Infedelidade
Infidelidade
Texto: Gustavo Cândido
Em uma entrevista para a revista Veja, há duas semanas, o professor na Universidade de São Paulo, Ailton Amélio da Silva, que estuda o comportamento humano, em especial o amor, declarou sobre fidelidade: "do ponto de vista biológico, o ideal é a poligamia. Ou seja, um homem com várias mulheres". O professor não recomendou, com a afirmação bombástica, o uso dessa teoria para justificar infidelidade, mas gerou polêmica e reacendeu o assunto. A infidelidade
é um "esporte" tradicionalmente tido como muito comum aos homens mas que vem sendo cada vez mais praticado por mulheres também.
Na ficção o tema já se tornou para lá de comum, é só tomar por exemplo a novela das oito,
"Suave Veneno", onde a infidelidade entre os casais
é tanta que é possível fazer uma ciranda: fulano é casado com sicrana, que é amante de sicrano que é casado com fulana, que também é amante do beltrano, e assim por diante. A infidelidade não é uma coisa nova, é claro, mas está mais evidente nos dias atualmente devido a todas as liberdades de expressão que homens e mulheres conseguiram, principalmente as últimas, nesse final de século.
"A infidelidade sempre existiu em ambos os sexos, mas sempre foi e continua sendo tratada como uma coisa mais comum ao homem do que à mulher, como se para ele fosse permitido e para ela não", diz a psicóloga Edilaine dos Santos. Segundo ela a liberação sexual, a independência econômica e a igualdade de papéis entre os dois sexos fez com que as mulheres "descobrissem" a infidelidade no mesmo nível dos homens.
Em sua entrevista à Veja, o professor Ailton Silva afirmou que o sexo casual pode ser uma determinação ancestral no homem, que naturalmente não tem nada a perder em uma relação sexual a não ser "alguns espermatozóides", enquanto as mulheres preferem relacionar o sexo com um envolvimento emocional. "Essa determinação ancestral masculina foi refreada por meio da instituição do casamento monogâmico, mas não inteiramente. É por isso que existem muitos homens pulando a cerca", diz o professor.
A razões para a infidelidade podem ser variadas. Geralmente, qualquer que seja o caso, está associada à necessidade de auto-afirmação, de desempenhar um papel viril, que se associa ao poder, afirma Edilaine dos Santos. "É um sinal de que algo não vai bem com a pessoa ou com o seu relacionamento, seja ele um casamento ou um namoro", comenta.
Essa insatisfação pode vir tanto do desgaste do relacionamento quanto da decepção da pessoa com o seu próprio comportamento ou visual. Em muitos casos existe uma dificuldade da pessoa em enxergar o parceiro (a) como um ser humano completo, capaz de amar e não apenas o pai de família (ou a mãe), que trabalha e tem outras atividades. "Geralmente isso acontece com o homem, que vê a mulher apenas como mãe e esquece que ela antes de tudo
é uma mulher e, por isso, vai procurar outra fora do casamento", explica a psicóloga.
Em outros casos o tempo acaba revelando aspectos que a pessoa não quer admitir, como o fato de envelhecer. Isso pode gerar um desejo de afirmação e, conseqüentemente, um desejo de procurar outra pessoa. "É por isso que
é cada vez mais comum ver homens mais velhos com garotinhas com a metade da idade deles. O mesmo com as mulheres".
Idade e compromisso
Não são só os casados ou os mais velhos que praticam a infidelidade em massa. Entre os jovens a prática
é para lá de comum, principalmente depois que o
"ficar" se tornou uma instituição que substituiu o namoro. "Nem considero muito traição, acho que depende se a outra pessoa considera o compromisso muito sério", diz o estudante Márcio Oliveira. Um amigo de Márcio, que pediu para se identificado apenas por Pedro, diz que enquanto for jovem e solteiro não vai se preocupar com isso, "chifre é igual gol, quem não faz toma", filosofa.
A idade e o compromisso interferem na noção de fidelidade das pessoas, como se antes de casar ou estar noivo tudo fosse permitido, depois não, como mostra a afirmação de Dilvan Moraes, "sou casado e sou muito fiel. Antes de casar era diferente", conta. "Aproveitei muito quando era mais novo, agora parei", confirma a tendência Alex Ribeiro dos Santos, que é noivo há 7 meses.
Vingança
Não é difícil ouvir histórias sobre casais, em que um traiu e depois o outro, quando descobriu, resolveu fazer o mesmo. A infidelidade por vingança não gera nenhum tipo de lucro para quem a realiza, apenas serve para exteriorizar uma raiva que talvez depois se transforme em arrependimento.
Quando ainda não estavam namorando, Armando Ramos e Cristiane Brison dizem que foram traídos, abdicaram da vingança e acham que foi melhor. "Até pensei em me vingar mas vi que não valia a pena, apenas terminei", conta Armando. Os dois acreditam na importância da fidelidade no relacionamento e nem gostam de lembrar o episódio do passado.
O mesmo acontece com Mariano Carvalho, que foi "chifrado", como ele mesmo define, pela namorada. "Fiquei muito transtornado, queria matar ela, é horrível lembrar", conta. O detalhe é que ao contrário dos namorados, ele resolveu se vingar e o fez com estilo: ficou com a irmã da namorada, "foi vingança mesmo, nem gostava dela, mas sei que as duas se olham, lembram de mim", diz com um sorriso maquiavélico.
Preenchendo o vazio
A infidelidade é o resultado da busca por algo que preencha o vazio que a pessoa está sentindo. Nessa busca a amante, ou o amante, enfim a terceira pessoa, aparentemente supre essa necessidade. Mas de acordo com a psicóloga Edilaine dos Santos isso é enganador, "a terceira pessoa do relacionamento parece suprir os desejos porque é uma pessoa idealizada, que é vista justamente como a que vai resolver a falta que se tem na união comum, quando isso nem sempre é verdade".
Envolvimento e muitos diálogos sinceros são necessários para que um casal não sofra com a infidelidade. "Viver junto requer uma capacidade muito grande de adaptação de ambas as partes, as pessoas precisam saber ceder e aceitar qualidades e principalmente defeitos e manias. Mais importante ainda é conversar quando algo não vai bem, senão esse sentimento fica acumulado e vai gerar uma insatisfação que pode acabar em traição", ensina a psicóloga.