processo, ele preferiu rever uma postura ao perceber que estava caminhando em trilhas não desejadas. A grande virtude do homem dentro da democracia, aliás,
é voltar atrás quando se sente equivocado. O Nilson tinha opções partidárias muito mais fáceis, mas teve coragem de assumir outro compromisso ao ingressar no PPS. É isso que usaremos na campanha se ele for candidato.
Jornal da Cidade - O PPS está numa ascensão progressiva, mas não chegaria sozinho à vitória. Quais as alianças possíveis para as eleições?
Herrmann - O PL, o PC do B, o PSB, o PMDB, se quiser trilhar em outro caminho; o PSDB, se quiser partir para uma profissão de fé, e até o PDT, se voltasse atrás em seus projetos.
Jornal da Cidade - O senhor ampliou demais. Quais as composições realmente viáveis e possíveis?
Herrmann - Para nós, acho que com o PT, PC do B, PSB e PV. São Partidos que seguem no mesmo caminho que o PPS.
Jornal da Cidade - Numa composição, haveria chances de o PPS abrir mão de seu candidato?
Herrmann - Com a maior facilidade, se fosse em nome de um projeto. Ao lado de um projeto político social, no qual a comunidade possa ganhar com o desenvolvimento e não ser apartada dele, todas as pessoas que vierem serão bem-vindas. Não veria problemas se houvesse alguém ou um nome melhor cotado que o nosso candidato .
Jornal da Cidade - O PPS ainda não chegou à Câmara. Quais os projetos do partido para o Legislativo?
Herrmann - Recebi muitas críticas por não filiar vereadores, mas acontece que temos dois raios de atuação. Um, maior e mais extenso, trata das políticas administrativas; outro, num raio menor, trata das questões político-partidárias, onde as pessoas estarão efetivamente fazendo a política do PPS. É muito melhor ter um quadro de vereadores sobre o qual eu possa me debruçar do que ficar incorporando nomes com potencial eleitoral, mas que não têm o perfil do partido. Os convites e as escolhas, porém, estarão a cargo da futura direção municipal. Será fundamental, entretanto, compor uma bancada de vereadores que possa legitimar o poder Executivo a partir de 2001.
Jornal da Cidade - O PPS ampliou sua bancada na Assembléia Legislativa e praticamente já compõe a segunda maior força de oposição na Casa. Qual a postura em relação ao governo?
Herrmann - São duas coisas distintas estar no governo e contribuir com a política do governo. Nas minhas conversas com o Covas, tenho dito que quero, antes de tudo, saber quais os projetos político. Não tenho a pretensão de impor nada, mas, antes de ser governo, faço questão de discutir a política de concessões, pedagiária, agrícola e social. Esse tipo de discussão é necessária até para saber do nosso compromisso enquanto bancada. Se houver mudanças, certamente o PPS será parceiro, mas, por enquanto, estamos na estaca zero.
Jornal da Cidade - Quais os planos eleitorais para o Estado?
Herrmann - Antes de tudo, precisaremos passar no vestibular do ano 2000 e Bauru é importantíssimo nesse sentido. Para pleitear o governo, precisamos estar presentes em pelo menos 20% do Estado ou em 100 municípios. Temos clareza e humildade para reconhecer que hoje não possuímos nome para governador. Até poderemos ter em 2000, porque a política
é muito dinâmica, mas é cedo para falar sobre isso. Em 96, elegemos três prefeitos e hoje somos em 51.
Jornal da Cidade - Como anda a Reforma Política. O que deve passar?
Herrmann - Pelo tempo que temos, acredito que nenhuma mudança ocorrerá. Na verdade, essa reforma foi proposta para engessar os partidos e criar condições para o PSDB. Isso contrariou os partidos da base governista e os entendimentos ainda não ocorreram. Na própria oposição experimentamos defecções, pois o PT e o PDT defendiam a mudança. Nossa primeira ação foi minar a base do governo e trabalhar na esquerda a idéia de que teríamos que ser contra. Trata-se claramente de uma proposta anti-democrática. Por tudo isso, hoje ela está parada e acredito que nada mais pode ser feito até 30 de setembro. Apenas uma emenda, a que proíbe as coligações na proporcional, andou um pouco; o restante, como o fim da reeleição e a instituição da fidelidade partidária, está paralisado e fora de cogitação no momento. Com certeza, nada mudará para as eleições do ano 2000.