Erosão: uma ameaça à cidade
Erosão: uma ameaça à cidade
As ruas esburacadas, tanto as de aslfato quanto as de terra, têm causado transtornos à população, bem como as erosões. A Secretaria Municipal de Obras, que cuida dessa área, está trabalhando para reduzir os problemas de infra-estrutura da cidade, mas garante que não será possível terminar todas as obras até dezembro.
Muitos dos buracos surgidos nas ruas de Bauru na época das chuvas, no final de 1998 e início deste ano, ainda não foram tapados. Quando chove forte, as ruas dos bairros sem asfalto, além da alagadas, ganham verdadeiras crateras. Para acabar com o problema, a Secretaria Municipal de Obras, que cuida desse setor, deveria investir muito, mas como o orçamento sempre é "curto", executa apenas as obras que são mais prioritárias. De acordo com o titular da pasta, Leandro Dias Joaquim, a Secretaria trabalhará com obras que são consideradas urgentes pela Comissão de Defesa Civil (Comdec).
Um outro problema de Bauru são as erosões, que estão preocupando a Secretaria de Obras e a Comdec. Ao invés de serem recuperadas, recebem lixo, o que poderá contaminar o solo e também o lençol freático.
As obras de recuperação de ruas deveriam ser realizadas no período de "seca", mas nem sempre isso acontece. Há ruas, segundo os moradores, que estão há mais de dois anos esburacadas. Enquanto isso, a Secretaria de Obras executa as obras consideradas urgentes.
Muitas pessoas colaboram jogando entulho nas erosão, mas há aquelas que jogam lixo, material que, além de não tapar o buraco, pode contaminar o solo e o lençol freático, poluindo a água.
A Secretaria de Obras gasta cerca de R$ 150 mil por mês somente para a aquisição de materiais. Como o valor acaba sendo para maquinários quebrados, não sobra muito para as obras
Recuperação das ruas está atrasada
Os buracos das ruas da região central e de vários bairros de Bauru só serão tapados no final do ano. A Secretaria de Obras que fazer o trabalho antes das chuvas de verão, para que a cidade não se torne um caos novamente.
Algumas obras de recapeamento e operações tapa-buracos vem sendo realizadas, garante o titular da Secretaria de Obras, Leandro Dias Joaquim. No entanto, a prioridade é a recuperação das pistas em que o Departamento de Água e Esgoto (DAE) vem executando obras. A operação tapa-buracos está suspensa devido à falta de alguns materiais, explicou Joaquim.
Dos R$ 6 milhões do orçamento anual da Secretaria de Obras (equivalente a 5,8% do orçamento do município), apenas R$ 1,8 milhão é destinado à compra de materiais e equipamentos de recuperação das ruas. Neste ano, até agora, foram gastos R$ 900 mil com pequenas obras nessa área e para pagar dívidas deixadas pela gestão anterior.
Entre os materiais usados em obras de infra-estrutura estão os tubos e a massa asfáltica, além daqueles usados na área elétrica e na carpintaria. A verba destinada
à mão-de-obra e à compra de maquinários está inclusa nos 5,8% do orçamento do município destinados à Secretaria de Obras.
Se por um lado a falta de dinheiro torna lento o trabalho da Secretaria, por outro, os buracos deixam motoristas irritados, sobretudo quando são obrigados a consertar as suspensões ou trocar os amortecedores de seus carros.
Valdemir Chagas, 35 anos, autônomo, reclama da grande quantidade de buracos que existe no caminho para sua casa, na avenida Elias Miguel Maluf. "Toda vez que estou indo para casa tenho que desviar dos buracos existentes na avenida", afirma. Ele disse também que no centro da cidade há locais com vários buracos que atrapalhama passagem dos veículos.
Mas é na periferia, onde as ruas costumam demorar mais para serem consertadas, que os buracos incomodam mais. A situação
é pior para quem mora em ruas de terra. Alguns moradores afirmam que não vêem a máquina da Prefeitura trabalhando nas vias há mais de um ano.
Silvia Rodrigues, 52 anos, dona de casa, mora há 13 anos no Parque Jaraguá e disse que os problemas do bairro não são resolvidos. "Aqui é um lugar esquecido pela Prefeitura, os buracos são muitos e a poeira, às vezes, chega até ao nosso prato de comida", contesta.
