Fazendo arte
Entrevista
Fazendo arte
Texto: Gustavo Cândido
O artista plástico Estevão Augusto Fernandes está com um problema difícil de resolver mas que, com certeza, qualquer um que ensina técnicas de pintura como ele gostaria de ter: não tem horário para atender todas as pessoas que desejam ter aulas com ele. Natural de Palestina, no norte do Estado, ele é estudante do curso de Desenho Industrial da Unesp e começou a pintar aqui em Bauru. Aos 23 anos, além da faculdade e das aulas, Estevão pinta, por encomenda, pelo menos dois quadros por semana. Esta semana ele venceu a timidez e humildemente falou ao Jornal da Cidade sobre seus quadros e seu talento, que vem desde criança.
Jornal da Cidade - Quando você começou a pintar
Estevão Augusto Fernandes - Há dois anos e meio, aqui em Bauru mesmo
JC - Mas você sempre teve o dom, já desenhava quando pequeno? Quem descobriu que você tinha habilidade com o traço?
Estevão - Sempre, desde os seis anos, mais ou menos. Todos comentavam que eu desenhava bem, mas foi minha mãe quem viu que eu tinha um certo dom. Eu vivia rabiscando uma peça que ela usava quando costurava, um dia desenhei a Vilma, do desenho animado (Os Flintstones), ficou perfeita e minha mãe se surpreendeu. Mais tarde na escola os meus desenhos eram diferentes dos outros alunos.
JC - Como foi começar a pintar?
Estevão - Eu sempre quis pintar mas como era de uma cidade pequena meu pai exigia que antes eu fosse para uma cidade maior, começasse a faculdade, então deixei para depois. Aqui em Bauru, onde eu vim para estudar Desenho Industrial, aprendi a pintar com a Sumiê Komono. O básico era saber como misturar as tintas, já que nunca tinha trabalhado com este material, mas continuo aprendendo até hoje, muitas vezes sozinho.
JC - Como você começou a dar aulas?
Estevão - Comecei em 96, eu era aluno da Sumiê lá no Ipê Amarelo, depois ela foi para o ateliê Carmela Nardi, lá o número de alunos era muito grande então passei a ajudar nas aulas como uma espécie de monitor, depois foram surgindo mais horários, mais alunos e eu montei uma turma minha à noite. Hoje dou aula para 11 pessoas.
JC - Mas tem gente "brigando" para ter aula com você não tem?
Estevão - Existem pessoas que querem ter aula mas não há horário. Daria para montar um uma nova turma com as pessoas interessadas.
JC - Como você costuma pintar os seus quadros?
Estevão - Eu gosto de pintar o acadêmico fotográfico. Tiro uma foto de um lugar ou pessoa e depois pinto baseado na foto. Às vezes também crio imagens e situações da minha cabeça.
JC - Você só trabalha por encomenda?
Estevão - Nem sempre. Neste momento tenho pêgo mais encomendas de quadros mas quando tenho tempo crio as imagens que eu desejo.
JC - Você não se incomoda em pintar quadros de flores e às vezes retratos populares demais como as imagens de Cristo, que podem ser consideradas uma forma de arte menor?
Estevão - Futuramente eu pretendo desenvolver o meu próprio estilo e fazer coisas diferentes destas mas por enquanto eu preciso trabalhar com este tipo de quadro, que
é o que as pessoas querem.
JC - Quantos quadros você já pintou?
Estevão - Cerca de 87. Os primeiros 27 que fiz foram sem objetivo algum, fui pintando até que surgiu a chance de expor. Nem coloquei preço porque achei que não iria vender. No final todas foram compradas, Fiquei assustado. Depois disso participei de salões de pintura em Ourinhos, Araçatuba, Olímpia e em São José do Rio Preto e tive os meus quadros classificados em todos.
JC - Você já expôs em Rio Preto?
Estevão - Já, faz duas semanas, no Shopping. Aqui em Bauru meus alunos já expuseram aqui no shopping mas com telas minhas ainda não fiz uma exposição.
JC - Qualquer pessoa pode pintar?
Estevão - Pode, desde que não tenha pressa. Tem gente que começa a pintar e em uma aula já quer acabar o quadro. É preciso ter paciência.
JC - Porque você acha que existe essa grande procura das pessoas pela pintura?
Estevão - Acho que elas se interessam quando vêm quadros que gostam e querem fazer igual. A pintura também
é relaxante e não é muito difícil de aprender.
JC - Você herdou o dom de alguém da sua família?
Estevão - Não exatamente, dizem que um irmão do meu avô pintava muito bem. Acho que foi dele que eu herdei alguma coisa, se é que herdei.
JC - Como é viver de arte hoje em dia. É difícil pintar, expor, tentar vender um quadro?
Estevão - É difícil, principalmente aqui em Bauru onde existem muitos artistas talentosos. Lá em Rio Preto acho que o retorno é maior porque existe, aparentemente, menos artistas por lá. De qualquer modo
é duro sobreviver só de arte.
JC - Por que?
Estevão - O detalhe é o nome. Se você
"faz" o seu nome, vende tudo. Sem nome... Algumas galerias onde tentei expor fora daqui, condicionaram a exposição ao fato de eu ter feitos cursos no exterior. Como nunca fiz um, não consegui. Ou seja, o talento ficou de fora da avaliação. Se eu "tivesse um nome", colocaria qualquer coisa na galeria.