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Fome

Érika Lima
| Tempo de leitura: 10 min

Cerca de 20 mil pessoas passam fome em Bauru

Cerca de 20 mil pessoas passam fome em Bauru

Texto: Érika Lima

"Senhoras e senhores estamos aqui / pedindo uma ajuda por necessidade / pois tenho um irmão doente em casa /qualquer trocadinho é bem recebido /vamos agradecendo antes de mais nada aqueles que não puderem contribuir deixamos também o nosso muito obrigado pela boa vontade e atenção dispensada/ Bom dia passageiros é o que lhes deseja / a Miséria S.A. que acabou de chegar"

(Banda - O Rappa Mundi)

A música tocada pela banda reggae "O Rappa Mundi", em diversas rádios do País, vem expressar a miséria em que muitos brasileiros, entre eles, 20 mil bauruenses vivem no cotidiano.

Sem ter o que comer, indigentes e menores de rua pegam no lixo, restos de comida que já foram servidos nas mesas de bares e restaurantes. O alimento "colhido" nos lixos pelos

"excluídos" da sociedade, não tem valor nutritivo algum. Devido a falta dessa

Ou seja, as avitominoses, das 895 favelas existentes em Bauru, em nenhum barraco possui alimento que tenha vitamina para sua família. Seja uma pessoa ou toda a família, não tem comida num dia ou no mês, dependendo do caso. O que mostra que o sistema em que vivemos é falho.

No entanto, há projetos que possam tirar essas pessoas da miséria completa, mas o governo ou a maioria das Prefeituras ou estão quebradas ou não querem arriscar no investimento.

Entre as classes consideradas C e D, existem 20 mil pessoas que não têm o que comer.

Números

n. de barracos de favelas ---985

pessoas atingidas pela desnutrição classes c e d

---20.000

óbito na cidade (crianças de 39 a 365 dias) de desnutrição

% total -- 45,95%

ATESTADOS DE ÓBITOS DOS CARTÓRIOS

causas avitaminoses e outros deficientes nutricionais (260-269)

óbitos 20

36% COEF

Bauru tem a receita contra a fome

Pode parecer impossível acabar com a fome ou a alimentação desbalanceada no Brasil, entretanto, projetos é que não faltam e em Bauru há uma receita para dar um fim à esse quadro que se manifesta para quase 20 mil bauruenses.

"UAP - A receita para o fim da fome" é um projeto, que visa extinguir a fome do País, desenvolvido pelo arquiteto José Guimarães, quando ainda cursava Arquitetura na Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus local.

O projeto consiste na criação de Unidades de Abastecimento Popular (UAP), que são centros de produção para alimentar pessoas que são classificadas, na pirâmide social, nas classes "C" e "D". Dessa última, fazem parte pessoas que vivem nas ruas e não têm um salário fixo, como os indigentes, mendigos e menores de rua. Já na classe "C", incluem aqueles que recebem até um salário mínimo.

Cada centro de produção (UAP) abastece de dois a dez mil dessas pessoas, mas para isso deve ser construído numa área de 96 hectares (para duas mil pessoas) ou 484 hectares (de cinco mil e um a dez mil "excluídos". A localização do centro de produção deve estar entre a zona urbana e rural, tendo seu custo total de U$ 353 mil (UAP pequena) a U$ 883 mil (UAP grande) incluindo toda a sua estrutura.

E sua implantação pode ser feita por qualquer pessoa física, jurídica, município, poder público ou organização não-governamental (Ong).

Uma UAP representa um centro de produção que envolve uma área administrativa, um núcleo de capacitação profissional, área de lazer, espaço para confinamentos bovinos e avicultura, um espaço para agricultura e mais três para a criação de rãs, peixes e coelhos.

Sua estrutura comporta ainda um refeitório, dois vestiários

(masculino e feminino), praças, creches e clubes. Para os centros de produção funcionarem é necessária a contratação de uma equipe técnica e profissional, já prevista no investimento inicial (U$ 589 mil).

A equipe deve ser composta, no mínimo, por médico, zootecnista, nutricionista, técnico em agricultura, agrônomo, veterinário, engenheiro civil ou arquiteto, assistente social, agente de saúde, sociólogo, contador e advogado.

"A UAP foi criada para acolher, cadastrar e recolocar as pessoas de extrema miséria e as que possuem baixa renda na sociedade", explica Guimarães em seu livro (veja box).