Benedito Alves da Silva, 52 anos, também morador do Parque Jaraguá, conta que coloca tijolos e pedras para tapar os buracos das ruas. "Há seis anos que não é feito terraplenagem na rua. Há crianças que já caíram dentro dos buracos e ficaram machucadas", relata. Ele vai de bicicleta para o trabalho todos os dias e teme cair em algum buraco, principalmente à noite ou quando chove.
De acordo com o presidente da Associação de Moradores do Parque Santa Edwirges, Vivaldo Martins Pereira, há várias alamedas no bairro que não são recuperadas com a máquina da Prefeitura há mais de dois anos. "Sem a máquina passar aqui, os transtornos aos moradores são maiores, especialmente quando chove", afirma.
Com todas as reclamações, Leandro Joaquim se defende. Ele disse que já foram feitas várias obras desde que assumiu a pasta, principalmente aqueles onde havia risco de vida. Ele até comparou a cidade a uma guerra: "Bauru estava pior que Kosovo em guerra quando assumimos o cargo. Estava em situação crítica e não sabíamos para que lado correr", explicou.
Além da falta de verba da Secretaria de Obras, Joaquim ressaltou que falta operários. "Tínhamos 13 eletricistas, hoje temos três. E não há concurso público, o que nos força a sobrecarregar os funcionários que temos", desabafa.
A Secretaria de Obras, no entanto, vai receber R$ 300 mil extras, dinheiro do Fundo de Habitação dos Municipiários
(FHM), que foi extinto. Esse dinheiro será utilizado, de acordo com Joaquim, para a recuperação de equipamentos e em galerias de água pluvial, essenciais para evitar mais erosões.
Somente seis obras ficam prontas até dezembro
A Secretaria de Obras fez ou está fazendo 50% das obras consideradas de emergência pela Comissão de Defesa Civil (Comdec) no começo do ano. A porcentagem equivale a 12 obras de grande porte. Para o trabalho foi gasto um total de R$ 9,8 milhões, valor maior do que a Secretaria previa investir, incluindo mão-de-obra e material.
Para conseguir esse dinheiro, Leandro Dias Joaquim, titular da pasta, ressalta que a Secretaria teve que firmar parcerias com empresas, além de procurar outras soluções para a execução das obras. Leandro Joaquim é realista: "Na situação em que se encontra a cidade, em termos de obras, é muito precária. Não conseguiremos conclui-las até dezembro".
Fernanda Fernandes da Silva, 24 anos, manicure, conta que no Parque Santa Edwirges, onde mora, mesmo na considerada época de
"seca" é difícil andar a pé ou de carro e a situação tende a se agravar. "Quando chove, ninguém consegue sair às ruas por causa do barro, além das valetas, que surgem para todos os lados", salienta.
A Secretaria de Obras também fez parceria com o Departamento de Água e Esgoto (DAE). Um exemplo desse trabalho em conjunto
é a recuperação da avenida Comendador José da Silva Martha, por ser necessária a proteção de uma adutora. Segundo Joaquim, a parceria é muito importante, principalmente porque o DAE fornece a mão-de-obra, o material e a tecnologia a ser usada.
As 12 obras que estão em execução são na avenida Comendador José da Silva Martha, na avenida Elias Miguel Maluf, no Parque dos Sabiás, no Núcleo Pernambuco, no Parque Viaduto, na rua Moacir Teixeira, na Vila Ipiranga, no Jardim Jussara, no Ferradura Mirim, na Pousada da Esperança, no Parque Roosevelt, na avenida Getúlio Vargas e na Vila Aviação.
As quatro primeiras já foram concluídas, mesmo sem a Secretaria ter o dinheiro. Para alguns, a não-realização da obra ou sua demora representam muitos transtornos. Natal César de Oliveira, 24 anos, autônomo, mora próximo à avenida Cruzeiro do Sul e não agüenta mais o pó e o barulho das máquinas. "Eu tenho dois filhos pequenos e, às vezes, o barulho das máquinas os assusta", relata.
