Vencendo pelo esporte
Vencendo pelo esporte
Texto: Gustavo Cândido
Aos 19 anos, em 1992, a bauruense Ester Ramos Pereira esteve em Barcelona, na Espanha, para representar o Brasil nas Paraolimpíadas. Voltou com três medalhas, uma de cada tipo: ouro, prata e bronze. Portadora de necessidades especiais, Ester que parou de correr antes de disputar sua segunda Olimpíada, é usuária da Sorri, onde hoje executa o trabalho como costureira. Sua aventura no mundo do esporte é um exemplo para todas as pessoas, que têm um sonho mas desistem no meio do caminho.
"É preciso ter muita força de vontade para vencer", ensina Ester, na pequena entrevista que concedeu ao Jornal da Cidade esta semana.
Jornal da Cidade - Você praticava atletismo muito antes da Olimpíada?
Ester Ramos Pereira - Já. Eu treinava na escola, depois fui para o Noroeste e voltei para a escola. Tinha um professor que me ajudava e começou a me treinar sério
JC - Você competiu em muitos lugares?
Ester - Em bastante cidades do Brasil, não só aqui em São Paulo, no Espírito Santo, Paraná, em várias cidades
JC - Você venceu muitas provas?
Ester - Ganhei 39 medalhas no total. Em Barcelona fiquei em primeira nos 100 metros rasos, segunda nos 200 e terceira no salto em distância
JC - Com quem você foi para Barcelona?
Ester - Com o professor. Ficamos em um hotel junto com o resto do pessoal que ia competir. Nas Paraolimpíadas de Atlanta eu deveria ter ido mas não hora não deu certo e parei de competir
JC - Você nunca tinha saído do Brasil, como foi ir para uma cidade tão grande e famosa como Barcelona?
Ester - Foi legal, lá a gente saia à noite, tudo sempre acompanhada porque a gente não falava espanhol, passeamos, ficamos mais de 15 dias, foi muito gostoso. A cidade
é muito bonita
JC - Por que você foi para a Olimpíada, você estava ganhando tudo por aqui?
Ester - Acho que sim, meu professor me colocou até o apelido de "Ventania", porque eu corria muito. Ele falava que eu não corria, voava. E eu queria ir para lá
JC - Como foi subir no pódio mais lato do que todo mundo?
Ester - Foi muito emocionante, ouvir o hino...
JC - Você parou de competir por que?
Ester - Antes de eu começar a correr eu não gostava de atletismo, comecei a participar e comecei a gostar mas depois o meu técnico ficou doente e eu fiquei sem ter com quer treinar. Ele voltou depois disputei mas uma prova, me machuquei e quis parar
JC - Como foi para você esse contato com o esporte?
Ester - Foi muito bom, enquanto corria só me dedicava a isso e acho que consegui ir bem
JC - Você acha importante que as pessoas se dediquem a algum esporte?
Ester - Sim, é muito importante para a saúde das pessoas
JC - O que você diria para as pessoas que querem participar das paraolimpíadas?
Ester - Eu diria para se esforçarem bastante e nunca desistirem. É preciso muita força de vontade sempre para conseguir qualquer coisa
História das Paraolimpíadas
O surgimento do esporte no mundo
O surgimento do esporte e desenvolvimento do desporto entre pessoas portadoras de deficiência se deu de forma extremamente lenta. Registros apontam a Alemanha como o primeiro local de prática desportiva organizada - em 1918, um grupo de deficientes, lesionados na Primeira Grande Guerra, reúne-se para praticar esporte. Mais tarde, em 1932, na Inglaterra, fundou-se a Associação de Jogadores de Golfe de um só Braço. Nenhuma dessas iniciativas teve continuidade.
Quase 25 anos mais tarde, em 1944, o neurologista e neurocirurgião alemão Ludwing Guttman dá início ao que se tornaria o desencadeador da prática desportiva entre os portadores de deficiência. Ele cria na Inglaterra, em Aylesbury, o Hospital de Stoke Mandeville, com um Centro de Tratamento de Lesionados Medulares. Ali, Dr.Gutmann passaria a utilizar técnicas revolucionárias e científicas, adaptando o esporte aos conceitos de reabilitação física e emocional.
O neurologista acreditava que o esporte ajudava o deficiente a sair da depressão e a eleger novo objetivo de vida. A prática desportiva seria fundamental para a integração social. Gutmann dizia: "A causa mais nobre do desporto para portadores de deficiência é a de ajudar-lhes a restaurar a conexão com o mundo que os rodeia".
