Menopausa & andropausa
Menopausa & Andropausa
Texto: Sabrina Magalhães
Quando os hormônios não "incomodam" mais, o corpo reclama
"A fase de vida que se inicia após a menopausa e após o climatério masculino deveria, para maior exatidão, ser designada de 'quarta idade'. A primeira seria a infância; a segunda, ao iniciar-se com a puberdade, seria a adolescência; a terceira seria a fase adulta fecunda, e independente do casal que tem, educa e cria seus filhos; e por fim a quarta, a que corresponde à fase que se inicia com o declínio hormonal da menopausa e da andropausa."
Moisés Tractenberg, médico e filósofo
Elas convivem cerca de 40 anos com aquele "incômodo mensal" e, um belo dia, ele simplesmente desaparece. É o fim da menstruação, que traz consigo uma nova fase para a vida da mulher. Melhor? Os médicos dizem que não. A menopausa é caracterizada pelo envelhecimento do aparelho reprodutor e implica em interrupção da produção de hormônios. O problema é que estes mesmos hormônios são os responsáveis por proteger o organismo e, na falta deles, surgem várias disfunções, como a diminuição da libido, as doenças coronarianas e a osteoporose. E ao contrário do que se pensa, este é um problema que também atinge os homens.
É na puberdade que se acentua a produção dos hormônios masculinos e femininos. Na menina, por volta dos 14 anos vem a primeira menstruação, chamada menarca, indicando que o corpo dela já está pronto para reproduzir. Esta fase vai durar até por volta dos 50 anos, quando os ciclos começam a ficar irregulares e aparecem aqueles sintomas tão conhecidos: as ondas de calor, as alterações repentinas de humor, as crises depressivas. Até que os ovários param de trabalhar definitivamente e a mulher entra no climatério.
Nos garotos, a produção de hormônios é marcada pelo crescimento de pêlos, pela mudança da voz, pela produção de esperma. Isso, em situações normais, se prolonga até os 50 anos, em média. Então, o corpo se cansa e a produção dos hormônios começa a diminuir. Com o tempo, o nível acaba ficando abaixo no limite mínimo normal e vêm as conseqüências: perda de massa óssea e muscular, perda da libido, doenças coronarianas e - o pavor masculino - a impotência sexual.
Todos esses problemas sempre foram atribuídos ao envelhecimento natural e, como tal, deveriam ser suportados. Até que os pesquisadores determinaram que a queda dos níveis de estrogênio e testosterona é que desencadeava essas disfunções. A partir daí, precisavam encontrar um tratamento e sugeriram a Terapia de Reposição Hormonal. De lá para cá, muito se discutiu a respeito da influência desta terapia no desenvolvimento de cânceres. Hoje, pouco mais de dez anos sendo administrada a seres humanos, ela já ganha a aprovação da maioria dos especialistas.
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Osteoporose e infarto: principais conseqüências da menopausa
Nos primeiros 5 anos de climatério, a mulher pode perder até 20% de toda a massa óssea acumulada ao longo da vida
A perda de massa óssea e o aumento da retenção de colesterol são as principais mudanças que acontecem no organismo feminino a partir da menopausa. Até então, o estrogênio, hormônio produzido pelos ovários, protegia o organismo da mulher, ajudando-o a reter tanto o cálcio
- necessário à preservação dos ossos
-, quanto o chamado colesterol bom - que atua na eliminação da gordura da corrente sangüínea. Sem este hormônio, o tecido ósseo enfraquece, dando origem à osteoporose. E a gordura (colesterol ruim) passa a se acumular nas paredes de veias e artérias, aumentando os riscos de infarto e derrame. Se antes da menopausa a incidência de infarto em mulheres é baixa, no climatério as chances dela sofrer um são iguais às do homem.
No caso da descalcificação, as pesquisas mostram que nos primeiros cinco anos após a última menstruação, a mulher pode perder de 1% a 4% ao ano de massa óssea, ou seja, nesses primeiros cinco anos, sua perda pode chegar a 20% de toda a massa óssea acumulada ao longo da vida, o que acontece em uma a cada três mulheres. A mulher com osteoporose pode, por exemplo, apresentar uma fratura espontaneamente (sem queda ou torção) ou depois de um traumatismo mínimo. De acordo com os especialistas, fraturas de punho são extremamente freqüentes em mulheres com mais de 55 anos. Os esmagamentos vertebrais (caracterizados pela redução na altura e acentuação da curvatura da coluna vertebral) são mais evidentes entre os 60 e 70 anos.
