Sebrae-SP revela que a economia paulista melhorou
Sebrae-SP revela que a economia paulista melhorou
Texto: Luciano Augusto
O Sebrae-SP divulgou, neste mês de julho, sua última pesquisa feita junto às micro e pequenas empresas do Estado
(MPEs) que aponta uma melhora do faturamento destas empresas no mês de maio de 99 em relação ao mês anterior. Os estudos revelam que, embora os níveis de faturamento deste ano sejam inferiores ao registrado no mesmo período do ano passado, a diferença se reduz a cada mês. O balanço é de que existem alguns sinais de recuperação, ainda que o momento não seja dos melhores.
Embora o cenário macro-econômico mundial não tenha apresentado grandes mudanças no último mês de junho, o mercado interno brasileiro vêm mostrando sinais de recuperação. A crise econômico-financeira do início do ano, se ainda não foi incorporada completamente
à economia, pode-se dizer que o pior da tempestade de números negativos já passou.
Produção e vendas demonstraram uma pequena recuperação nas atividades de bens e serviços essenciais mais baratos. Por outro lado, no que se refere à indústria de bens de capital (produção de máquinas para outras indústrias fabricarem o produto final) e de bens duráveis, ainda muito dependentes de crédito, há fortes ventos contrários.
Na avaliação da Pesquisa de Conjuntura das Micro e Pequenas Empresas do Estado de São Paulo (Pecompe) do Sebrae-SP, as Micro e Pequenas Empresas (MPEs) do Estado apresentaram, já em maio deste ano, uma melhora do faturamento em relação ao mês anterior. A expansão do faturamento médio foi de 4,5%, influenciada pela recuperação das MPEs da Indústria (variação de 15,1% se comparado com abril) e de Serviços (6,9% no mês). O Comércio ficou estabilizado em 0,4%.
Mesmo assim, quando se compara os números de maio deste com os do mesmo mês em 98, o faturamento ainda está abaixo do verificado naquele ano. Em média, o faturamento das micro e pequenas empresas paulistas este ano está 4,3% menor do que no ano passado.
Por setores de atividade, o desempenho é o seguinte: a Indústria apresentou em maio deste ano um faturamento médio 4,8% menor do que o do ano passado; o faturamento do Comércio ficou inferior em 0,2% e o de Serviços caiu 15,1% em relação ao mesmo mês do ano passado.
A Pecompe destaca ainda que, apesar do nível de faturamento de maio deste ano ter sido inferior ao do mesmo período do ano passado, a cada mês que passa, essa diferença
é reduzida. Em março de 99, por exemplo, o faturamento estava 13% abaixo de março de 98. A diferença caiu para -11% em abril e para -4% em maio, na média geral das MPEs.
O economista e consultor de empresas Carlos Roberto Sette, 49 anos, avaliou que a tendência de recuperação
é verdadeira, porque também se confirmou em junho.
"No final do semestre de 99 igualou-se em nível de faturamento ao primeiro semestre de 98 e igualou graças a performance de maio e junho. Já no primeiro trimestre, esses números eram muito ruins", disse Sette.
De acordo com ele, alguns fatores contribuíram para este melhor desempenho, como por exemplo, datas comemorativas como o Dia das Mães e o Dia dos Namorados, além do inverno que movimentou o setor de vestuário. "O setor de alimentação também deu boa reagida", diz o economista, principalmente porque a expectativa que se tinha de volta da inflação com a desvalorização cambial não se confirmou.
"Essa foi uma visão macro que deu alguns sinais de recuperação verdadeira", complementa.
Na opinião de Sette, quem mais perdeu com a instalação da crise econômico-financeira nestes seis primeiros meses foi o setor de serviços, "porque os preços e a procura caíram. Este é o tipo de coisa que dá para adiar, até que a situação melhore".
O comércio e a indústria, por outro lado, se beneficiaram um do outro e melhoraram seus desempenhos. O setor comercial requisitou produtos e alavancou a produção industrial, que respondeu e reagiu. O setor de alimentação, lembra Sette, também tem se mantido estável e com a demanda crescente.
Ele ressalta, porém que, embora o faturamento das MPEs tenha sentido a melhora dos últimos meses e tenha se igualado aos números do ano passado, a lucratividade das empresas este ano continua menor do que em 98. Segundo sua explicação, para todos os segmentos de empresas, mas principalmente para as micro e pequenas, está havendo uma inflação de custo, pressionada pela alta nos preços dos combustíveis, do telefone, da energia elétrica, da matéria-prima, principalmente aqueles ligados à segmentos carterizados.
Este aumento nos custos, entretanto, não está sendo repassado, pelo menos integralmente, para o consumidor final, porque a demanda está espremida pela falta de renda do varejo e pela queda do poder aquisitivo.
Com isso, apesar do faturamento das MPEs neste ano ter se igualado ao do ano passado, a margem de lucro caiu, pressionada também pela forte concorrência.
