Ferro-velho e sucata mantêm mercado, entre trancos e barrancos
Ferro-velho e sucata mantêm mercado, entre trancos e barrancos
Texto: Márcia Buzalaf
Aquilo que ninguém mais acha que tem utilidade é a principal matéria-prima de sucateiros e donos de ferro velho. Eles transformam o que pode ser considerado lixo ou inutilizável em produtos comerciais e raridades. Pegam uma Belina 72 parcialmente destruída e vendem suas peças para quem precisa e não mais as encontra no mercado. Já os ferros velhos mantém em atividade um ventilador do início do século trabalhando. Entre governos e planos econômicos distintos, o velho permanece intacto na atividade comercial local.
"Quando a ferrugem entra na veia, não tem jeito, não sai mais", afirma o proprietário do Novo Ferro Velho Bauru, Benildo dos Santos. A tradição de gostar do antigo veio do pai e está sendo transmitido para a filha, Gláucia dos Santos, 28 anos. Ambos dizem que, apesar da procura pelos produtos antigos estar realmente baixa, não há como mudar de ramo e abandonar toda aquela história.
Entre os produtos preciosos do ferro-velho, estão a primeira
"balançinha" de pesar bebê da Beneficência Portuguesa, o lampião mais antigo da cidade (a primeira iluminação que chegou a Bauru) e uma calculadora da Suíça, de 1913.
O comerciante tem 38 anos no mercado, o que significa que ele viu muitos planos econômicos e passou por todos eles. "Ah, o Sarney, que saudades que tenho da época do Sarney", diz. Com bastante saudosismo, Santos afirma que, de 79 na 85, aproximadamente, foi a melhor fase que o ferro-velho passou. "No período todo que vocês ficaram aqui, ninguém entrou para comprar nada, não é?", diz Santos, em relação ao período em que a reportagem ficou no seu estabelecimento comercial.
Mesmo assim, pela experiência e sabedoria, Santos é esperançoso e acredita que a situação vá melhorar. "Sou teimoso, vou continuar aqui", garante. O caminho ele ainda não descobriu, mas Santos reafirma que não vai se desfazer dos produtos preciosos que têm, guarda e conserva.
Os itens comerciais que ele vende são a salvação da lavoura. Tambores, tubos, motores elétricos, vigas, chapas, cantoneiras... A movimentação destes produtos
é maior, mas o lucro que se obtém com eles é pequeno demais. Santos diz que, o que não é vendido no ferro-velho, é enviado para a siderúrgica. "A gente compra por R$ 0,03 e vende por R$ 0,05. O lucro é pequeno demais", afirma.
Antes, Santos costumava ir até a residência das pessoas que pediam para o ferro-velho buscar peças antigas. "Já compramos fogão por R$ 3,00, mas hoje em dia não compensa mais nem ir buscar", justifica. Atualmente, ele tem oito funcionários.
Entre os clientes comerciais que Santos tem atualmente, estão a Tilibra, a K-Refresco, a ECCB e a Prefeitura Municipal. Mas a clientela do comerciante já foi maior, e inclui empresas que já fecharam, como a Promog e a Laredo.
O grande problema é que os pequenos consumidores do ferro-velho, algumas vezes, não pagam corretamente. A inadimplência, conta Gláucia, é muito forte nos estabelecimentos, principalmente pelos baixos preços que são cobrados os produtos. "Tem cliente antigo que não consegue pagar", conta. "E o que a gente vai fazer? Deixar de vender para eles?", questiona ela.
Sucatão
Dono da sucata mais antiga da cidade, Paulo César Monteiro, 42 anos, também reclama da situação econômica, que, em partes também beneficia seu negócio. Com 22 anos, o Sucatão Peças Novas e Usadas tem sete funcionários que não param um minuto sequer. "É uma opção mais barata para quem precisa de alguma peça", explica. O Sucatão costuma comprar carros acidentados e veículos que vão para leilão.