Nesta mesma época, nos Estados Unidos, um grupo de soldados que participara da Segunda Guerra cria a equipe de basquete "Rodas Voadoras", que percorre o país apresentando-se e chamando a atenção da sociedade para a condição do portador de deficiência. Este movimento viria fundamentar o Programa de Reabilitação Desportiva do Governo Americano. Entre 1946 e 1948, Benjamin Lipton, diretor do Joseph Bulova School of Watchmaking, e Timothy Nugent, diretor de Reabilitação de Estudantes da Universidade de Illinois, se unem para organizar, treinar e promover equipes de basquete em cadeira de rodas.
Ainda em 48, na Inglaterra, acontece os XIV Jogos Olímpicos de Verão e, aproveitando-se do evento, Gutmann cria os Jogos Desportivos de Stoke Mandeville para atletas portadores de deficiência. A participação é modesta: 14 homens e duas mulheres das Forças Armadas Britânicas competem em arco e flecha. Estava selado o futuro dos jogos. Em 52, os Jogos de Mandeville ganham projeção e participação de 130 atletas ingleses e holandeses. Os organizadores decidem tornar a competição anual.
Em 58, quando a Itália preparava-se para sediar as XVII Olimpíadas de Verão, o diretor do centro de Lesionados Medulares de Ostia, Antônio Maglia, propõe que os Jogos Mundiais de Stoque Mandeville de 1960 se realizem em Roma, após as Olimpíadas. De acordo com Maglia, seria uma forma de mostrar que os portadores de deficiência poderiam também ter sua Olimpíada. Com o apoio do Comitê Olímpico Italiano, cerca de 240 atletas portadores de deficiência, de 23 países, participam da competição, que repercute positivamente em todo o mundo.
Seria a primeira Paraolimpíada - e já com esse nome. O sucesso dos Jogos fortalece o esporte e funda-se a Federação Mundial de Veteranos, que irá discutir regras e normas técnicas para as competições. Os próximos Jogos Paraolímpicos se realizaram em Tóquio, por ocasião da Olimpíada, em 1964, com cerca de 390 participantes de 22 países. Em 68 a competição, que seria no México, deixa de se realizar no mesmo local das Olimpíadas por problemas de organização do comitê mexicano e vai parar em Israel. Desta vez são 1100 atletas de 29 países participando dos III. Jogos Paraolímpicos.
Em 72, os jogos mundiais ocorrem na Alemanha mas em cidade diferente da sede da Olimpíada, ainda por problemas de organização. A Paraolimpíada reúne cerca de 1400 desportistas de 44 nações. Este seria o primeiro ano de participação brasileira.
O esporte no Brasil
Desde que a prática desportiva entre portadores de deficiência chegou ao nosso país, pelas mãos do paraplégico Robson Sampaio de Almeida e do atleta Sérgio Del Grande, no final dos anos 50, o Brasil fez-se representar nas grandes competições internacionais.
Participamos dos Jogos Pan-Americanos de 1971 (Jamaica), 1973
(Peru), 1975 (México), 1978 (Brasil), 1982 (Canadá), 1986 (Porto Rico) e 1990 (Venezuela). Nos Jogos Paraolímpicos, estivemos pela primeira vez em 1972, na Alemanha. No Canadá
(1976), o Brasil consegue suas primeiras medalhas paraolímpicas: os atletas Robson Sampaio de Almeida e Luis Carlos "Curtinho" conquistam duas medalhas de prata na bocha. Na Holanda (1980), a delegação brasileira foi representada apenas pelo time de basquete masculino em cadeira de rodas e um nadador, sem medalha.
Em 1984, os Jogos foram divididos em duas sedes: Aylesbury (Inglaterra) e Nova Iorque (EUA). Na Inglaterra, participaram somente os atletas em cadeira de rodas, enquanto que nos EUA os jogos foram destinados aos atletas paralisados cerebrais, amputados e cegos. O Brasil trouxe 21 medalhas da Inglaterra. Nos EUA, o desporto dos cegos ganha sua primeira medalha, através da atleta Anaelise, nos 100 metros rasos. De Seul (1988), trouxemos 27 medalhas (4 de ouro, 10 de prata e 13 de bronze), classificando-nos em 25º lugar entre 65 países. Em Barcelona (1992), conquistamos sete (3 de ouro e 4 de bronze) e ficamos em 30º lugar entre os 92 participantes.