A pesquisa do Sebrae também analisou os números do pessoal ocupado nas micro e pequenas empresas paulistas. A média apresentou uma elevação de 2,5% em maio de 99 em relação ao mesmo mês de 98. Os salários, por sua vez, encolheram 6,1%, na média, também no mesmo período. Este aumento do pessoal ocupado deve-se principalmente ao desempenho do Comércio, já que os números da Indústria e de Serviços apresentaram uma ligeira queda, principalmente neste primeiro semestre. Em relação à folha de salários, os níveis comerciais se mantiveram estabilizados, guardada a variação sazonal de final de ano (quando normalmente eles aumentam). A pressão maior também ficou por conta das MPEs da Indústria e de Serviços.
Para Sette, é possível identificar nesta tendência de melhora alguns problemas estruturais. Por exemplo, a taxa básica de juros do Banco Central, que mesmo tendo quedas sucessivas, ainda está acima dos 20% ao ano.
"A Micro e Pequena Empresa precisa de financiamento de capital de giro. Como as taxas estão alta, a curto prazo, isso
é uma dificuldade muito grande", destaca o economista e consultor de empresas. Grande parte do capital de giro das empresas está financiada através dos bancos, com as altas taxas dos juros.
De positivo, para Sette, é a recuperação lenta daquelas MPEs bem administradas. Ele afirma que "quem está improvisando, quem for amador, quem não se profissionalizar desaparece do mercado". No segundo semestre, que já desponta, Sette diz ver um horizonte melhor do que o do primeiro semestre.
Situação econômica pode levar à ingerência
A situação econômica do País pode esconder perigos para as micro e pequenas empresas brasileiras.
O engenheiro e consultor financeiro Morched B. Sanna, 59 anos, avalia que um dos problemas principais para as empresas é a falta de capital. Com isso, as empresas são obrigadas a fazer financiamentos, sem dar a importância devida para a taxa de juros e acabam cometendo erros que podem comprometer a saúde da empresa.
"As empresas estão sofrendo, basicamente, de um problema de crédito, de falta de capital, porque a nossa poupança interna é pequena", pontua B. Sanna. Ele continua dizendo que muitas empresas, atualmente, vendem pouco porque nunca estiveram acostumadas a precisar de dinheiro. "O mercado sempre esteve comprador". O industrial produzia a mercadoria, colocava a disposição e o mercado comprava. Hoje, o mercado não compra tanto e esse industrial não está acostumado a pensar que medida pode ser tomada para que a mercadoria dele seja de fato comprada pelo varejista.
O resultado disso, continua, é que se tem muitos "tomadores de dinheiro em bancos, que não estão sequer perguntando qual é a taxa de juros". Como estão precisando de empréstimos a curto prazo, este empresários passam a se preocupar com a situação de emergência de suas empresas e não negociam com os bancos.
Com a crise, veio também a redução do consumo no comércio varejista, que teve que reduzir suas compras junto às indústrias, afetando a cadeia econômica. Por outro lado, há o problema da inadimplência, que
é grande tanto no comércio como também na indústria e no próprio setor financeiro, com o incremento dos empréstimos para pessoas físicas.
Outro problema citado pelo consultor e que está ligado
à essas questões, é que "muita gente
(leia-se empresários e diretores) está marcando o preço de venda em cima do preço de compra, que ficou mais alto. Não sabem distinguir o que é custo da mercadoria e o que é custo do dinheiro para financiar aquela mercadoria e está tudo muito ligado". Além do que a concorrência está muito maior e o industrial brasileiro não estava acostumado a essa concorrência.
No mundo de hoje, destaca B. Sanna, esse poder que saiu da mão do industrial migrou para o consumidor e para o varejo. Todo estão mais críticos no momento da compra e algumas empresas, tanto indústrias quanto comércio e prestadoras de serviço, "têm menos venda porque ainda não aprenderam a lidar com isso".
Ele cita ainda uma pesquisa sobre a vida média das novas empresas. De acordo com a pesquisa, 80% do novos negócios não sobrevivem ao primeiro ano de vida e somente 5% sobrevivem por mais de cinco anos.
De acordo com sua análise, a maioria das empresas pensam muito bem no novo negócio, analisam "mais ou menos" o mercado, não fazem qualquer tipo de plano de trabalho e passam direto para a conclusão de que o novo empreendimento
é uma mina de ouro. "Muitas empresas que abrem e fecham não levam em conta todas estas variáveis", avisa.
B. Sanna diz ainda que essa análise vale também para as empresas que já estão atuando no mercado há algum tempo, até mesmo para tomar ciência de todo o processo. "Às vezes, os gerentes estão
às voltas com problemas financeiros e deixam de olhar o resto da empresa", por exemplo, e, com isso, a empresa vai declinando.
Para o consultor, faltam entrosamento e, principalmente, planejamento, o que exige um entendimento entre as várias áreas da companhia.