Sintomas
Os primeiros sinais de que a mulher está se aproximando da menopausa, geralmente, são as irregularidades menstruais. Algumas mulheres ficam meses sem menstruar e de repente têm uma pequena hemorragia. Em outras, o sangramento que sempre durou seis dias passa a desaparecer em apenas três. Lentamente, outras mudanças podem ser observadas: a pele tende a ressecar; as rugas aumentam, porque o colágeno enfraquece; os cabelos apresentam queda acima do normal; o desânimo toma conta da vitalidade. É como se começasse a faltar um lubrificante para a máquina do corpo e ele oxidasse.
Os sintomas do climatério se manifestam em 75% a 80% das mulheres. Entre eles, o que tem maior destaque, sem dúvida, são as ondas de calor. De acordo com o andrologista Lister de Lima Salgueiro, durante um "fogacho", a diferença de temperatura entre os pés da mulher e a cabeça pode ser de até quatro graus. E em poucos minutos ela pode ter suores frios. Além de tudo isso, a mulher pode apresentar depressão, alterações repentinas de humor, perturbações de sono, desânimo, cansaço excessivo. Enfim, são inúmeras as alterações causadas pela ausência do hormônio feminino.
Entenda o processo
O aparelho reprodutor da mulher começa a funcionar por volta dos 14 anos de idade, quando ela tem a menarca (primeira menstruação). A partir daí, mensalmente seus ovários vão amadurecer e liberar um óvulo. Este atravessa a trompa de Falópio, onde pode ou não encontrar-se com o espermatozóide. Enquanto isso, o endométrio cresce dentro do útero, como uma cama que é preparada para abrigar o bebezinho que pode vir. Não havendo a fecundação, este "ninho" se desfaz e ela menstrua. O mesmo processo se repete até que o aparelho reprodutor dê sinais de cansaço, por volta dos 50 anos de idade. Desgastados, os folículos que contêm os óvulos desligam-se dos ovários. Aparelho reprodutor e urinário sofrem uma atrofia parcial e não há mais liberação de óvulos, nem produção de hormônios.
À última menstruação na vida desta mulher, dá-se o nome de menopausa. A partir daí, começa o climatério, período em que ela não pode mais engravidar.
Menopausa cirúrgica
Chama-se menopausa cirúrgica à suspensão da vida reprodutora da mulher após uma intervenção médica, quando, por mioma (nódulos benignos) ou infecções, a mulher é submetida a uma histerectomia, ou seja, a retirada de útero, ovários e trompas. A retirada destes órgãos resulta, evidentemente, em suspensão permanente da menstruação. O mesmo ainda pode acontecer com mulheres submetidas à radioterapia.
Andropausa pode levar à impotência
O climatério atinge 50% dos homens com mais de 50 anos de idade e 75% dos que têm mais de 70 anos
Por volta dos 50 anos, os homens também apresentam uma diminuição nos níveis de testosterona do corpo. Quando esta deficiência é muito acentuada, dá-se a andropausa - o climatério masculino que, entre outras coisas, pode levar à impotência sexual.
"Na verdade, o nome correto deveria ser 'androqueda', porque, ao contrário do que acontece com a mulher, no homem o hormônio continua sendo produzido, só que em quantidade insuficiente. A partir dos 40 anos existe uma queda natural de 1% ao ano. Quando esta queda supera o normal, o indivíduo entra na andropausa", explica o andrologista Lister de Lima Salgueiro.
A própria deficiência hormonal é um dos fatores que tende a diminuir a libido do homem, com conseqüente prejuízo para seu desempenho sexual. Paralelamente a isso, a produção dos espermatozóides também diminui, já que os testísculos dependem diretamente da testosterona. Mas não é só isso. Da mesma forma que na mulher, a andropausa resulta em problemas circulatórios no organismo masculino, e a ereção resulta de um "derrame" de sangue nos corpos cavernosos do pênis - espaços sob a pele que são preenchidos por sangue durante a excitação sexual, sustentando a rigidez do membro.