Bauru é considerada "capital" da erosão
A erosão é um problema que exige investimento alto para ser resolvido. Para se ter a dimesão do problema, Bauru tem 30 erosões, a sua maioria na zona urbana
Considerada a "capital nacional da erosão urbana", no mapa de erosões do Estado de São Paulo, Bauru precisa de milhares de caminhões de terra e quilômetros de galerias pluviais para deixar esse título negativo. Ao todo, o município tem mais de 30 erosões, 16 somente na área urbana. Recuperar as áreas erodidas custa muito caro, mas é uma obra que precisa ser feita.
Segundo o coordenador da Comissão de Defesa Civil (Comdec) Álvaro de Brito, Bauru apresenta de médio a alto teor de risco à população, no mapa de erosões. "Temos que direcionar muito bem as galerias pluviais, que deverão ser de grande porte, que fazer piscinas para escoar a água de chuva, de forma que não fiquem na área urbana e tragam mais problemas", explica.
A questão do assoreamento dos rios do município também preocupa - já chega até a cidade de Pederneiras -, e vem sendo o grande desafio para a Secretaria de Obras. Terra e areia, em grandes volumes, escorrem das partes altas para as partes mais baixas da cidade.
A maior e mais preocupante das erosões fica entre a Pousada da Esperança I e II e o Núcleo Gasparini. A erosão tem 1.300 metros de comprimento e até 20 metros de profundidade em alguns pontos, quase um cannyon, de acordo com a última medição, realizada em 1997. As três maiores erosões estão em pontos extremos: Pousada da Esperança, Parque Jaraguá, Jardim Jussara e Núleo Bauru 16, essa última já com sete metros de profundidade.
Para aterrar a erosão da Pousada da Esperança, de acordo com a Defesa Civil, são necessários de 50 a 65 mil caminhões de terra. Tendo em vista que no Jardim Marilú precisam ser levados 12 mil caminhões de terra, e só foram feitas sete mil viagens até agora, pode-se prever que a Pousada precisará receber cinco vezes mais terra que o Marilú.
Brito acredita que para resolver definitivamente o problema da erosão em toda a cidade seria preciso de R$ 12 a R$ 15 milhões, investidos em galerias e outros equipamentos. E confirma: "Se a Prefeitura tivesse apoio dos governos federal e estadual, gastaria somente de R$ 4 a R$ 5 milhões nessas obras".
O titular da Secretaria de Obras, Leandro Dias Joaquim, explica que cada erosão tem sua particularidade e que está fazendo levantamento do problema na cidade.
"Em cada local em que há erosão é feito um tipo de trabalho, devido à dimensão de cada uma", esclarece.
Como a erosão surge quando a área não tem uma captação de água adequada, faz-se necessária a colocação de galerias pluviais. Joaquim frisa bem: "A água da chuva, onde não tem galeria, forma grandes enxurradas e acaba abrindo buracos, que aumentam a cada chuva", disse.
Enquanto a Secretaria de Obras começa a fazer alguns planos para combater a erosão, moradores vão entupindo os buracos com entulhos. Aqueles menos consciente jogam lixo nos buracos, o que é um perigo de contaminação do solo e da água.
Fabrício Barbosa de Figueiredo, 18 anos, morador da Vila São Paulo, disse que sempre ajuda seus pais a jogar entulho na erosão próxima de sua casa. E também revela: "Minha mãe tem medo da erosão, que pode aumentar, chegar até nossa casa e derrubá-la". Para remediar, plantaram grama ao redor da casa, embora saibam que não é suficiente.
Mas não é só a família de Figueiredo que tem medo. A de Clégina Mara Pereira, 27 anos, moradora do Jardim Marilú, também sofre quando chove ou mesmo quando chuvisca. "Nós temos muito receio porque a erosão está a menos de um metro de nossa casa", desabafa.
O primeiro cômodo da casa foi desocupado e não voltará a ser usado tão cedo porque a erosão está muito próxima e ainda não foi aterrada. Clégina está indignada: "a pista que fica aqui do lado de casa (Elias Miguel Maluf) já foi consertada, mas faz duas semanas que ninguém vem terminar o trabalho desta erosão. Se vier chuva, estamos todos perdidos", reclamou.
Erosão é histórica em Bauru
Quem imaginaria que onde foi construída a avenida Nações Unidas já existiu uma erosão? E que no local onde hoje se encontra a Praça do Líbano era um enorme buraco? De acordo com o historiador Gabriel Pelegrina, nestes e muitos outros lugares, há mais de 50 anos, existiam grandes buracos, com mais de três metros de profundidade.