Aproximadamente 90% da parte mecânica e 70% das peças são aproveitadas, entre as originais e as recondicionadas. Além disso, a sucata fornece garantia pelas peças que comercializa. "Só pegamos carro que tem documentação em dia", afirma Monteiro. Ele afirma que já chegou a comprar uma Brasília por R$ 7,00.
Ele diz que o setor de sucatas constantemente é confundido com o desmanche de carro feito ilegalmente. "Essa é a concorrência desleal que enfrentamos. O cara rouba o carro, desmonta e vende as peças. Ele não tem firma, não tem documento, não tem nota. Nós, que temos um trabalho aqui, saímos perdendo", explica.
O preço, segundo ele, fica em torno de 50% do valor normal, mas pode ser ainda mais baixo. Por isso, o aumento da procura por sucatas em época de crise econômica. "Em relação à concessionária, então, não tem nem comparação, completa Monteiro.
A peça mais barata que o Sucatão tem para vender custa R$ 0,50 e, a mais cara, é o motor do carro, vendido por R$ 1,2 mil em média. A lista de clientes que a sucata mantém é ampla, mas se concentra em oficinas mecânicas e funilarias. "Os outros clientes são particulares e nós colocamos a peça para ele", conta Monteiro.
Sucata-Nipo
Há mais de 25 anos no mercado, Toshimitu Osajina, 48 anos, começou a mexer com sucata. Vindo de uma família de agricultores simples, do Interior. Hoje em dia, ele tem o único ferro-velho a mexer com nylon, madeira, bronze e latão.
"Os outros que têm esse material a maioria é tudo clandestino", afirma Toshi, como é conhecido.
Outra diferença é que o Ferro-Velho Brás-Nipo também exporta. "Exportamos latinhas para um grupo argentino que se estabeleceu no Japão", conta.
Seu ferro-velho trabalha basicamente com latinha, jornal e papelão. Seu fornecedores são grandes, e incluem a Brahma, a Esso, as três fábricas de bateria, a Caixa Econômica Federal, a Ceval Alimentos entre outros. Só a Brahma fornece 50% das 12 toneladas de latinhas por mês que são prensadas pelo ferro-velho.
Antes, o varejo chegava a representar 50% das vendas. Hoje, se contenta com 5%. É esta dependência de empresas que deixou mais complicada a situação econômica dos ferros-velhos. Com a crise no setor comercial, o lucro cai. Compra-se pouco e vende-se também pouco.
Hoje em dia, sua movimentação é concentrada no jornal e no papelão, que são vendidos para fábricas de reciclagem de papel e para fábricas que produzem bandejas de ovos. No total, são 150 toneladas de sucata por mês e 100 toneladas de jornal e papelão. Entre as todas as peças, latas, cadeiras velhas, um item diferente. "É, os computadores viraram sucata...", anuncia Toshi. E que péssima sucata. Segundo o comerciante, como todas a maioria das peças são de plástico, seus derivados são muito baratos.
O bronze é a jóia rara do ferro-velho. Segundo Toshi, o preço do quilo do metal varia entre R$ 10,00 e R$ 25,00, mas pode chegar a R$ 300,00. Geralmente, as multinacionais são as que compram a peça, usada em maquinário que não demanda lubrificação. "Com essa peça, ele diz, precisa de pouca lubrificação", afirma. Uma peça de grande de bronze pode sair por mais de R$ 5 mil.
Assim como os outros sucateiros e donos de ferro-velho, Toshi reclama da clandestinidade. A enorme quantidade de impostos que uma pequena empresa tem que arcar é covardia perto do lucro dos sucateiros que trabalham em um mercado paralelo.
Pelo menos um custo empresarial os sucateiros e ferros-velhos não tem que arcar. Em nenhuma destas empresas é possível fazer controle de estoque. "Nunca se sabe quanto se tem", finaliza Toshi.