Sintomas
A andropausa é um distúrbio que atinge 50% dos homens com mais de 50 anos de idade e 75% dos acima dos 70 anos. Da mesma forma que na mulher a ausência do estrogênio acelera o processo de envelhecimento do corpo, a queda na produção da testosterona resulta em perda da vitalidade para o homem. Aquele indivíduo que sempre estivera disposto para tudo, começa a aparentar desânimo, preguiça, reclama de cansaço, mesmo quando não faz qualquer esforço físico. Ele tem mais sono que o normal, começa a apresentar alterações de humor (chora ou ri sem motivo aparente), entra em crises depressivas, perde a concentração.
A osteoporose torna-se também uma ameaça, com a descalcificação dos ossos. O tônus muscular diminui e dá lugar à gordura, com visível aumento de peso. Com o tempo, podem surgir dificuldades de memória, rarefação dos pêlos e aumento do volume das glândulas mamárias.
Diagnóstico
Segundo Salgueiro, o conceito de andropausa foi definido há apenas dois anos e ainda há muita resistência dos especialistas, que consideram os episódios depressivos, distúrbios de sono e humor e a perda de vitalidade como sendo sintomas de estresse ou crise de meia-idade. Mas pesquisas recentes mostraram que idosos com problemas cardiovasculares tinham deficiência de testosterona, ou seja, mesmo que os sintomas do estresse, por exemplo, sejam os mesmos, o estresse não faz cair o nível hormonal.
O andrologista comenta ainda que muitos homens têm receio em admitir o problema ou não têm coragem de procurar o médico quando as dificuldades aparecem. "Para se ter uma idéia, entre o primeiro sintoma e a vinda dele ao consultório, o tempo médio é de quatro anos. Primeiro ele passa pelo amigo que tomou tal remédio. Depois vai à farmácia, depois toma a garrafada de ervas que comprou na feira. Quando chega aqui, já tomou besteira." Neste meio tempo, podem até ter surgido complicações, como as disfunções eréteis que, muitas vezes, só podem ser resolvidas através de cirurgias.
Climatério é cercado de medo e preconceito
"As pessoas, principalmente as mulheres, no período do climatério, se sentem meio abandonadas, acham que não vão poder desenvolver as mesmas atividades, que o envelhecimento vai ser mais rápido. mas não. Envelhecimento é uma coisa, menopausa é outra. Claro que, sem o hormônio, a pele tende a ressecar e as rugas aumentam, mas isso pode ser facilmente controlado com boa alimentação, atividade física regular e cuidados preventivos", observa a ginecologista Carmem Lúcia Sobral.
Ela salienta que ainda há grandes mitos em torno do climatério, todos com origem cultural: "Na Índia, por exemplo, os povos valorizam muito mais a mulher conforme ela vai envelhecendo, porque ela é o centro da família, ela orienta a todos, então precisa ter mais experiência. E mesmo aqui as coisas estão mudando. Hoje os idosos freqüentam grupos de terceira idade, o campo de trabalho está começando a abrir suas portas, valorizando a experiência. Até porquê, hoje uma mulher de 60 anos que tem vida saudável
é jovem ainda. Tudo isso faz parte da cultura machista, em que o homem com 50 - 60 anos se sente ainda mais viril e a mulher, menos atraente. Acredito que na terceira idade das gerações de hoje esse pensamento se modifique bastante".
Ressecamento das mucosas dificulda relação sexual
A partir da menopausa, muitas mulheres se queixam de diminuição da libido e dificuldade em manter relações sexuais. De acordo com os especialistas, isso acontece porque a ausência do estrogênio provoca um ressecamento das mucosas. Sem lubrificação vaginal suficiente, a relação vai ser acompanhada de irritação e dor. O andrologista Lister de Lima Salgueiro salienta que, ao contrário do que se pensa, quando os ovários deixam de produzir estrog&enio, a pequena quantidae de testosterona (hormônio masculino) presente no coro da mulher garante a ela aumento da libido. Mas para ue esta alteração seja notada, é preciso tratar o ressecamento da mucosa. O uso de lubrificantes artificaiais pdoe ser uma excelente opção.
