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Cleptomania

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Cleptomania

Cleptomania

Texto: Gustavo Cândido

Taças de restaurantes, talheres, cinzeiros, cobertores de avião, canetas, batons. Estes pequenos objetos estão, com certeza, entre os favoritos dos cleptomaníacos, pessoas que têm por hábito furtar objetos, simplesmente por furtar. Mais comum do que se imagina, a cleptomania na verdade

é uma doença, registrada no Código Internacional de Doenças que, se não for tratada, pode se tornar um vício tão forte quanto o alcoolismo ou o uso de drogas e transformar o seu portador em um criminoso.

Todos os dias nos supermercados e lojas de departamentos, pelo menos uma dezena de pessoas é pega tentando levar alguma mercadoria da loja sem pagar. Ao contrário do que se pode imaginar, estas pessoas, não são, em sua maioria, ladras, que vão até o estabelecimento com o objetivo de furtar, nem são necessariamente de classes sociais baixas ou carentes. São pessoas de classe média, que levam os objetos quase que "por acaso", pelo simples fato deles estarem lá, "dando sopa". Este é um dos sintomas mais claros da cleptomania.

A palavra, de origem grega (klépto + manía), que literalmente significa loucura por roubar, dá nome à doença que se caracteriza pela falha repetida em conter o impulso de roubar objetos alheios que não são para uso pessoal ou para revenda. De acordo com a psicóloga Elaine Olmo, a cleptomania é um comportamento encontrado em em pessoas que não conseguiram afeição o suficiente, sofrem de alguma carência e inconscientemente se dão o direito de furtar algo para suprir essa necessidade.

"Por estarem presos ao sentimento de culpa, acabam iniciando um círculo vicioso, pois na tentativa de aliviarem e provarem para eles mesmos que podem pegar objetos sem serem punidos, repetem o comportamento, furtando cada vez mais. É comum acontecer a repetição de objetos e locais de furto", explica a psicóloga.

O psicoterapeuta José Luis Cremonesi afirma que para o cleptomaníaco não existe a questão do valor do objeto e sim a manifestação da inveja de possuir algo que não é seu. "Esse ato é um símbolo de algo não vai bem dentro da própria pessoa, que pega o objeto não pela sua condição financeira mas só pelo fato de apenas tê-lo", diz. Cremonesi destaca que o ato também deve ser solitário para ser caracterizado como cleptomania, "é um ato sem cúmplice que traz satisfação, expressa ansiedade e culpa, o que não impede a sua repetição".

Aventura perigosa

Entre os jovens, onde é bastante comum, a cleptomania assume a máscara de aventura, quando a pessoa acredita que é mais esperta do qualquer segurança o sistema de vigilância de qualquer loja e entra com o objetivo de provar isso, levando uma mercadoria que depois vá até jogar fora ou deixar de lado. Cremonesi avalia essa atitude como uma forma errada de conquistar as coisas, típica de pessoas que não conseguiram instigar dentro dela, recursos para conseguir as coisas como todo mundo, sem roubar. "Essa busca pela emoção do roubo é perigosa, pois pode levar a pessoa ao mundo do crime", diz.

O psicoterapeuta ressalta que a busca por essa prova de superioridade distorcida também pode ter origem em uma educação repressora que faz com que a pessoa queira desafiar a autoridade

(vista como o dono do objeto). "Não deixa de ser uma forma de rebeldia e também de chamar a atenção para si próprio, buscando uma fama pelo aspecto negativo".

Na infância

Em classes sociais menos privilegiadas existem casos de pais que ensinam os filhos a furtarem objetos em lojas e de pessoas. A criança em um caso destes não pode ser considerada uma cleptomaníaca mas ela tem, a partir deste momento, uma grande probabilidade de desenvolver a doença e até se tornar uma ladra. "A criança vê nos pais os modelos e segue", afirma Cremonesi.

Na escola é comum não dar o devido valor ao desaparecimento de um lápis ou quando o filho chega em casa com algum material diferente, brinquedos, roupas e muitas vezes os pais não tem a preocupação de saber a procedência. Para Elaine Olmo, quando casos assim acontecem, podem estar relacionados

à falta de atenção dos pais e na sua falha de ensinar noções do que é certo e o que

é errado ou na falta de afeto. "A criança desenvolve um desejo de posse, gerado por insegurança, necessidade de exibir-se, vingança ou ciúme".

Puxão de orelha

Quando pegam alguém furtando algo do seu estabelecimento, os gerentes das lojas, geralmente não chamam a polícia, mas passam um sermão na pessoa. "Não costumamos chamar a polícia se a pessoa pegou algo de comer ou algo que era para uso próprio, pedimos para ela devolver (ou pagar se quiser mesmo levar o objeto) e falamos para não repetir o ato", conta um gerente de uma grande rede de supermercados da cidade que conta com um sistema de câmeras para a sua segurança. O gerente, que preferiu não se identificar, diz que a polícia só é chamada quando a mercadoria furtada é visivelmente para ser comercializada, "ser for um litro de uísque, um pacote de cigarros ou algo mais sofisticado, chamamos a polícia para resolver o caso", diz.

Este tipo de procedimento também é usado nas lojas de departamentos, onde grande parte dos furtos são de objetos que não são para serem revendidos.

Talher = jóia

Um detalhe que muitas vezes faz com que as pessoas não liguem para um pequeno fruto é o valor atribuído ao objeto roubado. "Tem-se uma noção errada quanto ao valor dos objetos", diz Elaine Olmo, "as pessoas não se dão conta de que é tão grave o roubo de um objeto como um cinzeiro, uma toalha, um talher, quanto o de uma jóia". Por isso qualquer tipo de obtenção ilícita de qualquer coisa precisa ser observada atentamente. Quando for um caso de doença, o problema tem cura, quando já se tornou um vício, o processo pode ser mais complicado. "Se o comportamento persiste na vida adulta, deve-se analisar a história de vida dessa pessoa, a fim de detectar seus conflitos interiores não resolvidos e tentar resolvê-los", explica a psicóloga.

Para ir no meio do texto

"Meu irmão tinha em casa uma estante onde guardava todos os tipos de objetos que ele furtava dos mais diferentes locais, inclusive de uma Igreja! Tinha desde bolas de bilhar, canecas de cerveja a pedras semi-preciosas. Um dia ele me perguntou se eu sabia o que era uma peça que ele tinha na estante

(parecia uma peça de motor de carro), como não entendo de mecânica, disse que não sabia. Ele falou que só tinha pego a peça porque não sabia o que era e quando descobrisse iria jogá-la fora. Fiquei chocado. Num outro dia ele definiu como pensava e até tentou me convencer, disse: 'se você olha um objeto e gosta, pegue-o para você'"

Cassio (nome fictício), jornalista, 28 anos

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"Só pego as coisas por pegar, para colecionar ou dar de presente para outras pessoas. Acho divertido, encaro como um esporte e não como uma doença"

Angélica (nome fictício), universitária, 23 anos

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