Depois de construído o centro de produção, inicia-se o cadastramento das pessoas da classe "D". Elas serão registradas através de um sistema de microcomputação próprio para cadastro e receberão uma senha, aqueles que não tiverem nem registro geral (RG) serão regulamentados corretamente pelos funcionários da UAP.

A cada um corresponderá um número que será utilizado para sua avaliação diante dos trabalhos propostos, isso 15 dias após terem recebido a alimentação necessária para sua reabilitação. A dieta

é composta pela mistura (pó de folha de mandioca, farelo de arroz, pó de semente de abóbora e casca de ovo em pó) além de todos os nutrientes necessários que o ser humano deve ingerir diariamente.

Durante os primeiros 15 dias de alimentação, os

"excluídos" da sociedade deverão participar de palestras, antes e depois das refeições, para receberem incentivo e programas informativos de profissionais especializados.

Os programas servirão para a formação técnica e cultural, além de levar o integrante a participar no futuro processo produtivo.

Depois de várias palestras sobre o objetivo da construção do centro iniciam-se trabalhos isolados em diversas áreas, como agricultura, pesca, confinamento bovino e outras.

Os "excluídos", então, já em condições de trabalhar, deverão escolher as áreas em que se enquadram, mas não de forma obrigatória.

Através dos trabalhos desenvolvidos no "centro", além de servir para alimentar os excluídos, também abrirá portas para a exportação de seus produtos.

Agricultura alternativa

O centro de produção torna-se uma alternativa de combate à fome. E seu autor admite muito mais: "as UAP's servirão como uma alternativa de reforma agrária, mas realizada de forma silenciosa e sem desapropriações".

De acordo Guimarães, criador do projeto e autor do livro

"UAP - A receita para o fim da fome", é interessante que os cadastrados optem pelos trabalhos que mais lhes atrairem.

"Na UAP cada cadastrado escolherá o melhor caminho a seguir, sempre analisando sua afinidade com o trabalho", garante.

Após a reinserção da classe "D" na sociedade é realizado o cadastramento da "C", pessoas que recebem até um salário e meio.

Com base em informações constatadas em suas pesquisas, Guimarães afirma que o trabalho com pessoas que já têm profissão é mais fácil e o processo torna-se mais rápido.

Todos que trabalharem com afinco estarão sendo observados pelo coordenador de área, e terão seus registros no computador como prova de que empenharam-se no que fazem. E assim, o esforço de cada um vai sendo avaliado para que possam passar de um estágio para outro.

Um exemplo disso, é que a pessoa quando inicia no "centro"entra no estágio zero, e só vai alterar essa graduação caso se interesse por algum trabalho, podendo atingir em estágio ou "grau" máximo, quando poderá ganhar muitos outros benefícios.

É importante salientar que todos os "integrantes" que atingem o "grau" máximo, na área em que trabalham, ganham casas de 20 metros quadrados, no valor de R$ 2,9 mil. E o arquiteto as planejou de tal forma que podem ser ampliadas facilmente.

Para a titular da Secretaria do Bem-Estar Social, Sandra Scriptore, o projeto é uma alternativa para acabar com a fome, mas a pasta não tem dinheiro para um investimento nessa área.

"Nossas prioridades são outras, não podemos, nem temos condições para um investimento desse porte", conclui.

Os cálculos feitos por Guimarães revelam que o dinheiro investido pelo implantador poderá ser revertido a quem investiu. E desde que em quantias que não prejudiquem a auto-sustentabilidade do centro de produção. Esse retorno é conseqüência do aumento da produtividade.

Com esse projeto, o arquiteto intenciona acabar com a fome tanto em Bauru quanto no Brasil, embora sua pesquisa tenha sido desenvolvida na periferia da cidade.

A viabilidade desse projeto, considerando-se que o autor ponderou todos os fatores econômicos e sociais envolvidos, demonstra que o resgate da cidadania não é tão impossível. Só o que o Brasil gasta hoje em pequisas na Antártida, cerca de R$ 11 milhões, permitiria a implantação de 27 centros de produção. Em outras palavras, 54 mil pessoas teriam chance de inclusão na sociedade.

Guimarães desafia a fome

O autor do projeto "UAP - A receita para o fim da fome", José Santos Guimarães, 28 anos, também escreveu um livro sob o mesmo título. Guimarães desenvolveu o projeto juntamente com o livro, enquanto cursava Arquitetura e Urbanismo na Unesp, campus em Bauru. Vindo de São Félix, sertão do Maranhão (MA), Guimarães prestou vestibular, passou e "entrou" na Unesp.