Reposição hormonal não assusta mais
Tratamento é contra-indicado para pacientes com histórico ou suspeita de câncer
A Terapia de Reposição Hormonal (TRH), que causou desconfiança e repúdio de pacientes e médicos em todo o mundo há alguns anos já não assusta mais. Hoje, é utilizada por milhões de pessoas e os novos estudos apontam para uma segurança cada vez maior.
Alguns anos atrás, quando foi aprovada pelos órgãos competentes, a reposição hormonal foi muito criticada pelos especialistas em câncer (oncologistas). Isso porque tumores malignos (como os de mama e próstata, por exemplo) se "alimentam" desses hormônios e temia-se que usá-los pudesse levar a um aumento descontrolado de câncer na população. Hoje, os estudos já provaram que o uso da TRH por até dez anos consecutivos é absolutamente seguro.
A reposição de estrogênio e prosgesterona para mulheres e de testosterona para homens pode eliminar, em pouquíssimo tempo, todos os sintomas do climatério, prevenindo (e algumas vezes até revertendo) inclusive a osteoporose e os problemas cardíacos.
"A pessoa que faz a TRH corretamente tem praticamente as mesmas chances de ter câncer que aquela pessoa que não faz a reposição. Entre ela ter um risco pequeno de ter um câncer de mama e ter um risco, que é muito grande, de ter um ataque cardíaco (aumentado no climatério),
é preferível correr o risco da reposição, porque o custo-benefício tem que ser avaliado", explica o ginecologista Laudelino de Pádua Cerqueira. Dados estatísticos apontam que a a terapia reduz em até 50% os casos de mortalidade por infarto.
Tipos de tratamento
De acordo com Cerqueira, o tipo de hormônio a ser usado vai depender da origem do climatério. A mulher que deixa de produzir estrogênio pelo envelhecimento natural do aparelho reprodutor deve receber estradiol e progesterona. Isso porque a estradiol pode causar um aumento desregulado do endométrio
(camada que reveste o interior do útero), levando-o a desenvolver câncer. A progesterona atua impedindo esse crescimento e, portanto, prevenindo o câncer. Mas na mulher que entrou no climatério porque retirou cirurgicamente o útero e os ovários, a reposição pode ser apenas do estradiol, já que é este que faz falta para o organismo feminino.
No caso dos homens, conforme o andrologista Lister de Lima Salgueiro, há também duas alternativas: "A andropausa tem duas causas. Ou o testículo não produz testosterona porque está parando de funcionar, ou porque ele tem alguma deficiência e não produz direito. Neste segundo caso, você pode medicar o paciente no intuito de estimular o testículo a produzir a testosterona. Ou, se o problema é mesmo uma falência, simplesmente repor a testosterona na quantidade de que ele precisa. Antigamente os remédios tinham cargas muito violentas. Hoje é possível fazer um controle perfeito, uma regulagem dos níveis hormonais".
Atualmente, a TRH pode ser feita por via oral, injetável
(como o implante, em que um cilindro é colocado sob a pele e libera gradativamente a substância por até seis meses) e transdérmica (através de adesivos e gel).
Contra-indicações
Como qualquer medicamento, a Terapia de Reposição Hormonal tem suas contra-indicações. É o caso de pessoas que tenham histórico de câncer. Isso inclui aquelas que têm casos de tumor maligno na família, as que já suspeitaram ter câncer ou as que estão em alguma situação de risco - como quem fuma, por exemplo, considerando-se que todo fumante tem pelo menos o dobro de chance de desenvolver câncer em alguma parte do corpo. Nestes casos, o médico tem que buscar um tratamento alternativo.
"Então, qualquer pessoa que pretenda iniciar a TRH precisa passar por um exame clínico rigoroso, fazer mamografia, cintilografia óssea, para que o tratamento seja muito bem monitorado. E durante todo o tempo, o paciente tem que ser acompanhado, fazer visitas regulares ao médico. Porque caso apareça algum indício de tumor, ele pode ser identificado bem precocemente, quando ainda tem cura."