O vale do Rio das Flores (onde é a Nações Unidas), na época, precisou de quase 60 caminhões de terra para cabar com a erosão, segundo o historiador. Ele contou que muitas pessoas contribuíram para o aterramento do buraco.
Pelegrina explicou que as erosões sempre existiram em Bauru, principalmente por causa da terra ser muito arenosa. "Vários bairros eram grandes buracos, como a Vila Falcão e a Vila Seabra. A cidade toda tinha diversas áreas de erosão", lembra.
Quem hoje vê o Hospital de Reabilitação das Anomalias Crânio-Faciais (Centrinho), localizado na Vila Universitária, não imagina que aquela região, há mais de 51 anos, fazia parte de uma grande erosão. Desde que a cidade foi fundada, existem erosões, mas para resolver definitivamente o problema é necessária uma infra-estrutura que realmente funcione.
Solo arenoso propicia erosão na cidade
O solo de Bauru é arenoso e tem duas substâncias características: o óxido de ferro e o óxido de alumínio, que deixam a terra mais frágil quando entra em contato com a água. Há muitos locais de erosão em que as pessoas jogam lixo, o que contamina o solo e a água
O solo de Bauru é predominantemente arenoso e, devido a essa característica, a cidade tem grandes erosões. Segundo o engenheiro civil Norival Agnelli, doutor em Geotecnia, as erosões da cidade surgiram devido a dois agentes: o físico (as correntezas formadas pela chuva) e o químico (substâncias cimentantes, como o óxido de ferro e o óxido de alumínio).
"Essas substâncias compõem o solo e, com a penetração da água, ocorre um colapso, uma "quebra" na estrutura do solo", explica. O solo pode ter sua estrutura "rompida" quando entra em contato com água de chuva ou de esgoto doméstico ou água tratada (quando há vazamentos).
As substâncias cimentantes proporcionam ao solo um certo nível de resistência, mas não tão firme. Quando chove, a água dissolve essas substâncias e o solo perde consistência, desfazendo sua estrutura natural, ocorrendo aí a erosão.
De acordo com Agnelli, o solo do município é bastante
ácido (tem pH de quatro a cinco) e, se entrar em contato com o esgoto doméstico, que é alcalino (pH de nove a 12), ocorre uma reação química brutal. Os pH's são distintos e quando se confrontram, resultam no aumento da erosão.
Lixo em erosão contamina água
O lixo é um fator que degrada o meio ambiente e, se jogado em erosões, compromete a qualidade de vida. A prática de se jogar lixo em grandes buracos pode ocasionar sérios problemas para a vida do ser humano.
O lixo pode contaminar tanto o solo quanto a água. A maior parte dos poluentes reage com o vapor de água na atmosfera e volta à superfície sob a forma de chuvas, contaminando, pela absorção do solo, os lençóis subterrâneos.
Em Bauru, são lançados, diariamente, cerca de 10 bilhões de litros de esgoto que poluem rios, lagos, lençóis subterrâneos e áreas de mananciais. Por sua vez, o lixão provoca intensa proliferação de moscas e outros insetos, e neste meio, surge um líquido resultado da decomposição do lixo e que polui o solo e os lençóis d'água.
De acordo com o coordenador da Comissão de Defesa Civil
(Comdec), Álvaro de Brito, são vários tipos de lixos inorgânicos jogados nas erosões, de impossível decomposição, como pilhas, restos de equipamentos eletrônicos e materiais domésticos, como bombril.
Sérgio Constantino, 29 anos, morador da Pousada da Esperança I, relata que já viu muitas pessoas jogarem lixo em erosões. Ele mora próximo a maior erosão da cidade e já fez vários apelos à Prefeitura para aterrar a área.
"O mau cheiro chega até nossa casa, imagine no solo. Aguardamos pelo aterro há muito tempo", disse.
A população precisa se conscientizar para não contaminar o solo e a água potável. E deve lembrar que entulho não é sinônimo de lixo, mas, sim tijolo, pedregulhos, areia, argamassa, materiais que não interferem na qualidade do solo e do lençol freático.