Para concluir o curso, teve a pretensão de desenvolver um projeto social e conseguiu.

O livro apresenta uma receita que erradica a fome no País e não é utópico, explicando etapa por etapa todo o planejamento.

As 247 páginas explanam o plano de ação, de forma que qualquer leigo possa entender a proposta.

A finalização do projeto se deu após seis anos de estudos e análises realizados junto à vários

órgãos e institutos de pesquisa.

Guimarães optou pelo projeto social por ser filho de família carente e conhecer muito bem o que é ficar sem comida. E recorda-se: "quando estudava em Bauru, havia dias em que eu não tinha nem uma moeda para comprar um pão sequer".

O arquiteto argumenta que, com base em sua experiência de vida (desde criança), decidiu fazer um projeto social pensando em beneficiar aqueles menos favorecidos da sociedade, os carentes e "excluídos".

Em todas as páginas do livro há algo novo para se aprender, tanto no que diz respeito a estruturas físicas, quanto à área político-social.

O dinheiro arrecadado com a venda dos livros será revertido para programas de implantação de "centros de produção" (UAP's).

Editado pela Araguaia, o livro estará à venda a partir de agosto. Os interessados em reservas podem ligar para o telefone 0XX(21) 63821-4747.

Desilusão desanima os solidários

A mortalidade infantil no Jardim Nicéia foi reduzida a zero devido a sopa levada ao bairro por voluntários

A idéia é "matar" a fome. Com o objetivo de amenizar o sofrimento de famílias carentes, voluntários, entidades e universidades, como a Universidade do Sagrado Coração

(USC), vão até os bairros servir sopa ou mesmo preparar comida ao lado dos moradores. Mesmo que enfrentem adversidades.

A sopa, ao contrário do que muitos pensam, pode ter muito valor nutritivo, como é o caso da sopa de legumes servida pela pastoral do Mosteiro e pela paróquia São José, no Jardim Nicéia. Bairro muito carente da zona sul?.

De acordo com o professor José Rafael Mazoni, coordenador dos programas de cidadania da USC, as sopas para terem alto valor nutritivo devem ser preparadas com o acompanhamento de nutricionistas.

"Elas indicam os nutrientes essenciais ao cardápio", arremata.

O Jardim Nicéia recebeu durante seis anos a sopa balanceada que alimentava aproximadamente 150 crianças, e as mães que ajudavam no preparo. Hoje, não há mais sopa, nem macarronada com carne, nada. Há quatro meses, o barracão usado para o cozimento e distribuição de alimentos foi arrombado, seus móveis quebrados e mais de 80 quilos de cereais foram furtados, assim como pratos, panelas e talheres.

Esse acontecimento, a princípio, desestimulou os colaboradores e organizadores da associação do bairro.

Segundo o presidente da Associação de Moradores do Jardim Nicéia, Aparecido Benedito de Vasconcellos, 60 anos, a sopa não foi mais distribuída devido ao vandalismo. Ele fica magoado ao admitir: "foi triste o que ocorreu, mas a própria comunidade permitiu que tudo acontecesse".

Mazoni acredita que os programas de cidadania que a USC oferece ajudarão a despertar, tanto nos alunos quanto nos moradores, novas visões de mundo.

Ao promover a conscientização de ambos os lados, também se formarão lideranças que comecem a se mobilizar sem esperar que comida e emprego "caiam do céu". "Esses programas estão sendo válidos", considera.

Já Vasconcellos afirma que, após a parceria com a USC, houve uma redução no índice de mortalidade infantil. Há oito anos, morriam seis crianças por ano, por desnutrição, e hoje, o índice de mortalidade é zero.

Tentando esquecer os problemas ocorridos no barracão, Vasconcellos prevê para agosto o retorno do fornecimento da sopa. Não se sabe, ainda, se a distribuição será durante toda a semana ou somente aos sábados.

Atualmente, a associação está "batalhando" para conseguir doações de alimentos não-perecíveis junto a empresas e instituições. O presidente da associação espera que os moradores colaborem com a campanha da sopa. "Cabe a eles a conservação do barracão e a colaboração no preparo da comida", explica. E completa: "É muito importante a valorização dessa ação, desse bem social, da qual todos deveriam participar".

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