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Atividades infantis

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Pequeno executivo tem agenda lotada

Pequeno executivo tem agenda lotada

Texto: Sabrina Magalhães

Sintomas de estresse, como depressão e ansiedade, são cada vez mais freqüentes entre as crianças

As crianças de hoje levam uma vida tão agitada e cheia de compromissos que os médicos já falam na

"Síndrome do pequeno executivo". De acordo com o pediatra Ajax Rabelo Machado, a criança executiva é aquela que desde muito cedo já tem uma "agenda lotada": vai à escola, faz cursos de música, Inglês, dança e desenho, freqüenta as aulas de futebol ou basquete. Uma diversidade tão grande de atividades que os baixinhos acabam adotando comportamento de gente grande.

Só que tudo na natureza tem seu tempo e criança não tem estrutura emocional para suportar uma carga tão pesada de responsabilidades e preocupações. Por isso, muitas estão enfrentando, aos 8-10 anos de idade, doenças típicas de adulto, como o estresse. É o caso de S.A.K, de apenas 10 anos, que acaba se receber o diagnóstico de gastrite nervosa. Uma doença psicossomática que, segundo especialistas, aparece quando o paciente não consegue lidar com seus conflitos emocionais e desconta este desequilíbrio no próprio organismo.

"A incidência de doenças psicossomáticas em crianças está aumentando. Nos consultórios elas aparecem com úlcera, com quadros de diarréia e até com síndrome do pânico. Isso porque as crianças estão sendo submetidas cada vez mais cedo aos mesmos problemas que os adultos enfrentam, com preocupações de ordem econômica e financeira, com a violência e com a desestrutura familiar. Ou seja, elas têm menos infância

- levam vida de adulto", comenta Machado.

Competitividade

Segundo ele, a idéia de competitividade que é passada para as crianças é um dos principais fatores que contribui para o aparecimento destas doenças. O pediatra observa que os professores estão aumentando cada vez mais a quantidade de tarefas que o aluno tem que fazer em casa. A regra da concorrência é apresentada logo nos primeiros anos de estudo, quando o indivíduo já é estimulado a ser o melhor, pois terá que competir com outro no vestibular e no mercado de trabalho. "Essa idéia é passada também para os pais e acaba contaminando a vida da criança, de forma que ela não tem tempo para relaxar."

A pediatra Adriana Barbieri concorda e diz que a exigência dos pais de que os filhos estudem e façam cada vez mais atividades está causando um estresse muito grande, principalmente nos pré-adolescentes, que aparecem com quadros de ansiedade, insônia, agitação excessiva, baixo rendimento escolar. "A criança começa a somatizar seus problemas. Ela se queixa, você procura uma doença e não acha um diagnóstico. Então, depois de descartar todas as possibilidades de uma patologia, sobra a doença psicológica e a criança é encaminhada a um psicólogo ou até ao psiquiatra. Porque não se costuma usar calmante, sedativo em crianças, como no adulto. O tratamento tem que ser à base de terapia."

Exemplos

Machado afirma que sobram exemplos, nos consultórios, de pacientes "mirins" com patologias de gente grande. A própria obesidade, segundo ele, está associada a fatores psicossomáticos: sem saber lidar com suas ansiedades ou seus medos, a criança começa a comer por compulsão. Um de seus pacientes está 30 kg acima do peso e já faz tratamento contra a hipertensão arterial e colesterol aumentado. Outros, ao contrário, podem deixar de comer, apresentando quadros de anorexia, seguidos de náuseas, diarréias e vômitos.

O especialista salienta que até mesmo doenças associadas a problemas genéticos, como o diabetes, estão aparecendo com mais freqüência em crianças. Ele diz acreditar que haja um fator emocional relacionado a isso, pois na maioria das vezes, investigando, descobre-se que o paciente é filho de pais separados ou de pais que trabalham fora, que fica sozinho o dia todo, prepara suas próprias refeições, vai para a escola por conta própria, ou é reprimido e não pode sair de casa. "Você deve imaginar o nível de estresse dessas crianças e a carência afetiva. É difícil não ter um problema emocional."

Conseqüências

Questionados a respeito das conseqüências destas doenças de gente grande nos pequenos, os pediatras explicaram que elas merecem atenção especial, pois são patologias crônicas. A hipertensão arterial, por exemplo, com o tempo leva ao ataque cardíaco ou ao derrame cerebral. Se o problema é diagnosticado numa criança de 8 anos, expectativa de vida dela evidentemente diminui.

Aumenta o acesso aos médicos

Décadas atrás, muitos pais não se importavam com as queixas dos filhos quanto a dores e mal-estar. Pensava-se que a criança estava apenas fingindo um "achaque" para poder faltar à aula. A reportagem do JC Saúde perguntou ao pediatra Ajax Machado se o fato dos pais terem subestimado os sintomas dos filhos por tanto tempo não seria uma das causas para este aumento, verificado agora, no número de casos de patologias em crianças. Ele argumentou que não.

"Hoje em dia, o acesso ao médico é muito mais fácil que antigamente. Primeiro porque tem muito mais médicos. Segundo, porque os convênios democratizaram esse acesso. Mas não é porque tem médico com mais facilidade que está aumentando (a incidência das doenças de adulto em crianças). Eu acho que está aumentando fundamentalmente. Se você for conversar com os médicos mais velhos, ele vai dizer que não tinha isso na época dele. E ele atendia crianças também. Úlcera e gastrite, por exemplo, eram coisas que nem se ensinava para pediatras, não há informações sobre isso em livros um pouco mais velhos. Mas nos congressos atuais já se fala no aumento da incidência. E está nitidamente relacionado ao estilo de vida atual das crianças."

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